Receita: Pão de Talhoffer

Desde que descobri a recomendação de Hans Talhoffer de começar o dia com pão de alfarroba e mel, venho experimentando a cozer bolos com esta fórmula para levar aos eventos de artes marciais históricas a que atendo.

Trata-se duma comida calórica, boa para repor energia ou para compensar uma queda de açúcar. O mel adoça bastante a massa, e a alfarroba dá uma cor interessante, uma textura mais densa e deixa um sabor de fundo que lembra bastante o chocolate, sem chegar a ser.

No último (o Torre de Hércules do 2022) o pão teve enorme sucesso, e várias pessoas pediram-me a receita, de modo que fique este artigo como referência. Hei atualizar no futuro se descobrir mais informação.

Criação da receita

Talhoffer fala de que a primeira comida do dia deve ser santj Johans brott. No alemão moderno,  Johanisbrotbaum é a alfarrobeira, também chamada na nossa língua «Pão-de-São-João». Este nome vem do Novo Testamento, Mateus 3:4, onde João Batista subsiste com alfarrobas e mel.

Não fica claro se o mel é para deitar por cima do pão e comer, ou se vai incluído na cozedura do mesmo. Eu suspeito que a primeira ideia é a boa, porque mantém as qualidades do mel (que degrada ao cozer) e porque é um [pequeno-]almoço mais natural… Mas, para levar por fora da casa e dar de comer a gente numa instalação desportiva, achei mais eficiente (e menos peganhento) incluir o pão na massa.

Clarificado qual era o objetivo, procurei nas redes por «carob bread» e variantes, sem muito sucesso nem para receitas modernas, nem para históricas. Depois procurei por variantes de «johans brott», e aí dei com este artigo da Fechtfabrik que explora este mesmo tema para chegar às mesmas conclusões que eu: não existem receitas medievais de pão de alfarroba. Porém, nele sinalam que em partes da península ibérica ainda se cozinha este tipo de pães. Ao reparar nisto procurei por «pão de alfarroba» e «pan de algarroba» e, efectivamente, apareceram várias dúzias de receitas atuais. Até em Nestlé.

Eliminei destas fórmulas todos os ingredientes que não existiriam na altura para Talhoffer. O resultado foi uma receita muito singela, mas que requer uns poucos comentários:

Receita do Pão de Talhoffer

Pão de Talhoffer no encontro de HEMA Torre de Hércules 2022.

Ingredientes. É tudo aproximado e podes variar as proporções dependendo do resultado que procures:

  • 2 kg de farinha de trigo
  • 750 g de farinha de alfarroba1
  • 16 g de fermento de padeiro
  • 9 g de sal
  • 1 litro de mel
  • 150 ml de água morna*

* A água seguramente será mais, mas é melhor acrescentar depois se a massa fica muito dura.

Método:

  • Na água morna, ativar o fermento de padeiro e somar parte do mel, para alimentá-lo. Deixar 5 minutos até que faça um pouco de espuma (mostra de que está vivo).
  • Por enquanto, misturar a farinha de trigo e a de alfarroba e, uma vez o fermento esteja ativo, acrescentar a farinha ao líquido. Somar igualmente o mel, o sal, remexer e adicionar água se for preciso para obter a textura desejada.2
  • Uma vez bem misturado tudo, deixa descansar um par de horas. Vai levedar um pouco, mas não vai dobrar o tamanho, nem nada que se lhe assemelhe. Novamente, a alfarroba interfere com a farinha de trigo.
  • Pré-aquecer o forno a 180 °C durante 10 minutos.
  • Forrar umas formas com papel de forno (o bolo é muito peganhento) e emborcar a massa nelas. Deixa margem, pois vai crescer no forno.
  • Eu espolvilho por acima um pouco de farinha de trigo porque gosto do contraste do branco dela com o escuro da massa (ver foto), mas obviamente não é necessário.
  • Cozer durante meia hora, ou até que espetando uma faca ou pauzinho no meio, saia limpo.
  • Deixar arrefecer fora do forno, tirar das formas e comer.

Dura mesmo 4 dias ao ar livre, mesmo a temperaturas >30 graus, como verificamos no encontro Torre de Hércules. Com melhor conservação (no inverno, na casa, cobrindo para não secar) consegui fazer durar uma semana inteira, e continuava comestível.

 

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Sobre a Conquista da Vitória (1)

→ Este texto é parte do tratado sobre onomancia (magia com nomes) escrito por Johannes Hartlieb — médico, poeta, sacerdote e em aparência ocultista também — na primeira metade do S.XV. Hartlieb era amigo ou conhecido de Hans Talhoffer (o suficiente para o ajudar em pleitos, polo menos), e as suas receitas magicas deviam ter credibilidade como para que este último as incluísse no seu próprio manuscrito de 1448. No futuro tentarei publicar o resto do tratado sob o tag de #magia.

O interesse deste material que aparece associado aos manuais de artes marciais é duplo: por uma parte ajuda a compreender a cultura (especialmente a marcial) da altura. Por outra, coloca em questão a credibilidade que devemos dar a autores que tanto receitavam técnicas para o uso com espada como métodos infalíveis para ganhar se conheces o nome da tua oponente.

Sobre a Conquista1 da Vitória (1):
os nomes das Irmandades da Nossa Senhora e de São Jorge

por Johannes Hartlieb,
em tradução de Diniz Cabreira.

Em primeiro lugar, devemos observar que toda a Arte de Vencer depende do dia que pertence a quem combate determinado polo nome que leva.

Deves saber que quase todos os grandes mestres costumam categorizar os nomes em duas listas: a primeira contém os nomes consagrados à Nossa Senhora, a Virgem Maria; a outra a São Jorge. De modo que todos os nomes pertencentes a Nossa Senhora, ou seja, que estão na lista dela, são chamados Irmandade da Nossa Senhora, e aqueles no grupo consagrado a São Jorge, são chamados Irmandade de São Jorge.

Além disso, deves saber que todos os nomes que pertencem à Irmandade da Nossa Senhora obtêm vitória completa três dias de cada semana e domingo à tarde. Da mesma forma, a Irmandade de São Jorge obtêm a vitória completa três dias de cada semana e no domingo de manhã (antes do meio-dia).

  • Terça, quinta e sábado e a tarde do domingo são da Irmandade da Nossa Senhora.
  • As segundas, quartas, sextas e antes do meio-dia do domingo pertencem à Irmandade de São Jorge.

Agora atende a isto: se vás desafiar alguém e tens vontade de levar o combate a sério,2 deves ante todo ter a certeza de fazeres isto no teu próprio dia, e ter também a certeza de que quem escreva a carta de desafio esteja na tua Irmandade, e também a pessoa a fazer a entrega da mesma — que seja o dia de todas essas pessoas. Se fizeres isso, não há dúvida de que a vitória e a vantagem serão para ti. Mas deves ter cuidado em não te confundir de dia, ou deixá-lo passar.

Deves também observar que se desafias a tua Irmã ou Irmão em Nome num dia que pertença a ambas partes, será a quem provoca quem terá a vantagem. Mas se uma das duas pessoas quer obcecadamente arriscar-se a lutar contra a sua Irmã, deve escolher os dias que não lhe pertencem.

Por exemplo, se fores da Irmandade de São Jorge e quisesses combater contra outra Irmã de São Jorge, deves começar os preliminares num dia que pertença à Irmandade da Nossa Senhora: terça, quinta ou sábado, e no mesmo dia deves enviar a mensagem ou respondê-la.

O mesmo se aplica à Irmandade da Nossa Senhora, que deverá escolher dias pertencentes à Irmandade de São Jorge.

Adverte que deves guardar-te da alteração de um desafio ou resposta, pois do teu desafio pode resultar que a outra parte decida responder, e o mesmo cálculo pode ser feito ao contrário, e se evitas isso evitarás também grandes males.

Sabe também que quem desafia e quem defende devem esperar para que o desafio ou a resposta aconteçam no seu dia, após o que podem fazer o que quiserem.

Sabido é que quem combate num dia que não é o seu, inevitavelmente terá mal fado. No entanto, quando combatem duas pessoas Irmãs de Nome num dia que não for o seu, vencerá quem emitiu o desafio, mas no caso contrário, a desafiante será derrotada.

Se desejas saber, quando duas pessoas forem combater, quem receberá ferida e em quê parte do corpo, deves atender ao seguinte:

Se quem cobiça a vitória combate contra uma pessoa Irmã no Nome num dos seus dias, não vencerá: a desafiante será ferida, ainda que a vitória lhe correspondesse.

Se o combate é antes do meio-dia, a ferida será da cintura para cima. Se o combate é na tarde, a ferida será de cintura para baixo.

Se queres saber que extremidade vai ser ferida — é um bom dado que revelar à gente — deves fazer o seguinte:

Sabe que nas artes cabalísticas cada dia vem dividido em doze horas. Destas doze, seis são na manhã e seis na tarde.

Quer o dia seja curto ou longo, devemos dividi-lo imediatamente desde a primeira hora em que o sol nasce até o pôr do sol.

Presta atenção: nas horas ímpares as feridas serão no lado direito, e nas horas pares, no lado esquerdo.

Deste modo, se alguém combate a primeira hora da manhã, receberá ferida no lado direito da cabeça ou pescoço, mas se combate na terceira hora da manhã receberá ferida no lado direito do peito ou do braço. Se combate na quinta hora, receberá ferida na cintura direita.3

Se combate na segunda hora, receberá ferida no lado esquerdo da cabeça ou pescoço; se combate na quarta hora, receberá ferida no lado esquerdo do peito e no braço esquerdo; mas se combate na sexta hora, vai receber ferida do lado esquerda, na cintura.

Se combate na primeira hora da tarde, receberá ferida do lado direito no quadril, sobre a coxa; se combate na terceira hora, receberá ferida na coxa do lado direito, sobre o joelho. Se combate na quinta hora, a ferida será na perna direita, por baixo do joelho.

Se combate a segunda hora da tarde, receberá ferida do lado esquerdo, próximo ao quadril; se combate na quarta hora, receberá ferida na coxa esquerda, acima do joelho; se combate na sexta hora, receberá ferida na perna esquerda, por baixo do joelho.

Devemos também deixar claro que pode acontecer que alguém receba ferida em vários lugares. Isso acontece quando o combate dura muitas horas consecutivas. É algo a ter presente.

Agora vou indicar os nomes da Irmandade da Nossa Senhora e da Irmandade de São Jorge.4

Primeiro aqui estão os nomes da Nossa Senhora:

Herman Arnt Sebalt
Friderich Matheus Wasilius
Fritz Rudiger Thomas
Gerhart frantz Reuelant
Cunhart Seÿfridt Elberwein
Gebhart Rudolff Parcziual
Sem Rupprecht Gerlach
Niclas Gotschalck Cristoffel
Heinrich Engelhart Marcius
Peter Caspar Adam
Paulus Ernst Erenfrid
Hemeran Erbwein Lutolff
Meinhart Vincencius Martinus
Ott Laürencius Herwick
Wolffram Magnus Hartman
Arnolt Hylbrant Genewein
Dÿtrich Moralt franciscus
Matheis Dytmar Reinhart
Anthonius Wÿlpold Neythart
Michel
Wÿckman

Aqui está a Irmandade de São Jorge:

Hanns Valbrecht Walthazar
Endres Gotfridt Wilhart
Jacob Deinhart Wenlant
Karll Herwart Alhart
Vlricus Clemens Absolon
Papp Gothart Lucas
Albrecht Ambrosius Glyttur
Lewpolt Arclein Harig
Jorge Reichwein Harttüng
Eberhart Gregory Melchior
Gernhart Wenczla Heÿdolff
Gernolt Lamprecht Werniger
Perchtolt Hambald Stephan
Bartholomes Gümprecht Eckhart
Reynhart Neÿdüng Lutz
Brawn Reichart Appel
Ludwig Sindeman Pürckhart
Cristan Linhart Eraßm
Hunold Gößwein Sigmund
Philippus Wolff Augustinus
Engelbrecht Freÿdang Rempercht
Symon

Esta é a Arte Verdadeira e os nomes exatos da Irmandade da Nossa Senhora e da Irmandade de São Jorge, e quem por ela se guie, com certeza não conhecerá a derrota.

 

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Como treinar com estudantes principiantes

→ Esta é uma tradução parcial, autorizada e adaptada do artigo How to train with beginners, do Guy Windsor. O texto original é mais longo mas também mais específico da sua School of the Sword, e das experiências pessoais do próprio Guy. Porém, a parte central que aqui recolho resulta de aplicação para qualquer pessoa que trabalhe com gente menos experimentada na Kunst des Fechtens, motivo polo que fica como documentação para o estudantado da Arte do Combate.
[Este texto] reflexiona acerca de como o estudantado com maior experiência pode utilizar as pessoas novas que se incorporam às aulas para treinar de modo eficiente em proveito de ambas partes. […]
  1. Deves ser um modelo perfeito. A regra das pessoas iniciantes é esta: mostra a técnica certa mil vezes, e acabarão por copiar corretamente. Mostra a técnica errada uma vez, e copiarão perfeitamente nessa primeira vez. Digo isto sem desrespeito. É simplesmente uma verdade, e nunca vi uma pessoa iniciante para quem não fosse assim. Portanto, ter iniciantes perto exige que todas as tuas ações sejam tão perfeitas quanto for possível.
  2. Trabalha ao teu próprio nível. Uma das cousas que as pessoas iniciantes precisam aprender é a terminologia da Arte. Com elas fazemos cousas como chamar os nomes dos deslocamentos (reto, estranho, passo, compasso, etc.) para responderem com o movimento correspondente. Para o estudantado mais experiente na mesma turma, isto pode parecer miseravelmente tedioso, mas não deveria: espera-se que trabalhe no seu próprio nível. Assim, enquanto toda a aula está a fazer a mesma atividade, algumas pessoas trabalham em lembrar os termos; outras no aperfeiçoamento da sua mecânica; e algumas em possíveis aplicações, desde geração de energia, defesas, ou aplicações técnicas específicas.1
  3. Aproveita o caos. Em exercícios de pares, a pessoa menos experimentada naturalmente cometerá erros. Excelente. Uma verdadeira fonte de caos! O ataque pode ser forte demais, estar muito longe ou muito perto, na linha errada… qualquer cousa. O teu trabalho é adaptar sem esforço e espontaneamente o exercício às condições específicas do ataque que recebes, não ao que esperavas. Isto exige o 100% do foco no que acontece. Quando for a tua vez de fazer o ataque deverás demonstrá-lo perfeitamente (conforme o exercício, como é óbvio). Desta forma teu treino alterna entre escolhas táticas 100% perfeitas em tempo real e mecânicas 100% perfeitas no teu próprio tempo. Parece um exercício 100% perfeito, não é?

É bom também teres presente que:

  • O ataque que recebes nunca é «errado»: só te atingem se falhas na defesa.
  • A tua correção da forma em que a outra pessoa executou o ataque será muito mais convincente se ocorre após teres sucesso na defesa, do que se vem depois de o ataque «errado» atingir-te.
  • Educa modelando, não explicando. As pessoas iniciantes não são estúpidas: apenas ainda não receberam o mesmo treino que ti. Precisam de oportunidades para praticar, não duma palestra.
  • Este tipo de treino exige 100% de foco nas especificidades do ataque que recebes, não no que esperas.
  • Ao treinar com iniciantes, recebes a oportunidade de trabalhar «em profundidade», melhorando a forma em que executas algumas ações. Por contra, nesse treino terás menor oportunidade de trabalhar «ao largo», usando uma maior gama de ações (porque isso vai confundir a pessoa iniciante, já de seu sobrecarregada). Quando emparelhes com estudantes com mais experiência é que poderás trabalhar «ao largo», sempre que isso não entre em conflito com os objetivos gerais da aula.

Por estes motivos, deves aprender a apreciar o influxo de novos geradores de ações aleatórias que exigem a tua perfeição. Tem presente também que, numa década ou duas, essas pessoas podem ser muito melhores na Arte do que ti és agora. Mas sempre lembrarão e sentirão gratitude pola ajuda que lhes deste quando começavam. Podes estar a ajudar a treinar o próximo Bruce Lee, ou Aldo Nadi, ou mesmo Johannes Liechtenauer!

Se achaste estas reflexões úteis, compartilha com as tuas amizades!

 

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Treino solitário sem espada (1)

Há uns meses uma estudante da Arte do Combate perguntava que exercícios podia fazer na casa enquanto não chegava o dia do seguinte treino. O mês passado outro estudante esteve um tempo ausente de aulas e tentei juntar algumas ideias para ele continuar a treinar. Nas atuais circunstâncias de pandemia — que está a fazer que muitas escolas de HEMA devam fechar temporariamente as portas — a matéria volta a ser urgente. Decidi, portanto, juntar aqui umas quantas dicas para presente e futura referência.

[Na imagem de destaque: uma das lâminas indecifráveis do MS.Thott de Talhoffer. Não temos certeza do que sucede nela, mas pensamos que tem a ver com treino físico para os duelos judiciais.]

Exercício em solitário: nem apenas só para quando não tens com quem treinar

Ter outra pessoa com quem treinar é imprescindível no estudo da Arte. Necessitas cruzar as espadas, sentir o ferro, testar técnicas contra alguém que não coopera. Também te beneficiarás enormemente da experiência de gente que leva mais tempo que ti a estudar as mesmas cousas.

Porém, o exercício não começa nem acaba na aula. Ir treinar umas horas à semana e depois esquecer a Arte até o próximo treino reduz muito a capacidade do corpo de interiorizar movimentos, e a capacidade do cérebro de manter relevantes os seus princípios teóricos e práticos. O treino em solitário não é uma alternativa à prática em grupo: é um complemento.

Repara em que o GNM HS 3227a  diz:

Deves ter uma mente aberta e treinar muito, e quanto mais treines, mais hábil vás ser na hora do combate verdadeiro.

E também, mais adiante:

Treina como queiras combater na hora da verdade.

Isto quer dizer que raramente é suficiente com os exercícios feitos nas aulas: o propósito deles é mostrar o que deves aprender, mas é necessário fazer muitas repetições, experimentar para saber porquê funciona o que funciona ou porque não, e adaptar o que necessites ao teu físico e personalidade.

Há também muito elemento básico da Arte que requer trabalho constante: distância, tempo, forma (física e técnica), concentração. Todo isto pode e deve ser trabalhado com regularidade.

Em termos um bocado gerais, eis uma coleção de elementos que é necessário trabalhar sem sequer pegar nunca numa espada para dar forma ao conjunto mente-corpo:

  • ganhar consciência do próprio corpo (proprioceção)
  • conhecer os teus limites físicos e mentais (temporais — os que vão melhorar com treino — e permanentes — o que não podes ou queres fazer).
  • criar hábito de boa estrutura no movimento
  • aprender a gerir distância e tempo
  • aprender a controlar o corpo e a arma — fundamental para a segurança das parceiras, quando estas existirem.
  • reflexos
  • coordenação

Deslocamentos

Trabalho de deslocamento:  passos (mudando o pé que avança) e compassos (sem mudar o pé adiantado) de avanço e de recuo. Passos e compassos transversais (nas diagonais). Isto tudo pode ser feito na casa, no trabalho, e em geral em qualquer espaço, mesmo se reduzido (este vídeo, por exemplo, foi gravado durante um confinamento da COVID):

Aos transversais vistos acima pode-se somar passos cruzados (Schiltstritt).

Se tens mais espaço, podes treinar também passos e compassos circulares, ou de roda (transversais rotando o corpo).

A ideia não é dar passos às toas, mas dá-los bem. Depois de cada passo ou compasso, deves comprovar a estrutura corporal:

  • costas direitas
  • ombros relaxados
  • ombros e cadeiras paralelos à oponente imaginária
  • joelhos flexionados e abertos (não colapsados)
  • o joelho do pé que deu o passo sobre a planta do pé
  • ponta do pé que deu o passo orientada na direção do movimento

Fortalecimento físico

As pernas são uma parte fundamental e muito ignorada dos requerimentos físicos para as HEMA. A gente tende a focar no tronco, pensando que musculatura nos ombros e braços é o que necessitam, mas as pernas são as que nos dão agilidade, colocam e tiram de lugares e as que potenciam o corpo quando realmente o necessitamos.

Um exercício fundamental são os agachamentos, bons não apenas para o Ringen (luta a mão vazia), mas para o uso eficaz do corpo inteiro com as armas também:

Nesse vídeo estão muito focados no físico, porque já conhecem a técnica, mas podem ser feitos inicialmente para trabalhar postura (costas retas, joelhos bem flexionados) que vai ser útil depois na luta com espada e corpo a corpo.

Outros muitos exercícios doutras artes marciais vão ser úteis para trabalhar o tronco. Por exemplo:

Exemplo de rotina diária

Este é um vídeo duma sessão de trabalho solitário na casa. A segunda metade inclui exercícios «com espada» (um jornal enrolado, na verdade) dos que falarei noutro artigo futuro. Repara em que dedicando cinco ou dez minutos a fazer estes exercícios diáriamente podes melhorar de forma notável o teu físico, memória muscular e biomecânica:

Verás que está focado nos deslocamentos e trabalho de pés e pernas. Dependendo das tuas necessidades podes incorporar outros dos ecercícios acima descritos.

Conclusão

Na realidade, o importante é mover-se. Quase qualquer movimento que façamos vai ser positivo para a melhora física, e portanto colocar-nos em melhor lugar para continuar o estudo das HEMA.

Como conselho final: não ambicionar demais. É melhor começar suave com séries de deslocamentos e uns poucos agachamentos cinco minutos ao dia, mas fazer isto todos os dias, que ter uma ou duas sessões muito intensas e depois nunca mais fazer nada. A rotina e repetição são a chave.

Se tens perguntas a respeito do teu treino solitário, não duvides em contactar comigo.

 

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Preparativos para um duelo, por Talhoffer (2)

Hans Talhoffer (1410/15 — 1482+) foi, entre outras cousas, mestre da arte do combate para nobres que se viram na obriga de se bater em duelo.

«Aqui o Mestre Hans Talhoffer» — MS_Thott.290.2º_101vNão temos certeza do seu vínculo com a tradição de Liechtenauer. Há algumas lições semelhantes, mas muitas discordantes, e está ausente o que carateriza aos discípulos do Alto Mestre: a Zettel comentada. Por contra, Talhoffer escreveu a sua própria Zettel, com alguns versos semelhantes e muitos diferentes. Isto pudera ser indicativo de plágio ou, mais provavelmente, que ambos mestres beberam duma tradição comum.

Os tratados de Talhoffer são geralmente muito gráficos, com pouco texto, e têm o propósito explícito de serem referências técnicas para os seus estudantes, mas também é evidente que pretendem reforçar e assentar a necessidade do seu ofício. As partes textuais, porém, oferecem uma interessantíssima visão a respeito do duelo, e de como alguém que ganhava a vida com ele transmitia essa cultura ao seu estudantado.

Podes consultar mais fragmentos traduzidos da sua obra neste blogue, sob o tag Talhoffer.

Para trunfares no combate:
move-te,1 não descanses2.
Luta se a luta é precisa
e ri se é preciso rir3.
Confia na Arte da Espada
que Talhoffer ensinava,
e não te levem a engano
lições de mestres estranhos.4 5

Eis o segredo da Arte Verdadeira segundo os mestres, em forma fácil de entender, e deve ser guardada com zelo, e é proveitosa, e fica aqui exposta em bom fundamento.6

Quando queiras combater pola vida7 com alguém, deves em primeiro lugar arranjar sítio e data. Depois, equipa-te com quanto material vaias necessitar, e deves fazer isto pessoalmente, e em secreto — não fies em ninguém o que vás fazer, ou quais são as tuas intenções, porque o mundo está cheio de falsidade —, e deves prover-te dumas boas luvas,8 espada e perponto, calças e qualquer outra cousa que pretendas usar. E observa bem que este equipamento seja confortável e adequado, e que atenda à tua preferência,  porque a espada não atende a outra razão que ela mesma, e quer ser livre.9

Quando chegues ao lugar do duelo10 e queiras começar, deixa que a outra parte diga e faça quanta cousa queira, e não afastes a tua vista dela,11 e concentra-te,12 e diga o que diga, não te deixes provocar, e combate com zelo13 pola própria vida, e não lhe permitas descanso, e segue e confia na Arte.14

Não temas os seus ataques e, se te combate a sério, lembra o Zucken para burlar-lhos.15

Hans Talhoffer, homem honrado,16 pode dar fé da verdade disto, porque muitas vezes se viu nesta mesma situação.

—Talhoffer, MS Thott.290.2º, S.XV,
em livre tradução de Diniz Cabreira.

 

 

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Preparativos para um duelo, por Talhoffer (1)

Hans Talhoffer (1410/15 — 1482+) foi, entre outras cousas, mestre da arte do combate para nobres que se viram na obriga de se bater em duelo.

«Aqui o Mestre Hans Talhoffer» — MS_Thott.290.2º_101vNão temos certeza do seu vínculo com a tradição de Liechtenauer. Há algumas lições semelhantes, mas muitas discordantes, e está ausente o que carateriza aos discípulos do Alto Mestre: a Zettel comentada. Por contra, Talhoffer escreveu a sua própria Zettel, com alguns versos semelhantes e muitos diferentes. Isto pudera ser indicativo de plágio ou, mais provavelmente, que ambos mestres beberam duma tradição comum.

Os tratados de Talhoffer são geralmente muito gráficos, com pouco texto, e têm o propósito explícito de serem referências técnicas para os seus estudantes, mas também é evidente que pretendem reforçar e assentar a necessidade do seu ofício. As partes textuais, porém, oferecem uma interessantíssima visão a respeito do duelo, e de como alguém que ganhava a vida com ele transmitia essa cultura ao seu estudantado.

Podes consultar mais fragmentos traduzidos da sua obra neste blogue, sob o tag Talhoffer.

Se és nobre e te vês na obriga de te bater em duelo, deves contratar um mestre que te prepare para o combate. Deves fazer que o mestre jure ensina fielmente a sua arte, e que não vai partilhar com outras pessoas os secretos que a ti ensine.

Deves ter cautela e não cair num excesso de confiança que te leve a fachendear1 por aí dos teus secretos, para evitar traições.2

Deves acordar cedo todos os dias, ir à missa, voltar à casa e almoçar3 um pedaço de pão feito de mel e alfarrobas,4 treinar esforçadamente durante duas horas, comer pouca graxa,5 praticar duas horas mais na tarde e à noite cear6 um pedaço de pão de centeio molhado em água fresca porque melhora o folgo e alarga o peito.7

E chegado o momento do duelo, deves ir até à cidade que melhor aches, e solicitar acolhimento e proteção, e escolta para ti e a gente que te acompanhe.

E o teu mestre deve levar-te até um lugar recolhido, onde te ajoelharás e pedirás a Deus a graça de ter fortuna e vitória.

—Talhoffer, Königsegg Fechtbuch, S.XV,
em livre tradução de Diniz Cabreira.

 

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Recursos

A Zettel de Talhoffer

→ O Königsegg Fechtbuch é um dos vários textos a recolher ensinamentos de Hans Talhoffer. Na forma habitual deste mestre, trata-se dum conjunto de imagens com textos muito breves ou sem eles, mas en duas páginas do princípio traz várias reflexões acerca das cautelas que deve tomar a pessoa que se vai bater em duelo, e também um poema, que aqui reproduzimos.

Um dos pontos interessantes deste poema (além do conteúdo) é o seu início que remete à famosa Zettel de Johannes Liechtenauer. Pudera ser que Talhoffer estivesse iniciado na Arte de Liechtenauer, ou bem que este para compor o seu poema tirasse duma estrutura popular na época, ou mesmo duma tradição existente de poemas mnemotécnicos para ensinar a combater. Isto seria compatível com a visão que presenta o 3227a dum Johannes que «viajou e pesquisou por muitas terras, pois queria aprender a Arte», mas que «não inventou o que aqui está escrito, que já existia há centos de anos».

[A imagem de cabeçalho tem propósito meramente ilustrativo e provém do MS Thott.290.2º, não do Königsegg, porque queria algo a mostrar texto.]

Jovem, aprende
a amar justiça e gente.1

Como corresponde, tem coragem
e guarda-te de que te enganem.2

Ambiciona a inteireza
e esforça-te com dureza
na prática cavaleiresca:

Lança e move pedras,
aprende dança e salta,
luta sem armas,
combate com elas3,
rompe lanças nos torneios
e procura amores belos.4

Para combater necessitas,
como para viver, alegria.
Não aprenderás com medo
da Arte nenhum segredo.5

Deves mostrar coragem
contra quem te ataque.

Para honrar a tua dignidade
leva em bandeira a verdade.6

Desconfia do mal da gente
que a lealdade não entende.

Isto que digo é guia
para militar na justiça.7

Se recebes conselhos, aviso:
considera-os com tino
para poderes dizer
se farão mais mal que bem.8

Talhoffer insiste nisto,
os verdadeiros princípios:

Deves observar-te,
para lutar ou combater.9

Lembra os secretos da Arte;
não acredites em qualquer.

Como um urso põe-te
sem saltar perto e longe.10

A tua força usa
sempre na medida justa.

Estuda com esmero
e olha para este texto
com suficiente frequência,
para servir de referência.

E a partir deste ponto vai aprender Leutold von Königsegg a arte de Combater de mão de Hans Tafhoffer.

—Talhoffer, Königsegg Fechtbuch, S.XV,
em livre tradução de Diniz Cabreira.

 

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Conduta nas escolas de esgrima segundo Christoff Rösener

→ O poema «O Conto da Esgrima» («Bericht vom Fechten»), de 1579, narra longamente uma conversa entre o narrador e um estudante de esgrima que vai caminho de Frankfurt para tomar o exame de Mestre da Espada de mão dos Marxbrüder.

Ao longo do poema o estudante conta a história da Arte — presentada como criação de Hércules no monte Olimpo —, aperfeiçoada polo Império Romano e os povos germânicos e, em certa forma, domesticada através dos séculos para afastá-la das carniçarias do campo da batalha e virá-la uma atividade nobre e aceitável socialmente, até culminar nas Fechtschüle — os encontros lúdicos e competitivos burgueses do século XVI. Fala no processo da história dos Marxbrüder, e mais dos seus rivais os Federfechter, e dá uma mostra bem interessante da rivalidade que existia entre ambos (o narrador proclama, num ponto, que vai «dar cuteladas até fazer cair as penas» do esgrimista Federfechter, e depois «varrer o chão com ele»).

O Poema é longo e, além da história e dos conflitos entre grémios, lista também várias técnicas duma versão serôdia da tradição de Liechtenauer. Contra o final do poema descreve as normas de comportamento que se aguardam de quem estuda e pratica a Arte. Achei esta parte interessante por quanto adianta alguns pontos de segurança que ainda aplicamos hoje (não levar nenhum fecho nem peça de metal no equipamento defensivo, por exemplo) e destaca uma atitude de respeito na escola não muito diferente do Código de Conduta que usamos na Arte do Combate:

AS NORMAS DA ESCOLA
Fragmento do poema
O CONTO DA ESGRIMA
por Christoff Rösener, 1579;
em livre tradução de Diniz Cabreira, 2021.

A vergonha maior na esgrima
é estudar sem disciplina:
Deves treinar o que sabes
e ir às aulas com vontade.

Saúda estudantes e mestre
e, nos torneios da escola,
não convides estranha gente.
Devem passar a prova:
três assaltos contra o mestre.
E depois, que o torneio comece!

Sem metal nenhum na roupa,
nem adaga na cadeira,
com cabeça descoberta.

Não deixes cair a arma, segura nela!
Nem caias ti tampouco: sempre alerta!

E não andes a bater às toas.
Conduz-te com boas formas:
não deves fazer burlas.

Fica proibido nos treinos
atacar até fazer sangue
no momento do combate.

Se virem visitantes
deves mostrar respeito
e não fazer desprezo.
Por contra, um par de assaltos
combate polo loureiro.

Vem! Junta-te à dança logo!
Sente a admiração do povo
por mestres e estudantes!

Se as normas não aceitas
afasta-te da Fechtschule,
estudantes, e escola inteira!

Não merecemos pior companhia
da que estas lições ensinam:
que a Arte seja orgulho e honra!

E chego ao final, cumprido o dever
de explicar estas normas.

— Christoff Rösener,
Mestre da Espada, 1579.

 

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Regulamento de Esgrima da Cidade Velha de Praga, 1597

→ Esta é uma versão autorizada dum artigo de Ondřej Vodička titulado 1597, Fencers’ Ordinance of the Old Town of Prague, traduzido por Diniz Cabreira (2021). Entre colchetes [] vão anotações à tradução do texto original feitas por Ondřej, e com números e em notas ao pé clarificações e comentários pola minha parte.

No 28 de julho de 1597, o concelho da Cidade Velha de Praga promulgou o Regulamento dos Esgrimistas a fim de impor a disciplina nos torneios de esgrima (Fechtschule) e controlar os esgrimistas domésticos e errantes.

Realizar um torneio de esgrima na Cidade Velha tradicionalmente era responsabilidade e direito do grémio dos cuteleiros. No entanto, este costume provavelmente estava em declínio desde que o grémio dos Federfechter de Praga surgiu nos anos setenta do século XVI. Os membros desta irmandade combatiam principalmente com espada roupeira, e para ganhar o título de «mestre da espada longa» deviam combater contra um membro da famosa irmandade de São Marcos (Marxbrüder) com sé em Frankfurt, que recebera o monopólio imperial sobre a distribuição destes títulos.

O documento original não sobreviveu. No entanto, o texto foi copiado num dos livros administrativos do concelho da Cidade Velha. O livro foi chamado Kniha pořádkův [O Livro dos Regulamentos] e incorporou cópias de normas selecionadas datadas entre 1476 – 1715. O Livro dos Regulamentos foi infelizmente queimado durante o bombardeio de Praga em 8 de maio de 1945. O texto deste regulamento sobreviveu apenas como um apêndice da publicação Pražští šermíři a mistři šermu [Esgrimistas e mestres de esgrima de Praga] de 1927, da autoria dum esgrimista e historiador de esgrima Jaroslav Tuček (1882 – ca. 1940?).

Vista de Praga por Václav Hollar em 1636.
Original na Galeria Nacional Checa de Praga. Esta cópia da Wikimedia Commons.

Tradução seletiva

O concelho da Cidade Velha de Praga declara e decide que:

1) Existem preguiçosos vindo de outros lugares para Praga, que pretendem organizar torneios de esgrima e ficar ociosos, visitar pousadas e passear à noite. Isso causa muitos escândalos, brigas, feridas e assassinatos.

2) Organizar torneios de esgrima sempre esteve no poder do grémio dos cuteleiros para promover a bravura e uma esgrima viril.

3) O torneio de esgrima foi estabelecido para que os cuteleiros, que vivem uma vida honrada e humilde, possam melhorar as suas habilidades na esgrima.

4) Os esgrimistas mais velhos, eleitos para governar a sociedade de esgrima, devem ser burgueses ou habitantes de longa data da Cidade Velha de Praga e comportar-se com decência.

5) O público dum torneio de esgrima não deve perturbar os esgrimistas.

6) Os esgrimistas que organizam os torneios de esgrima, e em fazendo isso têm poucos rendimentos, devem receber uma quantia justa de dinheiro da taxa cobrada por participar no torneio, para estarem mais dispostos a organizá-lo.

7) Todo esgrimista, seja Federfechter ou Marxbruder, e especialmente os membros dos grémios, que não são preguiçosos, devem ser inscritos num registo especial.

8) Federfechter e Marxbrüder devem juntar-se para organizar um torneio de esgrima todos os domingos e dias feriados.

9) Quem quiser organizar um torneio de esgrima deve perguntar com antecedência aos cuteleiros mais velhos, para poderem acompanhar e endossá-lo perante o Concelho.

10) Atenção especial deve ser dada à reputação do organizador de um torneio de esgrima, para que não seja nem um preguiçoso, nem um causador de problemas, mas um artesão decente.

11) Se houver um desocupado querendo participar de um torneio de esgrima com o propósito apenas de se exibir [«agir como um pavão»] e ganhar dinheiro e viver disso, essa pessoa não deve  ser permitida de fazer parte do torneio.

12) Um torneio de esgrima requer as armas usuais de madeira, como Dussacks, bastões e alabardas, bem como as armas de aço, como espadas1 e roupeiras. Estas armas devem ser mantidas prontas em número suficiente polo grémio dos cuteleiros, com obriga de emprestá-las a quem organize um torneio de esgrima. Se uma arma for danificada ou quebrada durante o torneio, os cuteleiros farão uma nova.

13) Por esse motivo, qualquer pessoa que organizar um torneio de esgrima deve pagar ao grémio dos cuteleiros a taxa indicada de sessenta de Meissner groschen.2 No caso de quebra de uma espada ou roupeira durante o torneio, o organizador paga ao grémio mais trinta kreuzers por fazer uma nova espada e vinte por uma roupeira, porém não há tal pagamento se quebrar uma arma de madeira.

14) Geralmente as pessoas que atendem o torneio são boas e honestas, e até mesmo nobres. É estritamente proibido ao público entrar no meio dos duelos, pois, por ignorar esta regra, muitas pessoas foram feridas ou ficaram cegas. Se alguém infringir esta regra e tiver formação em esgrima, terá proibido participar em torneios por um tempo; se não souber esgrima, essa pessoa será levada perante o Concelho e punida por este.

15) «Há esgrimistas covardes a usarem luvas longas até o côvado, em contra das antigas tradições. Isto fica desde este momento proibido. Quem participar no torneio deve levar luvas a cobrir apenas a mão, para que ninguém descanse a sua esgrima em luvas longas até o côvado.3

16) Ninguém deve ter permissão para participar de um torneio a menos que tenha recebido instrução adequada em esgrima.

17) Quando os esgrimistas fecham a distância não devem se lançar uns contra os outros com raiva, mas devem combater «limpa e longamente» conforme a tradição, sem importar a arma que empunhem.

18) Mestres e estudantes devem agir com solenidade e respeito durante o torneio, sem fazer parvadas4 como sacudir a cabeça ou botar a língua fora.

19) Mestres e estudantes de esgrima devem ficar afastados durante o torneio, Marxbrüder de um lado e Federfechter do lado oposto, para que as pessoas os reconheçam facilmente. Não devem obstruir nem «ficar juntos como gansos» no campo de duelo e, assim, bloquear a visão.

20) Todo esgrimista é obrigado a iniciar o duelo conforme a tradição, ao contrário do labrego, que corre loucamente em busca de uma arma, agarra-a e quer bater com ela como um boi estúpido.

21) Ninguém não autorizado e que não for combater deve entrar no campo de duelo, obstruir os esgrimistas, dar sermões ou se colocar entre eles. Tal comportamento será castigado a golpes.

22) Acontece também que labregos e jornaleiros assobiam e gritam para os esgrimistas, como se fossem uns tolos. Tal comportamento será castigado pelo organizador, seja com prisão ou a golpes.

23) Há esgrimistas que não querem combater no torneio, exceto se é em troca dum prémio em dinheiro. Esta gente tende a berrar a nobres e burgueses, incitando-os a pagar um dinheiro polo qual deveriam lutar. No entanto, o torneio não foi estabelecido como meio de ganhar dinheiro, mas como um exercício para a mocidade. Qualquer esgrimista deve ser punido a partir de agora com uma multa por tal comportamento.

24) No entanto, é possível combater por um prémio em dinheiro, sempre que haja alguém entre o público com vontade de oferecê-lo livremente. Esse dinheiro deve ser entregue ao organizador para que posteriormente possa premiar o vencedor do duelo. O espectador que oferece o dinheiro pode escolher ele mesmo os dous esgrimistas que lutam polo prémio.

25) Esses dous combatentes não devem lançar-se um contra outro como plebeus, como se quisessem matar a outra pessoa no sítio, senão que devem agir segundo a arte própria do torneio de esgrima.

26) Também devem passar por todos os três assaltos e não terminar o duelo após o primeiro golpe quando o sangue aparecer, saindo o ganhador a correr polo dinheiro. O outro pode ter sucesso no segundo turno com um «acerto maior», pois o acerto maior é sempre mais válido do que o menor. Os combatentes devem passar por todos os três assaltos sem nenhum acordo secreto.

27) Quem combate polo prémio em dinheiro sob acordo secreto será punido com prisão e o prémio em dinheiro será confiscado pelo organizador.

28) Se um esgrimista está bêbado e o outro sóbrio, o bêbado não poderá esgrimir, pois a esgrima bêbada causa graves feridas.

29) Ninguém deve receber tratamento de mestre de esgrima e permissão para organizar um torneio, a menos que aprenda a esgrimir corretamente com cada uma das armas. Por esta razão, qualquer mestre de esgrima que organize um torneio deve resistir a um duelo até o primeiro sangue com cada uma das armas.

30) Se chover, o torneio será adiado para que o organizador não perca. O dinheiro já arrecadado deve ser usado para o bem comum.

31) Se o torneio for no domingo, deve começar na primeira hora da tarde5 e não no final da tarde, quando muitos esgrimistas já estão bêbados. Este «teatro» também pode tentar as pessoas a não irem à igreja, razão pela qual o torneio deve terminar antes das vésperas.6

32) Se um torneio for realizado numa casa, o proprietário receberá um Groschen por pessoa e deve garantir lugares adequados para sentar ou ficar em pé conforme a posição social de cada quem.

33) Também deve haver uma cerca construída ao redor do campo de duelo, para que ninguém não autorizado entre ali. Senhores e cavaleiros deveriam observar o torneio desde uma varanda.

34) Deve-se erguer uma estaca perto da cerca e uma pequena pá pendurada dela. Se alguém entrar na cerca sem autorização ou se comportar mal, levará três golpes dessa pá. Qualquer pessoa escolhida pelos anciãos ou pelo organizador do torneio para proceder ao castigo deve colaborar.

A edição em texto completo (checo) deste decreto pode ser encontrada em Jaroslav TUČEK: Pražští šermíři a mistři šermu [Esgrimistas e mestres de esgrima de Praga], Praha 1927, p. 79–94.

 

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Referências

Artigo original:

400 anos e nada muda

Em 1942, depois do ataque japonês sobre Pearl Harbour, os USA estão a livrar uma guerra no pacífico que com frequência envolve ações na floresta selvática e confrontos contra cutelos, machetes, baionetas e mesmo com espadas dos oficiais japoneses.1

Neste contexto, Frederick Ehrsam, C.E.2 escreveu um manual para a faca ou cutelo de campo LC-14-B. Este estava desenhado para o trabalho no mato, e vinha acompanhado de vários instrutivos para o seu aguçado e uso como ferramenta, mas também dum pequeno livrinho de 16 páginas titulado Fighting with U.S.A. Knife LC-14-B (The woodman’s pal).

O tipo de esgrima prescrita no texto, necessariamente superficial, tem uma clara inspiração na esgrima de sabre (como também a guarda do cutelo), adaptada. Porém, o mais interessante para nós são várias instruções de caráter geral dadas para soldados que, com probabilidade, tinham zero experiência em esgrima. De entre o conjunto destaca, na página 11:

«Feint and attack until you hit. If your attack should miss or be parried, do not stop; change the attack continuously from one point to another until successful, or until you are forced to stop.

» If any movements have missed or have been parried […keep attacking exposed openings]. The idea being that as long as you attack, the opponent must parry; if you stop attacking, he will take the initiative and force you on the defensive.»

«Executa fintas e ataques até atingires. Se o teu ataque falha ou é defendido, não te detenhas: continua o ataque mudando de um ponto para outro até teres sucesso, ou até que te vejas na obriga de parar.

» Se os teus movimentos falham ou são defendidos […continua atacando as aberturas expostas]. A ideia é que enquanto te mantiveres no ataque, a outra pessoa deve defender; se deténs o ataque, tomará a iniciativa e obrigará-te a a defender a ti.»

— Frederick Ehrsam, Fighting with U.S.A. Knife LC-14-B, 1942, p.11.
Tradução própria.

Vale comparar isto com os conselhos recolhidos no manuscrito GNM HS 3227a de ~1389 (que temos traduzido e publicado sob o título Há Uma Única Arte da Espada):

«M|Otus · das worte schone /
ist des fechtens eyn hort vnd krone /

 |der gancze mat~iaz / des fechtens / mit aller pertine~ciã / |Vnd der artikeln gar / des fundamentes / dy var / |Mit name~ sint genant / vnd werden dir hernoch bas bekant / |Wy deñe eyñ nur ficht / zo sey her mit den wol bericht / |Vnd sey stetz i~ motu / vnd nicht veyer wen her nit / |An hebt czu fechte~ / zo treibe her mit rechte / |Vm~er in vnd endlich
eyns noch dem andñ künlich / |In eyme rawsche stete / an vnderlos imediate / |Das iener nicht kome / czu slage des nympt deser frome~ / |Vnd iener schaden / |wen her nicht ungeslage~ / |Von desem kome~ mag / tut nur deser noch dem rat / |Vnd noch der leren / dy itczunt ist geschreben / |So sag ich vorwar / sich schützt iener nicht ane var / |Hastu vornome~ / czu slage mag her mit nichte komen /

¶| |Hie merke~ · das · freque~s motus · beslewst in im / begy~nis / mittel · vnd ende / alles fechtens / noch deser kunst vnd lere / |alzo das eyñ yn eyme rawsche / anhebu~ge / mittel / vnde endu~ge / an vnderlos vnd an hindernis synes wedervechters volbrenge / |vnd iene~ mit nichte lasse czu slage kome~ […]»

«Motus: esta verba formosa
é da Arte coração e coroa.

» Pois de facto é desta matéria e não doutra que trata a Arte do Combate. Todo o que esta palavra contém e os fundamentos que nela há serão logo nomeados e explicados.

» E quando fores lutar deves ter estes fundamentos em mente e permanecer em movimento, sem hesitar quando tiveres alguém diante. Deves despregar as tuas artes sem temor, com confiança e sem duvidar, num fluxo constante de ações, para não lhe dares oportunidade de atacar. E assim vás ferir a outra pessoa, que não vai poder atacar por estar ocupada na defesa. E por isto eu digo: «não há defesa sem perigo». Se entendes isto, não terá oportunidade de te ferir.

» Então, tem presente: Frequens Motus, movimento constante, está no início, meio e fim de toda briga, e assim diz esta Arte e estas lições. Deves passar pelo início, meio e fim do combate num único fluir de movimentos, sem te deteres e sem que ninguém te detenha, e sem lhe dares oportunidade de atacar.»

— Anónimo, GNMHS 3227a, ~1389 f.[16r-17v].
Transcrição por Dierk Hagdorn, na Wiktenauer.
Tradução própria.

Sempre achei os conselhos do 3227a surpreendentemente contemporâneos, semelhantes aos que daria um manual do nosso presente. Comparados com as instruções deste manual de combate de há quase um século — certamente com vontade de ser aplicadas — o porquê é evidente: Há Uma Única Arte da Espada.

 

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