Na procura da esgrima medieval galega

Há uns dias que o camarada Aldán,1 que treina na Sala Viguesa de Esgrima Antiga, escrevia com uma pergunta muito interessante. A resposta e conversa a seguir deu para bastante proveito polo que, com o seu consentimento, passo a reproduzir cá a sua pergunta e a minha resposta, ligeiramente editada em benefício do artigo:

Levo tempo cunha dúbida detras da orella, xusto me acordei hoxe e queria pedirche a tua opinion:

Sempre me preguntei que tipoloxia de esgrima se practicaria de maneira xeral na Galiza dos s XII a XV. Preguntabame se aplicarian o recollido nos tratados I.33 e 3227a, ou se pola contra seguirian algunha outra tipoloxia.

Por que dou por sentado estas dúas tipoloxias? Por que Pedro de Soutomaior foi un dos primeiros (se non o primeiro) en introducir as armas de fogo na peninsula, e ao parecer debia de ser unha persoa que apostaba pola innovación, así que se coñecia a existencia destas armas e conseguiu traelas non me extrañaria que coñecera e trouxera estes estilos.

Posiblemente isto non teña ningun sentido nin relación causa efecto, tamén dicir que falo sen sustentarme en ningunha evidencia, son puras elucubracións.

Mais recentemente vin en Wiktenauer un novo mestre coñecido como Ibn Hudayl. Parece ser que este mestre escriviu en arabe un libro sobre a guerra onde fala de distinta armas no século XIV. Imaxino que aquí poderiamos atopar pistas sobre o estilo de esgrima da peninsula neses anos.

Ben, como ves non teño nin idea, e gustariame trasladarche a ti esta dubida por se tes algunha opinión o respecto, que tipoloxia, ou tipoloxias de esgrima crees que se desenvolveron en Galiza entre os seculos XII e XV?

Pois… é muito boa pergunta, e uma que eu também me tenho feito.

Até onde sei, de momento não temos documentação do tipo de esgrima tardo-medieval que se praticava nestas terras, polo que tudo tem que ser inferência e supostos prudentes. Seria ótimo se nalgum momento aparecesse, nalgum tombo da Catedral ou algures, um sistema de esgrima autóctone ou provas documentais da prática doutros importados…

Porquê não encontramos tratados galegos

O escritório de Aldán em plena operação de pesquisa — no primeiro plano, a nossa tradução do 3227a para o galego, e no fundo, o cartaz da Zettel que acompanha o livro. No computador, as postas de Fiore.

O certo é que os tratados de esgrima (que eram caros de fabricar, e portanto um objeto para gente rica) seguem o dinheiro. No final da idade média, isso é o eixo das cidades itálicas e a Hansa — quer dizer, justamente atravessando o Sacro Império de sul a norte. Quando, virando o S.XV, o poder económico desloca da centro-europa para o eixo leste-oeste íbero-itálico, aí é onde vão aparecer os novos tratados (e com eles, a Destreza). Depois, com o auge da França moderna, será esta a que tome o relevo, etc… Isto é uma simplificação, é claro, mas serve de grosso quadro para a nossa circunstância.

Outro requerimento importante para a existência de tratados (de qualquer matéria) é que exista um público que os valorize. As universidades (e antes delas as escolas catedralescas, etc) que foram nascendo no ultimo terço da idade média são uma mostra da (relativa) alfabetização da sociedade. Aos poucos vai existindo uma nobreza mais geralmente culta (não é certo que a nobreza medieval fosse profundamente bruta e inculta, como sabemos, mas semelha existir uma generalização, particularmente da cultura escrita, entre a nobreza a medida que avança o medievo — para mostra, ver quem eram os autores das nossas cantigas, ou quem manda traduzir a Crónica de Troia à nossa língua) e uma camada burguesa mais formada (que deve levar os seus livros de contas, os seus pleitos e contratos, etc). Esta é a gente que consume e demanda os livros de esgrima (entre outros), e que os mostra como objetos de ostentação social (no caso da burguesia, provavelmente para se apropriar dos atributos da nobreza, no processo de a substituir).

Somados estes dous fatores (que são apenas a superficialidade do assunto, olho) temos que o apogeu económico da Galiza medieval está por volta do S.XII, polo menos relativa aos povos que tinha ao redor (e com isso refiro-me à Europa ocidental inteira). Aí é onde deveríamos encontrar tratados de esgrima, mas até onde sabemos, ainda não começara a moda de os fazer. Não existiam ainda as universidades, não estava ainda (em termos gerais) suficientemente desenvolvidas as camadas meio-ricas da sociedade, e não existia um acumulação de capital suficiente para fazer que os livros de esgrima, que não são objectos de culto, justifiquem a sua existência.

Após o apogeu da Era Compostelá, a Galiza vai cair em vários séculos de guerras quase continuadas, com a nobreza galaica tentando recuperar a hegemonia (ou resistir o seu deslocamento cara Castela). O apogeu destas será a longa Guerra Petrista da final do S.XIV, e a agonia final prolonga-se nas Guerras Irmadinhas e a guerra em defesa de Joana «a Excelente Senhora». Após o fracasso da politica militar galega nestas, os próprios Reis Católicos procedem à famosa «Doma e Castração» que, a efeitos práticos, elimina essas camadas sociais que puderam, em séculos posteriores, ter produzido ou consumido tratadistica autóctone — iniciando, em suma, os Séculos Escuros, onde a nossa cultura em essência desaparece até o S.XIX.

Isto coloca, do meu ponto de vista, a Galiza dos S.XIV – XV (o início da tratadistica de esgrima que conhecemos) numa situação semelhante à da França na altura. O Reino dos Francos era o reino europeu por excelência, flor da cavalaria, etc. Por quê não aparecem os primeiros tratados de esgrima nele?2 Em parte porque não existe uma distribuição de capital entre as camadas altas da população semelhante à do Sacro Império (mais descentralizado, com muitos nobres e burgueses, e com esse eixo comercial norte-sul). Em parte também porque a guerra constante distrai a atenção da gente para matérias mais urgentes: estavam ocupados matando-se como para andar a ler em livros duma esgrima que, afim de contas, era com quase total certeza 99% lazer.

A esgrima que de certo sim era praticada

Então… essa é uma possível explicação de por quê não há (ainda que ogalhá algum dia encontremos algo) material autóctone. Mas, não se estudava esgrima?

Alfredo Erias – desenho de cavaleiro do S.XIV da Igreja de São Francisco de Ourense

Com certeza, sim. Havia espadas, comparáveis às do resto do continente, gente de armas, e gente a combater com elas. Havia, portanto, qualquer tipo de formação ao respeito. A questão é como era essa formação, de onde vinha, quem a ministrava. Para responder a isto seria necessário fazer um estudo a fundo de como estava organizada a sociedade galega na altura, e particularmente as cidades — matéria da que eu conheço pouco (uma de tantas cousas pendentes de aprender).

É possível que existisse um sistema de esgrima autóctone, mas não sabemos. Talvez se praticassem muitos estilos diferentes (quase com total certeza essa era a situação em quase qualquer lugar da Europa na altura). É possível que parte desses estilos fossem importados.

Como ti bem apontas, é importante incidir para a o público geral no fato de a Galiza não ser, na altura, «periferia», nem um lugar atrasado nem longe das vias de comunicação ou dos centros de poder. A Galiza estava em contato direto com a corte inglesa (e, suspeito, com a francesa também), e sempre teve contato com Roma e a península itálica. E, sobra dizer, o contato com Portugal era tal que basicamente era a mesma cousa. Por isso podemos ver arneses como os dos Andrade (especialmente o d’«o Mau»), de altíssima qualidade.

Capa do álbum «Cavaleiros» de Alfredo Erias — no primeiro plano vemos uma archa, espada duma e de duas mãos, adaga de rondel. Atenção também à qualidade dos arneses

Sabemos que o Conde Andeiro estava a cavalo entre Galiza, Portugal e Inglaterra. Era político, e nessa época cabe supor-lhe sequer um pouco de interesse no assunto marcial. Há outros muitos exemplos, claro. A questão é: puderem estas gentes ter importado algum dos estilos que temos documentados? Não é improvável, mas novamente nada temos documentado.

É possível, por exemplo, que dada a ligação inglesa, nalgum momento tivéssemos algum contato com o tipo de esgrima recolhida no Man yt wol, o Cotton Titus e o Ledall. Há quem quer fazer isto essencialmente idêntico à KdF, mas eu tenho sérias dúvidas ao respeito.3

Também pudera ser que algum nobre, burguês, viajeiro, peregrino ou mercenário trouxesse consigo a Kunst do Império. Ou a esgrima do Grupo de Nuremberga. Ou a do Gladiatoria, ou a de Fiore. Por que não? Se calhar a burguesia nascente das Revoltas Irmadinhas estava a estudar alguma destas escolas, ou uma mistura ou bastardização das mesmas.

Alfredo Erias – desenhos arqueológicos de sepulcros de cavaleiros da Igreja de São Francisco de Lugo, S.XV – atenção à inegável espada de duas mãos

Outro tema é o das fontes árabes. Como bem dizes, há material. Não sei como de aplicável seria para nós: dos povos da península (talvez excetuado o basco), o galego era o menos islamizado, muito virado para o atlantismo e os contatos continentais. Para além disto, estamos a falar já duma época de declínio na hegemonia cultural dos estados islâmicos na península. Tenho dúvidas a respeito do que pudesse chegar à prática da esgrima da Galiza, mas quem sabe… o estudo das fontes árabes (para o que possa trazer para nós ou as HEMA em geral) está por fazer, e é certamente muito necessário. Qualquer cousa tem que existir aí.

Em resumo: se a pergunta é «pudera ser que alguém praticasse a tradição X na Galiza», a minha resposta é «é certamente possível». Estávamos bem conectados, e a troca cultural era importante. Se a pergunta fosse «existiu uma tradição de esgrima autôtone», já duvido mais. É possível — até certo ponto, qualquer pessoa a pegar numa espada e improvisar técnicas de combate mais ou menos elaboradas estava a criar o seu próprio sistema, e portanto por definição era um sistema naturalmente galego. Mas isso sucedia em toda parte, em maior ou menor grau. Certamente também sucedeu na Galiza, mas o debate não é esse. Quando falamos de HEMA estamos a falar dos sistemas dos que ficou registo documental. Nesse sentido há que dizer, tristemente, que não me consta termos nada.

Até agora, é claro.

 

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Grupos de HEMA do Brasil, a Galiza e Portugal

Há tempo que estou a fazer um certo seguimento da atividade das HEMA na nossa esfera linguística, já que é um dos meus interesses principais. Tento recuperar toda a informação possível dos grupos e pessoas que a estão a estudar.

Se tens interesse em partilhar na discussão desta comunidade, podes aderir o grupo de Facebook «Hema do Brasil, a Galiza e Portugal». Lá trocamos notícias conjuntas, fazemos visível a atividade dos diferentes grupos e trabalhamos em projetos comuns de normalização léxica, teórica, etc.

Criei também um mapa onde recolho os grupos ativos de HEMA no Brasil, a Galiza e Portugal:

Os critérios de inclusão no mapa são laxos e, sou ciente, subjectivos. Listo nele grupos dos que tenho relativa certeza estão a estudar e treinar HEMA de forma relativamente séria. Quer isto dizer, não apenas uma vista por acima, mas com intenção de continuidade. Faço assim porque quero que seja um recurso útil a quem procura um grupo com que treinar, ou parcerias para a investigação.

Quer isto dizer que o mapa não contém apenas grupos de HEMA «puros», mas também qualquer coletivo que, enquanto trabalha outras atividades (HMB, esgrima desportiva, cénica, outras artes marciais) também, esteja a pesquisar ou trabalhar nalgum grau, mas de forma estável e vísível.

Para julgar isto, apenas posso descansar em testemunhas de terceiras pessoas e em publicações (textos, imagens, vídeos) a mostrar a atividade. É por isso que agradeço, para quem enviar informações dum novo grupo, partilhar essas mostras da atividade comigo também.

Se quiseres achegar informações ao mapa, podes escrever para mapa@artedocombate.gal.

Guiar o carro e jogar a espada

Há pouco passei os exames necessários para obter a carta de condução. Era uma tarefa que tinha pendente desde havia muitos anos. Até o presente não achara realmente necessária, deslocando-me em transporte público, mas a vida muda e novas motivações surgem.

A minha mãe não gostou nada quando lhe enviei esta fotografia com a legenda «Licença para matar!».

Devo reconhecer que nunca foi um assunto do meu interesse, e em consequência não prestei nunca atenção nenhuma as questões relativas os carros (funcionamento, controlos) e a estrada (marcas viárias, códigos explícitos e implícitos, e até orientação básica). Portanto, aproximei a este processo desde uma ignorância bastante absoluta. E no aprendizado tive, várias vezes, sensações que me traziam memórias dos treinos de artes marciais.

Senti essa falha de familiaridade inicial ao ter nas mãos uma ferramenta totalmente nova, desconhecida, cujo funcionamento, medidas, feedback e comportamento desconhecia. Necessitei tempo e repetição de movimentos para me fazer com as distâncias, saber até onde chegam partes dela, quais são forças necessárias para a pôr em movimento e as inércias uma vez que já está, etc.

«Toda Arte tem Distância e Medida» —Johannes Liechtenauer, na Zettel.

Experimentei o desconhecimento das normas de trânsito, a falha de certeza no que fazer. Em ter que aprender a ler um novo sistema de sinais e responder a elas com agilidade. Fui ciente que tinha um conhecimento teórico de isto tudo, mas que existia uma distância considerável entre conhecer essa teoria e ser quem de a explorar na prática.

E, como em qualquer arte marcial, redescobri o imperativo de observar o que as outras pessoas fazem enquanto eu trabalho: quais são as suas ações e intenções (por vezes não coincidentes), estar alerta e agir em consequência. Aprender, por exemplo, a ler quando um carro vai virar pelos sinais subtis que dá, e não aguardar apenas a que sinalize através do indicador (cousa que muitas vezes não sucede).

A prova.

Recentemente fiz várias viagens longas e tive esse momento de epifania em que descobri que já sabia fazer isso tudo (melhor ou pior, mas suficientemente bem como para poder levar o carro várias horas seguidas, por estradas e autoestradas desconhecidas) e a condução convertia-se nesse fluxo de acções espontâneo, informado polo que sucede no exterior mas ao tempo inconsciente, ou apenas parcialmente consciente. Esses momentos de estado de fluxo, de integração com a arte que seja que estejas a praticar, em que tudo o que estás a fazer vira natural e sem esforço, é para mim uma das recompensas maiores do estudo de qualquer disciplina.

Acho que é importante reflexionar sobre estas cousas. Tenho insistido mais duma vez nas aulas ao meu estudantado que há muitas experiências na vida que «são artes marciais» na forma em que as aproximamos: aprender um novo conjunto de habilidades (como guiar um carro), encarar e resolver conflitos (ou descobrir que não há vitória possível neles e é melhor fugir), melhorar através da auto-disciplina e trabalho sistemático (como aprovar uns exames qualquer), etc.

Não acredito realmente nesse repetido conceito de que as artes marciais tenham qualquer qualidade especial que as faz dar lições para a vida. Mas é certo que todas as experiências que acumulamos interagem entre si, e quando uma delas ocupa um lugar importante na nossa mente com frequência serve de padrão para estruturar, analisar e entender o resto da existência. Imagino que um violinista sentirá o mesmo acerca da música, ou uma carpinteira no trabalho da madeira. Para nós que estudamos a fundo uma arte marcial, é quase inevitável vermos o universo através dela. E isso, acho, facilita a vida, e traz paz.