Por que usar a terminologia original?

…ou, noutras palavras: por que não traduzir os termos? Zornhau para «Cutelada da Ira», Ochs para «O Boi», etc. Fácil, não é?

Mas… como traduzir Winden? Hengen puderam ser «as pontas suspensas», mas é um bocado longo, e dizer apenas «as suspensas» ou «as suspensões» não funciona assim tão bem. E como traduzir Leger? VersetzenNachreißenUberlauffen, AbsetzenDurchwechseln? Zucken? DurchlauffenAbschneiden? 1

Com certeza, podemos pensar em alternativas («Guardas», «Contra-técnicas», «Perseguir», «Ultrapassar» e «Desviar», etc). Mas, realmente traduzem bem o termo original? Fica mais claro o que quereis dizer através delas? Não envolvem pressupostos por parte de quem as escuta?

Nas aulas da Arte do Combate utilizamos uma terminologia próxima às fontes estudadas, mantendo os termos próximos2 da língua original antes que traduzidos, porque acho tem os seguintes benefícios:

  • Contextualiza o que fazemos: estudar uma arte marcial do S.XIV originária no Sacro Império Romano-Germano –e não assim uma arte do norte da península itálica no S.XV, ou a Verdadeira Destreza peninsular do S.XVII, ou o Jogo do Pau contemporâneo autóctone da Galiza e Portugal.
  • Cria um vocabulário técnico com significados específicos, o que evita equívocos e problemas de tradução. Assim, Winden é uma acção específica, sem nenhum outro tipo de interpretação que o termo traduzido possa dar a entender fora do explicado e treinado na aula.
  • É um valor de marca que dá identidade à prática. Não é bom ignorar o valor do marketing. De igual modo que as artes marciais orientais se identificam lexicalmente polo seu vocabulário (SenseiKiaiMorote Seoi Nage…), bem como a esgrima desportiva ocidental actual emprega termos franceses (riposte, flèche, allez…) ou italianos (maestro, radoppio…), ou o boxe utiliza mormente terminologia inglesa (jab, uppercut, ring, K.O.…), utilizar termos germanos no Kunst des Fechtens ajuda a fazer visível e dar carácter a olhos da população geral.
  • É parte do que fazemos! Se é possível separar história e técnica na nossa prática é tema para outro artigo. Mas a nossa arte marcial é histórica –produto dum tempo, cultura e contexto diferentes dos nossos– e conhece-lo e compreende-lo é necessário para a poder estudar em propriedade.

Reconheço que isto acrescenta uma carga de aprendizagem na pronúncia, escrita e assimilação dos significados para quem estuda a Arte do Combate. É possível aliviar esta carga facilitando nas aulas apontamentos da terminologia utilizada, por exemplo. Também é recomendável encorajar às estudantes a aprender a pronúncia correta dos mesmos (e, logicamente, utilizar essa pronúncia nas aulas).

Como clarificações finais, repare-se em que estou a censurar a tradução sistemática de terminologia original. Quer dizer: inventar um termo galego (português, brasileiro) para conceitos do MHD original, e descartar este ultimo do uso quotidiano.

Uma outra cousa é empregar termos autóctones (históricos, documentados) da esgrima ibérica. Nesse caso faz-se necessário combinar a introdução de termos da KdF com a preservação, recuperação e promoção do léxico original da nossa esgrima. Isto não tem por que ser conflituoso: há espaços em que utilizar o termo doméstico (no falar descontraído) e outros nos que utilizar o termo técnico (no nome ou descrição duma técnica).3 Tomemos por exemplo as partes da espada: «folha» (Klinge), «ponta» (Ort), «maçã» (Knopf)… são termos de uso, parte do nosso vocabulário. Dizer «podes pegar na maçã ou no cabo» é aceitável e útil. Por contra, se falar da «ponta do Zornhau» é válido, também é bom chamar a isso Zornort.

Assim, o elemento chave será, como sucede com frequência, a moderação. É bom sempre temperar com sentido comum o uso da terminologia: se dizer Durchwechseln resulta difícil, pode-se utilizar «troca de linha». Se Binden e Winden geram confusão, pode-se falar do «ligamento» no primeiro caso, etc. Mas não falhemos em utilizar os termos originais, especialmente em contextos formais, porque são, também, parte da Arte do Combate.

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