Proémios para o estudo das armas de haste

Ringes gut fesser | glefney sper Swert unde messer

— Johannes Liechtenauer, Zettel.

Embora a nossa atividade principal é o estudo da espada de duas mãos sem armadura, a Arte do Combate faz uso duma panóplia mais ampla que aplica os mesmos conceitos. O estudo desses conceitos através das diferentes armas permite, com frequência, um melhor ou maior entendimento dos mesmos.

Nos últimos tempos, em parte forçados polas circunstâncias, estamos a afundar no estudo do combate com armas de haste. Este artigo pretende recolher as minhas notas iniciais, e será seguido doutros a tratar uma primeira interpretação de várias fontes — deverão ser todos arquivados sob o tag «Hastes» deste blogue.

As fontes

Existe muito material dentro do corpus das HEMA para as hastes, mas o interesse da Arte do Combate está nas armas da cavalaria do S.XIV – XV, e especialmente a tradição de Liechtenauer e adjacentes, o que restringe as fontes às que podemos recorrer.

De momento estamos a usar como referência:

  • A Zettel (completa) de Liechtenauer inclui algumas técnicas para lança, tanto a cavalo como a pé, sempre com arnês. Não todos os manuscritos a comentar a Zettel afundam nesta matéria, porém. Ringeck e Lew sim, por exemplo, em medida diferente. Também Danzig.
  • Le Jeu de la Hache é um tratado especializado em combate com archas em arnês. É muito interessante e, embora fale especificamente de archas (hache, Axt, Mordaxt, Pollax), o 95% da técnica é igualmente aplicável a uma lança ou um bastão. O restante 5% pode ser adaptado com maior ou menor dificuldade.
  • Os diversos tratados para o jogo da espada curta em arnês. A técnica da espada empunhada com uma mão no cabo e outra na lâmina é muito semelhante à descrita para a Mordaxt.

Nas aplicações da arma compre distinguir:

  • Haste a pé e lança a cavalo
  • Haste com arnês e haste sem ele
  • Pegada curta e pegada longa
  • Há distinções também na forma da ferramenta: Lança (Glefen, Sper), Archa (Mordaxt, Axt, Hache) e Bastão/Vara (Stangen).

No presente estamos a focar no uso da lança a pé, com e sem arnês.

«Haste» como conceito transversal: contextos

Do meu ponto de vista a distinção morfológica (lança/archa/bastão) é relativamente irrelevante quando falamos de combater vestindo arnês. A técnica é muito semelhante.

No caso do bastão em combate com roupa de rua, a técnica vai ser muito semelhante à utilizada para o combate com arnês. Ainda que uma estocada dum bastão pode ser muito lessiva, em termos gerais os estremos, ao não ter fio nem ponta, não são uma ameaça tão imediata. As «cuteladas» do bastão vão ser o aspeto principal do jogo. Para fazer um bom jogo de cuteladas com uma haste das nossas dimensões,1 o melhor é pegar nela no meio, como se empunha uma archa ou lança contra alguém que veste arnês.

Por contra, se usamos lanças ou archas contra alguém que não veste arnês, o razoável é empunha-las por um estremo e usar técnica semelhante à duma espada longa: combater desde as Hengen e usar Winden e estocadas e cortes (schnitten) desde a Sprechfenster. Aproveitar o alcanço máximo, e tentar colocar boas estocadas guardando-nos das da outra pessoa. Eu prescindiria quase totalmente de cuteladas, salvo que se veja uma oportunidade muito evidente.

Isto é congruente, de novo, com a recomendação do 3227a, que fala de que a «stangen» (que literalmente é bastão, mas que eu interpreto como modelo para as armas de haste em geral) devem ser usadas com a técnica da espada. Isto é: a espada encurtada (uma mão no fio) para combater contra alguém que veste arnês (=a técnica da archa) e a espada «longa» para combater contra quem não (o já dito acima).

Hastes na Arte do Combate: caraterísticas

Uma haste de 240cm serve como arma por si própria (Stangen) ou para montar cabeças de lança (Sper, Glefen) ou archa (Mordaxt, Axt, Hache).

Em consequência, começamos por definir o que será uma haste no contexto da Arte do Combate: qualquer vara de madeira, com ou sem ferragens nos estremos, igual ou superior à altura da pessoa que a empunha. A cota superior estaria no limite que permita usar a haste com comodidade a pé.

O ponto ideal está num comprimento de haste que pudera ser usada tanto a pé como a cavalo. Esta medida está entre os 250 – 350 cm. Mais disso fará a haste de difícil manuseio a pé. Menos, dificultará o seu uso a cavalo.2

Logicamente existem hastes especializadas só para o uso a pé, menores mesmo que a estatura de quem as empunha, e mais longas para uso a cavalo. Estimamos que a lança de uso exclusivo para cavalaria pudera chegar aos 4 – 5m. Mas este não é o nosso objeto atual de estudo.

Jason Kingsley, da Modern History TV, a mostrar uma lança duns 4.5m, a cavalo.

A madeira que estamos a usar é de bidueiro (bétula em Portugal, birch em inglês). É ligeira e doada de trabalhar, e existia na Europa na idade média.

Das minhas pesquisas acho que a madeira ideal seria teixo (yew em inglês), igual que os arcos. Mas é difícil e caro procurar hastes dessa madeira aqui.

Como nota marginal, na cultura popular da Galiza o bidueiro está associado à proteção de moradas e proteção contra o mal. Na idade média, os criminosos eram chicoteados com ramos de bidueiro. De modo que não semelha má madeira para fazer lanças (ou escudos).

A espessura da haste dependerá da aplicação e das preferências pessoais. Para uma haste curta de uso exclusivamente a pé, 2.5cm podem ser suficientes: isso fará que seja mais ágil e fácil de empunhar. Por contra, uma ferramenta mais longa que vai ver uso a cavalo necessitará um diâmetro maior. Nós estamos a usar hastes cilíndricas de 3.5cm de diâmetro, e acho que são um bocado excessivas: 3cm estaria bem. O ideal seria, também, uma ligeira queda distal cara a ponta, com objeto de aligeirar a haste.

Para as cabeças estamos a experimentar várias soluções:

  • Hastes sem nenhum tipo de ferragens (Stangen).
  • Cabeças de lança com asas (Sper) em aço, que face outras cabeças sem elas, estão mais orientadas para o combate a pé. Vale dizer que estas têm também um pé de ferro no extremo contrário, e que isso ajuda a equilibrar o conjunto.
  • Cabeças de lança (Sper) de borracha da ColdSteel — habitualmente não gosto dos produtos desta companhia, mas estas pontas são muito seguras e económicas. Talvez brandas demais.
  • Cabeças de archa (Axt) em borracha. Estas têm uns quantos anos e eram vendidas originalmente pela Revival.us, que não parece estar mais ativa. Porém, há fabricantes como Faits d’Armes que tomaram o relevo, e os seus produtos são bem mais atrativos (se bem caros).

As pontas da ColdSteel são muito seguras nas estocadsas, mas não têm consistência nenhuma: é quase impossível usar a parte de borracha para suster a arma contrária, como seria próprio. Porém, ao ser as hastes compridas, parte da técnica pode-se suplementar usando a madeira.

As cabeças de archa de borracha (quando menos as que nós temos) são perigosas na cutelada, mesmo sendo borracha: a força de panca duma haste faz com que mesmo o que parez um toque leve possa ferir uma mão, ou mesmo deixar inconsciênte a alguém se dá na cabeça: compre ter cuidado com elas. Por contra, as suas pontas são seguras na estocada.

As cabeças de ferro são, evidentemente, perigosas, mesmo sem estarem aguçadas — porém, a rigidez permite trabalhar melhor certas peças. São adequadas para demonstrações ou trabalho técnico. Também se assemelham mais ao peso real da ferramenta, já que a borracha é ligeira.

As hastes nuas (as Stangen, sem ferragens) são tão perigosas como podem ser, já que se trata da arma em si própria. Isto quer dizer, novamente, que compre ter cuidado com elas. Caem na mesma categoria que as hastes com cabeças de ferro.

 

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Um breve guia de estilo visual da Arte do Combate

A medida que a escola medra aumentam também as aplicações do logótipo e da sua marca. Recentemente surgiram algumas dúvidas acerca da colocação dos mendos nas jaquetas, por exemplo.

O objetivo deste guia não é estabelecer um conjunto de normas rígidas que o estudantado da AdC deve seguir, mas uma série de dicas que ajudem a compreender a estética que o clube quer projetar.

Sobre estas dicas faz sentido aplicar o critério e preferência de cada quem a nível estético ou prático. Ter uma cor particular no cabo da espada pode ser nem só idiossincrasia, mas prático para a diferenciar doutras semelhantes, por exemplo.

Outras vezes será o equipamento o que imponha limitaçons nas cores ou estética. Isto pode ser compensado se o resto de escolhas são feitas com inteligência (ver mais adiante em «cores»).

A estética pretendida

A estética da AdC, como evidenciada no logótipo, é:

  • moderna
  • contrastada
  • sólida
  • minimalista

Especificamente, não temos uma estética historicista. Não usamos fardos de recriação, nem de forte inspiração nela. Considero que já a nossa atividade e as ferramentas que empregamos nos situa com clareza nesse campo, e que tem maior utilidade destacar a forma moderna em que nos aproximamos ao estudo das artes marciais do passado.

Como lema guia: Weniger, aber besser.

Guia geral de estilo na vestimenta

Roupa técnica para desporto: não militar, não de vestir. Queremos transmitir a ideia de que estamos a fazer uma atividade física, exercício, movimento, e um contexto presente.

Para exibições, camisola com o logótipo da AdC.

Calças longas de perna inteira, de preferência ajustadas. Isto é por motivos práticos e também para evocar levemente as que foram usadas no S.XV.

Dentro da comodidade de cada quem, roupa ajustada também para o torso: tem a memória da histórica, é mais útil no Ringen, facilita vestir as proteções.

Cores

A base da vestimenta, proteções e qualquer material que vaia na pessoa deve ser preta.

Com moderação, pode-se usar o marelo do logótipo (PANTONE 137C, RGB #FFA100) como acento. Exemplos: cabos das espadas, luvas interiores nas luvas pesadas, bordados para identificar a prenda… Pode-se ficar bem mesmo em prendas interiores à camada externa de proteções (a camisola por dentro da jaqueta, por exemplo).

Como se indicou no início do artigo, pode fazer sentido usar outras cores de destaque para diferenciar o equipamento próprio (cor do cabo da espada, cor das correias das proteções, etc), mas mantendo o domínio da cor preta. Recomendo também harmonia na escolha: se a tua cor pessoal vai ser azul, que seja sempre azul, ou verde, ou vermelha — a mistura de cores resulta confusa.

Compre ter também presente que o equipamento protetor às vezes vem nas suas próprias cores, que pode não ser fácil mudar. Às vezes é possível prever isto e escolher o resto de itens com harmonia (por exemplo, os equipamentos Red Dragon trazem destaques vermelhos: seria boa ideia usar o vermelho como cor de acento no cabo da espada, ou noutros lugares). Outras, não há o que lhe fazer.

Uso do logótipo: mendos

Quando começa a juntar o seu próprio enxoval de equipamento, o estudantado da AdC recebe um mendo1 da sala para coser na jaqueta.

O melhor lugar para o mendo é o braço não dominante (esquerdo para a gente destra, direito para a esquerdina), a uns 12cm do pico do ombro. Esta distância existe para ter a possibilidade de colocar um mendo da federação AGEA sobre o da AdC, chegado o momento.

Lugares alternativos são: a) sobre a cadeira não dominante, deixando 2-3 cm até o bordo inferior da jaqueta ou b) ao lado e um pouco mais acima do cóccix, da mesma forma —basicamente, o espelho traseiro da opção a).

Note-se que é suficiente com um só mendo da AdC na jaqueta. Repetir várias vezes desvaloriza o logótipo, que destaca precisamente polo minimalista da contorna.

Há mendos adicionais disponíveis para quem os solicite, e também algumas variantes de desenho, cores e tamanhos. Podem-se usar em sacas de equipamento, ou suéteres, etc — sempre material complementar ao fardo de esgrima.

 

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Algumas reflexões sobre sparring e etiqueta

Nota do Tradutor: Esta é uma tradução (autorizada) do artigo do Keith Farrell Some thoughts about sparring and etiquette, já que posso assinar ao 100% as suas reflexões e queria ter uma versão na nossa língua disponível para o estudantado da Arte do Combate. Imagino que será também de utilidade para outros grupos de HEMA lusófonos. Se gostas do artigo, podes querer achegar um par de euros para o café do Keith.
A imagem de destaque do artigo é um abraço entre o Keith Farrell e o Jacopo Penso no TaurHEMAchia de 2017, por Andrea Boschetti.

Praticamente todos os clubes de HEMA praticam algum tipo de sparring ou jogo livre, e todos têm alguma forma de etiqueta que governa como as pessoas se comportam e como lidam com as situações que surgem durante os assaltos.

É muito fácil acomodar-se na forma como as cousas são feitas no nosso clube e pensar que isso é «o normal» em toda a comunidade — mas se visitas outro clube ou participas de um evento, rapidamente vás ver que outras pessoas parecem fazer as cousas de forma diferente.

Acho que vale a pena pensar na etiqueta que o teu clube tem para o jogo livre. Por que achas que as cousas são feitas como são feitas, e em quê consistem essas regras ou comportamentos?

O que fazemos antes de combater?

Simplesmente encontras uma pessoa disposta e já começais o assalto? Ou seria melhor conversar rapidamente antes de começar, para ter certeza de que há mútuo acordo acerca dos detalhes?

Eu costumo ter uma palavra rápida com a outra pessoa antes de começarmos. É uma grande oportunidade para verificar os equipamentos de proteção que vai (ou não!) usar, e ter certeza de que há acordo sobre a velocidade e intensidade desejadas. Também é muito útil mencionar quaisquer lesões ou limitações, para que este tipo de informação fique presente, e assim evitar mais danos ou problemas durante o assalto.

Para ser honesto, esta é uma das cousas mais importantes que podes fazer para tornar o sparring mais seguro e produtivo. Uma conversa rápida, de dez segundos ou menos, e podes descansar na certeza de que ambas pessoas vão jogar ao mesmo jogo.

Como começar o assalto?

Eu acho que é saudável começar o combate saudando a outra pessoa, a reconhecer que a luta dá começo e também como mostra de respeito. Porém, antes de fazer cousa nenhuma com a espada, acho inteligente colocar a máscara de esgrima na cabeça se ainda não estiver lá!

Já vi alguns «quase acidentes» ao longo dos anos em que as pessoas não usaram máscaras e moveram-se para iniciar diferentes saudações ou apertos de mão e, inesperadamente, uma espada passa muito perto do rosto de alguém. Não é preciso esforço nenhum para remover o risco da equação: basta colocar a máscara antes de fazer QUALQUER cousa com uma espada, incluindo a saudação.

Assim que a máscara estiver segura na tua cabeça, deves fazer uma rápida lista de verificação mental para ter certeza de que também vestes todos os outros equipamentos. Luvas? Já vi pessoas esquecerem-se delas após precisar das mãos para colocar a máscara. Depois verificar o teu próprio equipamento, dá uma olhada rápida no da tua parceira e certifica-te de que esteja usando máscara e luvas. Não é apenas o seu problema se esquecem de vestir algo — tu também és responsável das pessoas com que partilhas treino.

Só deves fazer a saudação quando tiveres certeza de que o teu equipamento e o da outra pessoa estão prontos para combater, e tenhas vontade de iniciar o jogo livre. Quando seja assim, faz a tua saudação. Após a fazer é quando podes começar o assalto — mas não antes de ambas as pessoas terem saudado.

Em termos da saudação em si, eu prefiro algo simples. Costumo erguer a minha espada na frente do rosto, empurro-a um pouco para frente em direção à minha parceira, e coloco-me em postura de combater. Não há necessidade de cruzar as espadas, não há necessidade de agitar a tua espada como se fosses o Arnold Rimmer a saudar, não há necessidade de saudar toda a outra gente na sala. É melhor agires de forma breve e direta, indicando à tua parceira que já queres começar e, então, quando ela também indique que está pronta, podes começar.

Como lidar com os toques?

Existem várias maneiras diferentes de lidar com os toques durante o jogo livre. Podes lançar um outro golpe a continuação [afterblow] ou não. Podes permitir um segundo golpe além do primeiro, ou podes parar de atacar depois que o primeiro golpe acertar. Podeis voltar às posições iniciais ou apenas dar um passo para trás para ganhar um pouco de espaço antes de começar de novo. Podes fazer uma saudação completa para reconhecer um acerto, reconhecê-lo informalmente ou mesmo não fazer nada para reconhecê-lo.

Clubes diferentes têm maneiras radicalmente diferentes de lidar com isto, polo que pode ser bom discutir brevemente a questão antes de começar.

No meu clube, geralmente permitimos um golpe posterior de forma amigável, mas esperamos que ambas pessoas se separem um ou dois passos e que a que foi atingida reconheça o que aconteceu. Qualquer cousa além disso (saudações ostentosas, por exemplo, ou retornar aos cantos desde os que iniciou o combate) é amplamente supérflua; no entanto, é importante para nós marcarmos que um acerto aconteceu e, portanto, terminar essa troca e permitir que uma nova troca comece de novo.

E como lidar com toques duplos? Novamente, clubes diferentes lidarão com isto de forma diferente. No meu clube, espero que ambas pessoas reconheçam que foram atingidas, porque foi precisamente isso o que aconteceu.

Algo do que particularmente não gosto é quando uma pessoa dá as costas para a outra, ao voltar ao ponto de partida. Isso perturba-me imensamente, pois sinto que virar as costas para alguém durante um combate é estúpido e desrespeitoso. Se eu tivesse feito isso durante qualquer treinamento de karaté, os meus instrutores teriam-me gritado (com razão), e as parceiras de treinamento (com razão) teriam-se sentido desconsideradas e desrespeitadas. No golfe, ficas a olhara para a bola até ver onde caiu. Na arquearia, ficas a olhar no alvo até ver onde a flecha cai. No combate, deves ficar de olho na oponente até que o assalto termine definitivamente.

É claro que alguns clubes não veem problema em virar as costas para a parceira entre toques. Se essa é a etiqueta do clube, então que seja assim — eu simplesmente não gosto, e esse é o meu problema se participo em sessões de jogo livre em clubes onde isso é aceitável. Mas no meu clube, vou repreender-te se te vejo fazer isso.

É extremamente importante saber qual é a etiqueta do clube ou evento em que estás a participar e adequar o teu comportamento às regras locais. Nenhum clube deve mudar as suas regras para corresponder ao costumas fazer noutro lugar: a responsabilidade é inteiramente a tua, como visitante, de modificar o que estás a fazer para se alinhar com a etiqueta e regras locais.

Como lidar com situações incómodas?

O que fazer numa situação em que alguém está a agir perigosamente, batendo com muita força ou fazendo-te sentir desconfortável?

Se eu sinto a necessidade de falar com a minha parceira de treino sobre algo, talvez para pedir uma intensidade menor ou para lembrar que deve prestar atenção em algo em que deveria estar a trabalhar, então geralmente faço um sinal mostrando que quero falar.

Eu tendo a tirar a minha mão esquerda da espada e erguer a palma num gesto de «stop» bem universal, enquanto deixo a minha espada de ponta para o chão de uma forma não ameaçadora. Assim que a outra pessoa vir isso e para de se mover em modo de combate, vou chamá-la com a mão esquerda e dar um passo à frente, certificando-me de que a minha espada permaneça a apontar para o chão, sem ameaçar. Então falamos o que deva ser dito e depois podemos voltar ao combate.

Definitivamente prefiro que o meu estudantado converse entre si no meio de um combate para resolver um problema, do que alguém continuar a agir de forma insegura e deixando a outra pessoa desconfortável. Prefiro que os meus alunos falem e iniciem uma discussão rápida do que ter que arrefecer os temperamentos e «lidar com o problema» quando a questão potencialmente escale.

E, se simplesmente não for possível resolver a situação ou comportamento que te deixa desconfortável, para de combater com a pessoa. Saúda, dá um passo para trás e termina o assalto. Não tens por que continuar a combater com uma pessoa que achas perigosa, mal-comportada ou problemática.

Um pensamento final sobre isto é que, se sou eu quem comete um erro durante jogo livre e faço algo que não considere apropriado ou muito arriscado, ou que possa ter deixado a outra pessoa desconfortável, vou sinalizar para fazer uma pausa e oferecer um pedido de desculpas. Às vezes, até mesmo as melhores esgrimistas ou instrutoras podem cometer erros, ou perder o controle por um momento! Não perdemos nada ao oferecer um pedido de desculpas rápido, mas genuíno, para mostrar que erros como esse não foram intencionais.

Costumo ser muito mais indulgente nos combates se a outra pessoa se desculpa após bater com força demais, ou com entusiasmo demais. Claro, se continua a se desculpar pola mesma cousa todo o tempo, isso não é ótimo: talvez peça para se esforçarem mais em evitar o comportamento problemático, talvez simplesmente peça mais três trocas para podermos encerrar o assalto. Mas um pedido de desculpas genuíno mostra-me que a outra pessoa não está apenas sendo idiota e posso perdoar muitos mais os erros ou elementos estranhos, ou desconfortáveis.

E pedir desculpas quando eu cometo erros significa que as minhas parceiras vão-me estender a mesma gentileza quando eu não estiver na minha melhor forma.

Como terminar o combate?

Os combates geralmente chegam à sua conclusão de uma das três maneiras: ao transcorrer um determinado período (um alarme ou alguém avisa), no final de um determinado número de trocas (após a 10.ª troca, por exemplo), ou diretamente quando alguma das pessoas acha que já teve suficiente. As duas primeiras opções são boas e simples, mas a terceira opção, a do combate um tanto aberto, pode ser difícil de concluir.

Nessa situação, geralmente faço um sinal para a outra pessoa a mostrar que quero conversar e, a seguir, proponho “mais três trocas?” Isso geralmente é bastante aceitável, embora se a outra pessoa estiver com dificuldades, ele pode responder com “ufa, só mais um, por favor?” ou algo assim. Eu acredito que é apenas razoável parar no ponto mais cedo solicitado, ao invés de forçar alguém a lutar além do que sente que pode lidar com segurança. E então combatemos o número combinado de trocas e terminamos.

Quando chega a hora de terminar, acho melhor dar um passo para trás para abrir espaço, e depois saudar. A saudação mostra que pola tua parte o combate terminou, e mais uma vez é um sinal de respeito e agradecimento polo tempo e esforço dedicado a combater contigo.

Porém, assim como na saudação do início do combate, deves manter a máscara posta! Novamente, eu já vi muitos «quase acidentes» em que duas esgrimistas terminaram um combate, uma começa a saudar levantando a espada com a ponta para a frente ao tempo que a outra pessoa tira a máscara e começa a dar um passo à frente para dar um aperto de mão. Isso não deve acontecer. Apenas mantém a tua máscara posta até todo o mundo finalizar de mover as espadas.

Então, no meu clube, mantemos as nossas máscaras postas, damos um passo para trás, saudamos e depois tiramos a máscara.

Em condições normais e não pandêmicas, pode ser inteiramente apropriado avançar nessa fase (com as espadas apontando para o chão ou inteiramente deitadas no chão!) e apertar as mãos (ou tocar os punhos, com luvas grossas), ou oferecer um abraço se for alguém que conheces bem.

Esta pode ser uma oportunidade ideal para fazer uma troca de impressões rápida e rever o que aconteceu. Gosto de assinalar às minhas parceiras qualquer cousa de que gostei do seu desempenho e, em seguida, perguntar se desejam um conselho para melhorar. Não começo apenas dizendo o que devem fazer melhor, porque às vezes já as próprias pessoas saberão e podem não querer ouvir. Acho mais eficaz dizer algo genuíno e honesto sobre o que gostei no seu desempenho e, em seguida, oferecer uma crítica construtiva (mas apenas se quiserem ouvi-la).

Logicamente, é melhor sair da área para ter esta conversa. Provavelmente faz mais sentido saudar, tirar as máscaras, dar aquele aperto de mão ou abraço rápido (ou algo apropriado para Covid) e, em seguida, mover-se ambas pessoas e o seu equipamento para o lado para que outras possam entrar na pista de jogo livre. Desta forma podes falar sem causar problemas para ninguém.

Conclusões

Este artigo descreve a forma em que gosto de ver os combates conduzirem-se em termos de etiqueta no meu clube. Espero que as explicações ajudem a mostrar porque acho que essa etiqueta é um bom conjunto de regras para governar o jogo livre num clube ou evento.

Qual é a etiqueta no teu clube? Tens elementos adicionais que não estão descritos aqui ou lidas com algum deles de maneira diferente? Ignoras qualquer desses elementos? Em caso afirmativo, porquê?

E talvez a pergunta mais interessante: seja qual for a etiqueta de jogo livre no teu clube, segue-la «porque sim», ou já pensaste em como em definir a etiqueta para atingir objetivos específicos?

Tenho verdadeiro interesse em ouvir a tua opinião sobre o assunto!

 

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[ Nota do Tradutor: Esta é uma tradução (autorizada) do artigo do Keith Farrell Some thoughts about sparring and etiquette, já que posso assinar ao 100% as suas reflexões e queria ter uma versão na nossa língua disponível para o estudantado da Arte do Combate. Imagino que será também de utilidade para outros grupos de HEMA lusófonos. Se gostas do artigo, podes querer achegar um par de euros para o café do Keith. ]

Muitos Nomes para a Mesma Arte

A Arte de Liechtenauer é um sistema integral que incorpora a totalidade da panóplia da cavalaria tardo-medieval, e não apenas «espada longa»: implica saber combater a cavalo, com e sem armadura, usando armas de haste tão bem como a mão vazia… Em consequência, nas fontes que estudamos as lições aparecem muitas vezes agrupadas sob diferentes nomes.
 
Segundo a intenção do combate:
  • Ernstfechten / Fechten zu Ernst → a sério
  • Schulfechten / Fechten zu Schimpf → por lazer ou para a prática
Segundo a montura:
  • Fechten zu Fuß → a pé
  • Fechten zu Roß / Roßfechten → a cavalo
Segundo o grau de proteções envolvidas:
  • Harnischfechten → combate com arnês (armadura)
  • Bloßfechten → combate «nu» (em roupa de rua)
Segundo as armas:
  • Ringkunst / Ringen → luta corpo a corpo, com ou sem adaga (Degen)
  • Messerfechten → combate com a espada-cutelo duma mão
  • Fechten mit dem langes swertes → combate com a espada em forma «longa»: com ambas mãos no cabo
  • Fechten mit dem kurzes swertes → combate com a espada em forma «curta»: com uma mão no cabo e outra na lâmina, ou ainda ambas na lâmina
  • Sperfechten / Axtfechten / Fechten mit dem Stangen / Fechten mit dem Sper / etc. → Combate com armas de haste, em geral.
O interessante é que muitas destas divisões podem combinar-se e há muita sobreposição já não apenas nos princípios, mas nas técnicas específicas.
Diagrama de Venn a mostrar a superposição de diferentes áreas da Kunst des Fechtens.
Diagrama de Venn a mostrar a superposição de diferentes áreas da Kunst des Fechtens.
 
Assim, por exemplo, o combate com Mordaxt (Archa) é num 80 ou 90% análogo ao combate com espada curta; as técnicas de Ringen com adaga são assimiláveis a técnicas de combate corpo-a-corpo com a espada (Ringen am Schwert). Muitas das técnicas da espada longa são análogas ou muito semelhantes às técnicas do Messer…
 
Ilustrando esta reflexão, um intento de criar um diagrama de Venn que mostre a forma em que estas correspondências acontecem. Podes descarregar uma versão em PDF neste link.
Vale advertir que as áreas de sobreposição não estão a escala.

 

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Camisola e aulas para 2020-2021

Temos já horários para este ano!
Como podeis consultar no website da escola, as aulas serão:

→ As terças-feiras (martes) de 18h00 a 19h30.

→ As quartas-feiras (mercores) de 19h30 a 21h00.

Continuaremos no Centro Cívico do Romanho, ainda que enquanto a meteorologia permita faremos treinos no parque que há imediatamente fora. A atividade ao ar livre é a mais segura contra o vírus.

Lembrai consultar também as normas específicas para a COVIDE-19!

O Zeitgeist, em t-shirt

Como a imagem criada para o cartaz de início de curso deste ano teve boa acolhida, há disponível uma versão em t-shirt na nossa loja de RedBubble. Podes seguir esse link para ver todos os desenhos que temos à venda, ou ir especificamente ao «Keep Calm & Fight On» premendo nesta imagem.

«Keep Calm & Fight On» t-shirt

Lembra que com a compra de merchandising ajudas a financiar a nossa pesquisa da Arte do Combate e a desenvolver mais atividades de iniciativas!

A máscara de HEMA que (ainda) não existe

Uma pessoa estava a perguntar num grupo de debate se uma máscara de esgrima desportiva era suficiente para começar a treinar HEMA. Várias outras pessoas sairam a avisar de que não, de que necessitava uma coifa ou acolchoamento adicional, de que em grupos X não era permitida uma máscara de esgrima desportiva, etc.

Ainda que, em geral, estas pessoas estavam a dar conselhos válidos, estava a faltar uma visão de conjunto do que são as máscaras de esgrima desportiva, do que se necessita numa máscara de HEMA, e de qual é o estado do consenso na comunidade internacional, pelo que escrevi uma resposta um bocado longa que, acho, pode ser útil para referência futura, pelo que aí fica:

Olá a todos, eu tenho uma duvida, uma mascara normal de esgrima olímpica serve para a pratica de HEMA? Como eu faço esgrima eu tenho uma dessas, queria saber se eu teria problemas com ela. Se alguém já teve experiencias com esse tipo de mascara e puder compartilhar seria ótimo.
Estou pensando em fazer algum tipo de overlay pra proteger a nuca, e também o topo da mascara.
É uma mascara não fie da fleche.

Três ideias rápidas:

  1. Serve para começares.
  2. Pergunta sempre, e segue as indicações, do grupo de HEMA com que vaias treinar.
  3. Se achas que estás a receber golpes mais fortes do que gostarias, detém a atividade, conversa com a outra pessoa para reduzir a força e, se isso não serve, procura outra parceira.

Mais em profundidade:

a) Não existe uma regulamentação estándar internacional a definir o que é aceite ou não em HEMA. Só normativas de grupos mais ou menos grandes, e muitas opiniões individuais. Portanto, há liberdade para usar o que cada quem ache bom e lhe seja aceite nos contextos (aulas, encontros, competições) nos que quer participar.

b) Dito o anterior, há um *abrumador* consenso no uso de máscaras de esgrima semelhantes à que mostras na imagem. Portanto, para começar serve bem.

c) Adicionar acolchoamento interior é, certamente, uma possibilidade, que depende da preferência individual. Eu conheço um par de pessoas a usar. A maioria da gente que conheço (centos de pessoas) não usa acolchoamento interior. Não vi nenhuma regulamentação local (clubes, federações, torneios) a exigir o uso, mas com certeza algures algum coletivo haverá a exigir. Isso não quer dizer que seja a norma.

d) O que sim é, novamente, parte do consenso é que a máscara requer qualquer tipo de proteção para a caluga (como já sabes, porque dizias que ias construir uma). Há várias soluções diferentes (e muitas feitas na casa), mas o mais habitual é ver algo semelhante a uma proteção de teinador de esgrima desportiva com cobertura para a caluga acrescentada. Isto adiciona um acolchoamento exterior, e talvez é por isso que menos gente leva acolchoamento interior.

A questão da proteção na caluga é um consenso menos forte que o da máscara, poque «HEMA» é um termo muito amplo. A gente a treinar espadim não necessita proteção para a caluga. A gente a trabalhar espada longa, certamente devia, especialmente em contextos não competitivos. A gente a usar armas de haste… bom, aí nem a proteção da caluga nem nada é suficiente, mas isto leva-nos ao ponto seguinte:

e) Ainda que *todo o mundo*, em termos práticos, está a usar isto, há também um enorme consenso em que as máscaras de esgrima desportiva não são suficientes. Usamo-las porque são uma alternativa económica e fácil de comprar «off the shelf», e por questões históricas.Também porque são um produto homologado (mas para outra atividade), o que permite, na hora de organizar encontros e competições, fixar um standard bem definido. Mesmo que seja insuficiente, dizer «uma máscara de esgrima CEN2» é mais mensurável e objectivo que «o capacete feito na casa que à organização do evento lhe pareça adequado». Também é algo que a gente que se desloca desde muitos quilómetros pode comprovar na casa, sem chegar ao lugar do evento a descobrir que não é suficiente o equipamento que leva.

f) Desenvolver uma máscara para HEMA de qualidade é um trabalho complexo, e ainda está por completar e por chegar a um consenso internacional — já nem dizer um standard. Houve e há vários intentos, com sucesso variável: «That Guy Masks», dous modelos de máscara de HEMA de Leon Paul (a Titan e a chamada «Melmet»), a máscara de PBT «HEMA Warrior», a máscara com extensão para a caluga «RearGuard», etc.

O importante dos modelos listados acima é compreender:

  • que não há nenhum que encontrasse ainda uma solução a gerir consenso entre a comunidade
  • que são todos experimentais, muitas vezes com controis de qualidade variáveis (mesmo Leon Paul, que é uma marca de equipamento de esgrima desportiva de prestígio, teve problemas nas suas máscaras).
  • que isto é normal, porque estão a experimentar um produto novo e desconhecem os problemas com que se encontram, as cadeias de subministro, os materiais, etc.
  • que nenhum deles é exigido, até onde eu sei, em nenhum coletivo medianamente grande de HEMA no mundo.

g) Relacionado com e), há dous níveis de certificação em máscaras de esgrima desportiva: CEN1 e CEN2. Em geral, a segunda é mais protetiva, e mais cara. Cuidado com misturar estes níveis com a graduação em «newtons»: esta refere-se à teia da barba da máscara, não ao metal, que é o que habitualmente preocupa na nossa prática. Há mais detalhes, para os que refiro este excelente artigo do Keith Farrell.

Em conclusão

Não há um estándar internacional, e a maioria dos grupos utilizam uma proteção de esgrima desportiva que sabem insuficiente.

Estamos a praticar uma arte marcial com armas de aço (e mesmo as de plástico ou madeira podem dar golpes importantes). É muito provável que *nunca* exista um sistema de proteção conta a força excessiva. Não podemos agir como se a proteção que temos (que, repito, é insuficiente) fosse carta branca para bater na outra pessoa com toda a força que queremos.

E adicionalmente: não é necessário. Uma espada real corta, muito bem, sem força excessiva. Quando é usada com mais força da necessária, isto apenas degrada a técnica. A boa técnica *sempre* vai usar apenas a força necessária, e não mais que isso.

Então?

Auto-controlo, confiança, e respeito por nós e polas pessoas com que partilhamos a atividade.

Conversa com a pessoa com quem vaias treinar, e acorda as técnicas que vais usar, onde pode golpear, e com quanta força. Se bate com mais força da que gostas, ou em lugares que tens mal protegidos, deixa de treinar com essa pessoa. Literalmente pode depender a tua vida disso.

Para mais referências, deixo cá a lista de indicações de equipamento que usamos na Arte do Combate.

 

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Treino solitário: exercícios básicos de pés

Há tempo que alguns estudantes da Arte do Combate reclamam exercícios para trabalhar solo. Nas atuais circunstâncias de pandemia o tema voltou à minha cabeça e acho que pode ser útil para a comunidade de HEMA geral. Vou portanto juntar neste e em futuros artigos uma série de ideias para trabalhar na casa em dias vindouros.

Os deslocamentos são uma forma de exercício imprescindível na prática da Arte. Porém, ao não focar na espada, são vistos com menos glamour por muita gente, quando não diretamente ignorados. Isto é um erro: a espada fere, mas são os pés os que nos colocam em posição de ferir.

No contexto que nos ocupa, os deslocamentos são ademais fáceis de fazer. Pode-se aproveitar qualquer espaço da casa: um corredor, nem muito longo, para séries de passos e compassos; um pequeno oco despejado na sala para transversais e passos de roda.

O que procurar nos deslocamentos

Antes de entrar aos exercícios concretos, vamos ver o que diz o GNM HS 3227a acerca disto:

Na hora de combateres contra outra pessoa, deves estar alerta aos seus movimentos e ser firme nos teus, pisando com cuidado como se tivesses cada pé no prato duma balança, de forma que possas deslocar-te adiante ou atrás, com contenção mas também com rapidez e agilidade, com coragem e engenho e sem medo, como logo vás ver.

Deves então atuar com medida1 e mover-te segundo for necessário, sem dar grandes e longos passos, podendo em todo momento deter a ação e mudar para um outro movimento de avanço ou recuo. Com frequência é melhor dares dous passos curtos que um longo, e com frequência é necessário fazeres uma carreirinha com muitos destes passos. Mas às vezes também é necessário um deslocamento comprido e rápido ou mesmo um salto.

Pontos a ter em mente:

  • Die Waage: o equilíbrio na balança. O peso deve estar repartido entre os pés. Ao dar um passo ou compasso, o corpo deve permanecer em equilíbrio para poder cancelar a ação se fosse necessário.
  • Ênfase nos passos curtos, controlados. Isto está relacionado com die Waage e mais com Moße, o conceito de agir com medida e controlo.
  • A importância de conectar deslocamentos de forma fluída, para ser quem de cobrir uma distância longa com vários passos curtos.
  • Fiando com os pontos anteriores: a necessidade de poder virar de direção ou sentido no meio duma destas «carreirinhas».

Então: trabalhar os deslocamentos não é para ser feito às toas. Requer pausa, observação das próprias ações, e correção das mesmas. É aí onde está a utilidade do exercício. Como norma, especialmente no início de cada sessão de prática, recomendo pausar após cada passo (ou sequência de passos se é isso o que se está a treinar) e verificar:

  1. Balanço: temos o peso bem repartido, bem colocado? Ficamos tendentes a cair para um ou outro lado, ou estáveis? Poderíamos iniciar qualquer outro deslocamento?
  2. Postura geral: conservamos a estrutura? Está o corpo reto, peito de frente, coluna estável sobre as cadeiras, braços em posição de agir?
  3. Pernas: estão os joelhos abertos e sobre a planta dos pés? Há sobre-extensão na flexão do joelho?
  4. Orientação dos pés: aponta o pé que avançou na direção do movimento? Ficou o pé atrasado orientado corretamente para a ação próxima?
  5. Separação dos pés: conservamos o espaço entre ambos que abre as cadeiras? Como norma geral compre evitar que fique um pé diante do outro, em linha.

Breve lembrete terminológico

Porque a nomenclatura para os deslocamentos está pouco definida na bibliografia da Kunst, nas aulas da Arte do Combate empregamos termos adatados da esgrima ibérica do XVII:

Quanto à direção do movimento:

  • Reto é qualquer movimento de avanço.
  • Estranho é qualquer movimento de recuo.
  • Trepidante é qualquer movimento paralelo, que nem avança nem recua
  • Transversal é qualquer movimento a se deslocar nas diagonais, quer dizer: entre reto e trepidante (transversal reto), ou entre trepidante e estranho (transversal estranho).

Quanto à relação entre os dous pés no movimento:

  • Passo é qualquer movimento onde muda o pé avançado.
  • Compasso é qualquer movimento onde o pé avançado fica tal.
  • Roda é o movimento onde o corpo vira sobre uma das pernas, desenhando um pequeno arco de círculo com o pé contrário.
  • Shildstritt (literalmente «passo-escudo») é um tipo particular de passo transversal que (contra do que é habitual) é nomeado de forma explícita e descrito no 3227a, onde a perna atrasada cruza diagonalmente por diante da avançada.2

Estes termos podem ser compostos. Assim,  passo transversal é o que movimenta a perna atrasada para ficar adiantada, deslocando-nos numa linha diagonal, enquanto que compasso transversal movimenta-nos na diagonal mas sem chegar a mudar a perna avançada. 3

Exercícios

Passos e compassos aproveitando um corredor da casa.

Realizar os movimentos devagar, focando em corrigir os pontos listados acima. No início do exercício devemos ser mais estritos na forma. Contra o final podemos incrementar a velocidade e a fluidez.

  • 40 passos
  • 40 compassos (alternar a lateralidade ao dar a volta, por exemplo).
  • 40 passo+compasso.
  • 40 passo+compasso+passo estranho (de recuo).
  • 40 passo+compasso+compasso estranho.

Pode-se iniciar já diretamente com esta quantidade ou menos, e ir incrementando de forma gradualmente, somando uns poucos passos mais cada dia.

Uma vez o movimento dos passos e compassos está naturalizado (e isto não sucede numas poucas sessões) o movimento vira natural e podemos brincar com eles, fazendo combinações e imaginando situações. Têm especial interesse as cadeias de deslocamentos onde rompemos o ritmo e/ou sentido do movimento.

Compassos transversais, aproveitando um espaço despejado duns 2x2m, ou menos (serve a cozinha ou a sala, habitualmente, afastando uma mesa). Como no anterior, focar na forma e depois ir introduzindo variedade.

  • 40 passos transversais.
  • 40 compassos transversais.
  • 40 passos transversais+compasso transversal.
  • 40 passos transversais+compasso transversal+fundo.
  • 40 passos transversais+passo transversal.
  • 40 passos transversais+passo de recuo.

Aos transversais vistos acima pode-se somar passos cruzados (Schiltstrite).

Se tens mais espaço, podes treinar também passos e compassos circulares, ou de roda (transversais rotando o corpo).

 

Paulus Kal’s Tetramorph of virtues

[Existe uma versão galego-portuguesa deste artigo]

Here’s a new design, based on the «tetramorph of virtues» from Paulus Kal’s treatise: the keen eyes of the falcon, the brave heart of the lion, and the swift feet of the deer. It holds the sword and the book, as befits any historical fencer, and bears the crown of mastery — because isn’t that to what we strive?

The design is available in RedBubble in several formats, from t-shirts to displates, tapestries, stickers and notebooks — and while you are there, check our other designs too!

[If you fancy using it as a desktop wallpaper, grab the plain picture here.]

Or, if you are yet unconvinced, you can go on reading an admitedly too long exposition on this beast’s symbolism.

The original

Paulus Kal was a master of the Art which wrote near the end of the XV century one significant Kunst des Fechtens treatise — between other cool stuff, he listed there the «Fellowship of Liechtenauer»: the names of several associated masters of the Art.

The tetramorph, in its original form.

The first pages of these manuscripts1 display an evocative image which represents the virtues we should cultivate:

  • falcon eyes = foresight, intelligence
  • lion heart = courage, initiative
  • deer feet = agility, measure

This is made explicit in the text around it:

ich hab augen als ein valk
das man mich nit beschalk
ich hab hercz als ein leb
das ich hin czu streb
ich hab füs als ein hint
das ich darzw und dauon spring

[I have eyes like a hawk / so I will not be fooled //
I have a heart like a lion / so I go on forward //
I have feet like a deer / to spring back and forth]

Which could be more loosely translated, on behalf of rhyme, as:

Mine hawk eyes keen
Make their plans seen

The lion’s heart brave
Then carries me ahead

And deer’s swift step
To jump here and there

Deepening in symbolism

Fiore’s segno.

There’s a similar image in Fiore de’i Liberi’s Flos Duellatorum treatises. He was partial to four virtues: prudentia (lynx eyes), celeritas (tiger arms), audatia (lion heart) and fortitudo (elephant legs).

Paulus Kal’s choice of animals, however, doesn’t strike as casual. Firstly, because this choice represents stylistic differences between Kunst and Flos: the swift feet of the deer versus the strong legs of the elephant, plus the lack of references to strength.

Strength, in Kunst des Fechtens, isn’t generally emphasized as a virtue. GNM HS 3227a explicitly says: «And this is why the Art of Liechtenauer is a true Art: because sooner will you gain victory through skill than through force alone — if this was not so, then who was strong would always win. And then, what sense would learning the Art make?» (My translation — If you are curious, we have a galician/portuguese translation and interpretation of 3227a available for purchase here).

Going deeper in symbolism, these three animals might represent the three fencing guilds which throughout time existed in the Holy Roman Empire:

  • Winged Lion = Marxbrüder = Saint Mark
  • Eagle [Falcon] = Federfechter = Saint Paul
  • Ox [Deer] = Lukasbrüder = Saint Luke

This symbolism is confirmed in the coats of arms for these guilds. The Winged Lion of St. Mark forms part of the Marxbruder heraldry, and likewise does the winged griffin appear  in the Federfechter’s. There’s no recorded arms for the Lukasbrüder (and references to them are scarce indeed) but attributin the Ox to them is only reasonable at this point.2

And Matthew was, of course, the fourth evangelist, whom in contrast to the other three is represented solely by the human figure. There was not, as far as we know, a fencing guild associated to St. Matthew, but one might infer that, by exclusion, he is in charge of all the «non aligned» or «common» fencers out there.

By combining these three animals in human form, Paulus Kal is effectively producing a tetramorph — a critter which in biblical terminology is a joint representation of the four evangelists. In the context of the Kunst des Fechtens meta-reading, this would represent a gathering of virtues from all four «guilds» or kinds of fencers. Unsurprisingly, in pure aristotelian style, he is suggesting that the truth of the Liechtenauer’s word lies not in any of the factions, but in picking the best out of each.

This appropriation of the four evangelists is not anecdotal in the Kunst des Fechtens repertoire of tricks: there is evident inspiration in christian formalism throughout its collective narrative. It shouldn’t come as a surprise — christian teology, mythos and rethoric was omnipresent back in the day.

For example: Liechtenauer’s figure has clear mesianic dimensions. He is the one who brings the Word in the Zettel (an art which «he didn’t invent, because it already existed») not unlike Moses brings the Word of God down from Mount Sinai. He teaches that Word to his disciples, who procceed to spread it throughout the world — the Fellowship of Liechtenauer has more than a passing resemblance to the christian apostles3.

Supposedly Liechtenauer, in Cod. Danzig 44 A 8, 1452

Revelations 4 describes a throne where the Creator sits dressed in red, guarded by the «four living beings»: eagle, lion, ox and human. Is it coincidence that the only image we have that (presumably) represents Johannes Liechtenauer is of an old master dressed in red sitting on his throne?

Is it also a coincidence that the main four stems of early Kunst des Fechtens literature are four, just like the four gospels? Indeed, the oldest texts we can trace are the glossæ by the anonymous 3227a author and those attributed to Sigmund Ringeck, Peter vom Danzig and Martin Huntfeltz (all in Kal’s fellowship list).

The heart of the Art, as 3227a insists once and over again, rests in the Holy Trinity of Schwach/Stark/Indes — or in Vor/Indes/Nach, in other reading. Three are also the ways of wounding with a sword — the Drey Wunder, thrust, cut and slice.4

There are many other correspondences betwen christian formalism and KdF literature which probably deserve a separate article. As stated above, christian culture was very present when these texts were written, and therefore it would offer a recognisable rethoric. This would help in many ways, not in the least in providing credibility by way of similarity, as well as making its teachings easy to memorise and recall.

A modern interpretation

While the original images from Paulus Kal’s treatises have an inherently medieval quality to them, they too are distant from modern day aesthetics and ideas of harmony. To try and update this idea, I took elements from representations of the evangelic animals in stained glass decorations of cathedrals and palaces.

The original tetramorph bore already a sword, which is the main instrument of this Art. I chose to equip it here with a design picked from the pages of the Goliath fechtbuch, whose images are particularly nice and good. This weapon in particular is interesting because while it is depicted as stabbing through an opponent (folio 36r), so presumably sharp, it still sports a Schild, like the ones we associate with Fechtschwerten.

I chose to have the beast hold a book in its spare hand, almost as if reading it. This is a hark to our present historical martial arts community. We rely totally in the existence of these precious fight-books to learn and practice these lost arts, and unsurprisingly the sword-and-book is a recurrent combination in many HEMA club logos.

Straying a bit from proper KdF imagery, I stole Fiore’s usage of the crown as a symbol for mastery to complete the design. Because don’t we all strive for it?

Remember to check RedBubble to get your merchandise with this design and others!

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O Tetramorfo das virtudes de Paulus Kal

O design internacional em RedBubble.

[There is an english version of this article.]

Temos um novo design de t-shirt! Há duas formas de consegui-lo:

  • Para o estudantado da Arte do Combate: falai comigo em aulas.
  • Para outras pessoas que queiram luzir as virtudes da Arte, uma variante está à venda em RedBubble, junto com os outros nossos designs.

Como nada na Arte é arbitrário, podes continuar a ler para sofrer uma explicação bastante longa acerca do que este design significa.

O original

Paulus Kal foi um mestre da Arte que contra o final do S.XV escreveu um dos manuais referentes no estudo da Kunst des Fechtens — entre outras cousas, é onde se recolhe a «Companhia de Liechtenauer», os mestres associados que (presumivelmente) ensinavam a KdF.

O tetramorfo no seu desenho original.

Nas primeiras páginas deste seu manuscrito há uma imagem evocativa das virtudes que devemos cultivar:

  • olhos de falcão = previdência, inteligência
  • coração de leão = valor, assertividade
  • pés de cerva = agilidade, mesura

O texto que a rodeia diz:

ich hab augen als ein valk
das man mich nit beschalk

ich hab hercz als ein leb
das ich hin czu streb

ich hab füs als ein hint
das ich darzw und dauon spring

[tenho olhos como um falcão / para não cair no engano // tenho coração como um leão / para continuar sempre avante // tenho pés como uma cerva / para saltar perto e longe]

Que traduzido livremente, para conservar a rima, pode ficar:

como falcão, esperto,
os enganos espreito

como bravo leão
combato com tesão

ágil como cerva
piso com certeza

Afundando no simbolismo

O segno de Fiore.

Há uma imagem semelhante (o chamado segno) nos tratados da Flos Duellatorum de Fiore de’i Liberi, que preferia quatro virtudes: prudentia (a olhada do lince), celeritas (o tigre), audatia (o coração do leão) e fortitudo (os pés do elefante).

Não parece casual, porém, o número e a escolha de animais feita por Paulus Kal. Primeiramente porque representa traços estilísticos diferenciados da Kunst versus a Flos: a velocidade nos pés de cerva vs. no braço do tigre, e a ausência duma referência à força.

A força, na Kunst des Fechtens, não é considerada uma virtude. O GNM HS 3227a diz, explicitamente: «É por isto que a Arte de Lichtenauer é Arte verdadeira: porque não requer força. Antes vences nela através da perícia que através da força — caso contrário, quem fosse forte vencia sempre. E se assim fosse, que utilidade teria a Arte?». (Lembra que temos à venda uma tradução do 3227a para o português.)

Afundando mais na interpretação simbólica, os três animais puderam representar os três grémios de mestres da Arte no Império:

  • Leão alado de são Marcos = Marxbrüder
  • Águia [Falcão] de são João = Federfechter
  • Boi [Cerva] de são Lucas = Lukasbrüder

Este simbolismo aparece em parte confirmado nas representações das armas destas sociedades que até nós chegaram. O leão alado aparece como animal portador ou defensor das armas dos Marxbrüder frequentemente na literatura. No caso dos Federfechter o animal heráldico que os guarda costuma ser um grifo. As referências aos Lukasbrüder são muito escassas e não conheço nenhum símbolo particular associado, mas a coincidência semelha demasiado grande para ser casualidade.1

Os animais dos quatro evangelistas no Livro de Kells.

Ao colocá-los em forma humana Paulus Kal está a unir os três grémios no «animal» do quarto evangelista, são Mateu: o ser humano. Não existiu (que saibamos) um grémio associado a são Mateu, mas pudéramos inferir que sob a sua proteção ficariam os espadachins comuns ou não afiliados.

Ao combinar estes quatro seres vivos Paulus Kal está a produzir um tetramorfo — uma criatura que na terminologia bíblica representa os quatro evangelistas em conjunto. No contexto da meta-leitura da Kunst des Fechtens, isto representaria a união das virtudes dos quatro tipos de espadachins. Em puro estilo aristotélico, Kal está a sugerir que a verdade da palavra de Liechtenauer não está nas formas e técnicas de nenhum desses coletivos, senão em apanhar o melhor de cada um deles.

Esta apropriação por parte da Kunst dos animais evangélicos não é casual: através dos diferentes escritos há uma clara inspiração na forma — não necessariamente no fundo — do cristianismo. Não deve ser surpreendente: era um elemento omnipresente na cultura da época.

Assim, a figura de Liechtenauer tem com clareza uma dimensão messiânica: ele é quem traz a Palavra da Arte na Zettel (arte que ele «não criou, porque já existia»), de forma semelhante a como Moisés traz a Palavra de Deus nas Tábuas da Lei. Ele é acompanhado dos seus discípulos, que estendem a sua palavra pelo mundo — a Sociedade de Liechtenauer, em certo parelho aos Apóstolos cristãos2.

O suposto Liechtenauer no Cod. Danzig 44 A 8, 1452

O livro da Revelação, 4, descreve um trono no que senta  o Criador vestido de vermelho, custodiado polos «quatro seres vivos»: águia, leão,  boi e o ser humano. Será casualidade que a única imagem que temos a (supostamente) representar Johannes Liechtenauer seja dum velho mestre com roupas vermelhas sentado num trono?

Será também casualidade que as origens conhecidas da Kunst descansem em quatro fontes — como os quatro evangelhos? Efetivamente, entre os textos mais antigos temos as glosas anónimas do 3227a e as atribuídas a Sigmund Ringeck, Peter von Danzig e Martin Huntfeltz (todos estes três na listagem de «companheiros» dada por Kal).

O coração da Arte, segundo insistem o 3227a uma e outra vez, descansa na Santíssima Trindade Schwach/Stark/Indes — ou Vor/Indes/Nach, noutra leitura. Três são também as formas de ferir com a espada: as Drey Wunder (corte, ponta, cutelada).3

Há outros muitos elementos correspondentes entre o formalismo cristão e a KdF que merecem um artigo aparte. Como já citei acima, tratava-se dum elemento cultural muito presente na época, e portanto oferecia uma retórica reconhecível. Isto ajudaria, entre outras cousas, na aceitação do discurso, e também na facilidade para lembrar os ensinamentos.

A recriação moderna

Embora as imagens originais recolhidas nas cópias do tratado de Paulus Kal tenham um inegável sabor medieval, ficam distantes da estética e harmonia modernas. Para tentar atualizar este conceito, peguei em elementos de vidreiras de várias catedrais e paços históricos, reunindo as partes dos animais evangélicos nesta soa figura.

O tetramorfo original portava já a a espada (que é o instrumento principal da Arte). Para o nosso propósito eu decidi somar noutra mão o livro (a via pola que a Arte chega a nós). Livro e espada são símbolos frequentemente usados hoje nas HEMA.

Para completar o conjunto a besta veste na cabeça uma coroa que simboliza a mestria na arte — com frequência, os vencedores dos torneios históricos eram chamados de «reis» da escola.

Lembra que tens camisolas e outros produtos com este design à venda em RedBubble!

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Espadas a Esgalha para 2019!

Para iniciar o novo ano com bom pé, desde a Arte do Combate vamos facilitar a tomada de decissões: se queres fazer exercício, conhecer a tua história, experimentar uma atividade nova — vem connosco!

Sabemos que nem sempre é fácil chegar-se a uma atividade nova onde não conheces ninguém. Por isto, queremos oferecer o seguinte: se inicias aulas em janeiro de 2018,1 podes trazer outra pessoa grátis contigo durante esse mês.2 Não há excusa!

Se queres aproveitar esta oferta para fazer um presente a alguma pessoa querida, podes descarregar e imprimir este bilhete de convite. Lembra encher o teu nome e o da outra pessoa!

Sobra dizer que como sempre, teremos equipamento para emprestar, para além dum ambiente excelente.

Que tenhas boas festas — e um 2019 cheio de espadas!

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