As Doze Regras

Andre Paurñfeyndt foi um mestre da Arte do Combate do S.XVI (possivelmente filiado aos Freifechter), pertencente ao ramo serôdio da tradição de Liechtenauer, precursor de Joachim Meÿer (quem bebeu muito dele).

O seu tratado principal é divergente do estilo comum/anterior no KdF. Essa obra contém uma lista de doze regras focadas às pessoas iniciantes. Não é material a descobrir nada novo, mas é um conjunto útil de regras que podemos ter presentes ao treinar –talvez de particular interesse na hora de ministrar aulas.

Segue o texto original e uma tradução livre e rimada que eu fiz dele. Alguma das regras é bastante críptica, na linha das Zettel, e requer explicação (Glossa!), que desenvolvo por baixo.

ZWÖLFF LEREN DEN ANGEHNDEN FECHTEREN
(Geschrieben von Andre Paurñfeyndt.
Transkribiert von Alex Kiermayer.)

Zwölff Regeln laß dich nit verdriessen
Aus den mag dir große kunst entspriessen

DIE ERST
Welcher fuß vorn steht / sei bogen /
Der hinder gstrackt / ziert den leib oben.

DIE ANDER
Hoch gfochten / mit gstracktem leib /
Gwaltig Bossen auß der lenge treib.

DIE DRIT
Streych und tritt mit einander
Und setz dein füß wider einander.

DIE VIRT
Wer trit nach hewen
Der darff ſich kunſt nit frewen.

DIE FUNFT
Merck was die flech ist /
Ficht nit linck / so du recht bist.

DIE SECHST
Such schwech und sterck /
In des das wort eben merck.

DIE SIEBENDT
Prüff weych odder hert /
Nachreysen sei dein gfert.

DIE ACHT
Streych vor und nach /
Einlauffen sei dir nit gach..

DIE NEUNDT
Ficht nahend beim leib /
Die zeckrur nit vermeid.

DIE X
Tritt nahend in Bundt /
Anderst du würdest verwundt.

DIE XI
Vor der hadt / heyßt die lang Schneid /
Selten ein versatzung auff der kurtzen leid.

DIE XII
Erschrickstu gern /
Keyn Fechten lern.

AS DOZE REGRAS PARA QUEM SE INICIA NA ARTE DO COMBATE
(Pelo Freifechter Andre Paurñfeyndt,
em livre tradução por Diniz Cabreira.)

Não sejam as doze regras obstáculo:
elas são na Arte guia e báculo.

A PRIMEIRA
A perna avante fica dobrada,
sustém o corpo na outra esticada.

MAIS UMA
Luta alto, o corpo erguido:
a força nasce do passo comprido.

A TERCEIRA
Passos e compassos com ambos os pés
juntos e longe, mais uma vez.

A QUARTA
Quem os talhos contrários aguarda
na Arte nenhum prazer acha.

A QUINTA
Lembra bem como a luta é feita:
não há esquerda se vás de direita.

A SEXTA
Forte e fraco procura sempre.
Tem o Indes agora presente.

A SÉTIMA
Testa se o Binden é duro ou brando,
Nachreißen é aqui o teu aliado.

A OITAVA
Avanza e recua com pernas certas:
não seja Einlauffen nunca surpresa.

A NONA
Ataca fundo, perto do corpo;
tem os Zeckruhr sempre prontos.

A DÉCIMA
Fecha distância se o Binden afirmas:
assim não recebes de certo ferida.

A DÉCIMA PRIMEIRA
O fio verdadeiro é por diante da mão,
e pouca defesa há contra o irmão.

A DÉCIMA SEGUNDA
Não aprenderás, se te abate o medo,
da Arte do Combate nenhum segredo.

Análise

Regra 1: indicações de postura. Vale dizer que a postura é pouco descrita nos tratados antigos, mas as primeiras ilustrações presentam uma estrutura mais erguida, com o peso entre as pernas, que ficariam esticadas. No S.XVI vamos ver o peso deslocado (como norma) à perna avançada, que fica flexionada, e a traseira esticada.

Regra 2: o torso direito. Utilizar os passos para formar estrutura e potencia nos talhos.

Regra 3: mais instruções acerca de deslocamentos. Ênfase em jogar com os dous pés, em utilizar tanto movimentos breves coma largos, sempre controlados.

Regra 4: tomada das Zettel, acerca de ganhar o Vor e tomar a iniciativa.

Regra 5: tomada das Zettel, acerca de dar cutelada e passo desde o mesmo lado [no Zufechten, do meu ponto de vista].

Regra 6: bastante evidente. Mui canónica.

Regra 7: Idem.

Regra 8: controlo de distância, estabilidade. Evitar que nos surpreendam dominando a nossa distância, com Ringen.

Regra 9: ênfase nos ataques dedicados, com vontade de ferir, apontando a partes vitais ou lesivas (torso, cabeça, pescoço, ventre, virilha, etc)… mas sem esquecer os ataques «ligeiros», toques leves repetidos. Zeckruhr pode-se traduzir como «picadas de mosquito».

Regra 10: ligar a espada contrária na distância certa. Não serve ligar longe — isso é objecto de Durchwechseln e estocadas, etc. O Binden deve ser firme e manter pressão que ameace o corpo da outra pessoa, para forçar uma defesa também firme e assim poder trabalhar desde ele.

Regra 11: define os dous fios, e fala do uso do fio falso. O uso de ambos os fios é mui característico do KdF, e muitas vezes atacar com o fio falso em vez de fazer um ataque mais simples com o verdadeiro é o que dá a estrutura base para técnicas como alguns dos Fünf Hauen (Zwerch, Schiel, certas versões do Scheittel, certas do Krumphau), boa parte do Winden (Mutieren, Duplieren), etc.

Regra 12: Pudera parecer apenas uma rubrica, mas o certo é que transmite um elemento central da mentalidade e aproximação táctica do KdF ao combate: assertividade, auto-confiança, estabelecer o domínio sobre a situação, etc.

→ Podes descarregar aqui um PDF com as regras em inglês, alemão e galego-português, e as respectivas representações «em relógio».

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A THOUGHT ON «NATIONAL» FENCING STYLES

I would like to put forth an idea to the HEMA community: let’s call things by their proper names.

The whole idea of «nation» is an XIX century construction, and I am trying to argue against applying modern tags («german», «italian», «spanish», etc) to historic entities such as fencing.

Examples that I know well:

  • The Liechtenauer tradition (let’s call it Kunst des Fechtens, because it sounds cool and marketable) is not «german» (many of its masters belong properly to modern Poland, among other places), nor Fiore was «italian». Both of them were, however, clearly products of the prosperous Holy Roman Empire, so I always try to explain that: different schools developed within a context of economic wealth and constant conflict.
  • La Verdadera Destreza might have flowered by the efforts of Pacheco as master of arms in the court of Philip IV. But that court, despite what XIX-century historiography might have taught, was not «spanish». Neither did modern Spain exist back then –it was but a cluster of kingdoms owned by sucessive crowns– nor did the house of Habsburg have a particularly spanish leaning, for it managed an empire that covered most of Europe. Furthermore, both Destreza has undoubtedly some italian inspirations and was developed outside of the modern spanish territory (there is a whole bunch of Portuguese Destreza –see www.ageaeditora.com for some samples– and Thibault might as well be called «Dutch Destreza»).

Truth is: the development of fencing theories into fencing treatises is a by-product of wealth and prosperity. In times when gold and power were massed in different parts of what we call Europe, people found resources to put down their fencing knowledge and rejoice in them. Those territories had mutable names that began to crystalise from the XVI century onwards, generally speaking, through a slow process that would have its heydays at the late XVIII (with the French Revolution and the idea of nation=state) and the XIX centuries (with romanticism, the development of modern nationalism and the idea of nation=people+land+language and culture).

These two ideas competed and still do –examples: as late as 1830 modern Spain did not exist, but was instead still a cluster of different kingdoms whose respective pre-national identities echo loudly in modern nationalist movements; the United Kingdom is still nowadays and very clearly a cluster of different nations.

Furthermore, martial arts are a profoundly individual experience, in that everyone that practices (and teaches them) is performing an interpretation on what they were taught. Masters who developed a particular style might have worked within a specific martial culture or within a group (there is the Liechtenauer Society), but these still had to compete with other traditions that coexisted in the same space and time (famed in the popular imagination, and probably false but still worthwhile for this example, is the clash between Quevedo, proponent of the Esgrima Común, and Pacheco).

HEMA in general would benefit from calling the different fencing styles or schools by their specific names («Verdadeira Destreza», «Kunst des Fechtens», «i.33 system») and where not, by their main authors («Saviolo», «Fiore», etc). It is a service to our community in historic rigour and terminological precission.

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