FAQ/Bio

O que é este blogue?

Este é um repositório de ideias, fragmentos de traduções e notas tomadas no estudo das Artes Marciais Históricas Europeias e da Kunst des Fechtens em particular.

O objectivo é documentar esse processo e utilizar os artigos como elementos de comunicação na comunidade lusófona e debate em parcerias de investigação das HEMA.

É também um lugar de documentação e referência para o estudantado da Arte do Combate, escola de artes marciais históricas que ministro em Compostela, Galiza.

O que são as HEMA?

Sigla em inglês para Historical European Martial Arts — Artes Marciais Históricas Europeias.

Se nunca ouviste falar disto, acabamos antes com um vídeo. Repara em que é só uma mostra de exibição –há outros muitos estilos e armas diferentes (incluídas cousas exóticas como luta com foices e gadanhas) e contextos menos cooperativos. Escolhi este do grupo Indes porque está bem presentado e mostra as técnicas bastante bem:

«Artes Marciais» significa «Artes de Marte», onde Marte é o deus romano da guerra. Ainda que costumamos pensar nas artes marciais como algo próprio do oriente, a Europa teve uma longa tradição de guerras, conflitos civis e todo tipo de situações de luta e insegurança (sem contar a realidade de construções legais como os duelos judiciários) e é ingénuo pensar que toda essa actividade não produziu qualquer sistema técnico organizado.

Os descendentes das artes marciais da Europa chegaram até nós na forma de desportos: boxe, esgrima olímpica, lançamento de javalina, luta greco-romana… Muitos desses desportos sofreram importantes mudanças na sua forma e técnica para se adaptar à contorna, equipamento e objectivos da competição, explorando os limites das regulamentações, extremando o físico das pessoas envolvidas, etc.

Nas HEMA pretendemos recuperar a aproximação «marcial» virando o foco para a defesa, a preservação da própria integridade, e o trabalho técnico pensado em situações de aplicação real e não desportiva — dentro dum contexto moderno e seguro.

Walpurgis, aluna do crego ou monge Lutger, no manuscrito que leva o seu nome.
Walpurgis, aluna do crego ou monge Lutger, no manuscrito que leva o seu nome.

Para fazer isto, trabalhamos desde documentos (tratados manuscritos, livros) que ficaram da época em que as diferentes técnicas e armas eram utilizadas. São documentos explícitos, a dar instruções concretas: «se atacam acima e à direita, fazes esta técnica; se reage, respondes com essoutra». O manual de luta mais antigo do mundo, o Walpurgis Fechtbuch ou I.33, é de fins do S.XIII ou princípios do XIV e ensina a lutar com espada e um pequeno escudo que defende a mão chamado borquel. (Sim: a personagem da esquerda na ilustração de acima é uma mulher.)

Há uma considerável colecção de estes textos que se estende ao longo de muitos séculos, lugares geográficos e diferentes armas e estilos. Podes consultar muitos dos textos na Wiktenauer, um arquivo especializado neles. A AGEA Editora, da que faço parte, está especializada em publicar tratados de artes marciais ibéricas, particularmente a escola chamada Verdadeira Destreza.

Porém, o trabalho partindo de estas fontes não é singelo, e muita gente tem interesse apenas no aspecto prático. Não há nenhum problema com isso — é possível fazer-se estudante de muitas escolas de HEMA em muitos sítios do mundo. A HEMA Alliance (uma das federações importantes dos USA) tem um «procurador de clubes» mundial bastante bom.

O que é a Kunst des Fechtens?

Literalmente significa «Arte do Combate». 1 É uma tradição de luta originária do Sacro Império Romano(-Germano) 2 nalgum momento da idade meia e documentada desde o S.XIV através dum longo poema (chamado de Zettel, ou «Anotações») composto pelo mestre Johannes Liechtenauer e comentado pelos seus discípulos.

A Kunst des Fechtens teve um considerável sucesso (no mínimo, em quanto a ficar documentada) e 300 anos depois de Liechtenauer ainda mestres de armas reclamavam pertencer à sua linhagem, embora os seus ensinamentos fossem notavelmente diferentes.

Por que «Nur eyne Kunst»?
Não está mal escrito?

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O título Nur eyne Kunst [ist des Swertes] está tomado do MS 3227a. Pode ser traduzido ao galego (português, brasileiro) como «Há Apenas Uma Arte [da Espada]» ou «Há Uma Única Arte [da Espada]». O significado exacto da frase é discutível, mas tem a implicação clara de que além dos ensinamentos específicos que puderam ser dados acerca de uma arma ou uma técnica concretas, há elementos comuns, abstractos de fundo que são identificáveis e aplicáveis em diferentes contextos e até em diferentes escolas: são princípios essenciais, ideais quase platónicos.

Escolhi esse nome para o blogue porque recolhe bem o espírito do que gosto de fazer e cá quero refletir –pesquisar não apenas (mas também) na literalidade dos escritos, mas no fundo dos mesmos. Em tentar entender o que os seus autores pensavam e trazer-o à prática, e converter essa arte em algo próprio.

A grafia é a utilizada no manuscrito de fins do S.XIV – S.XV. Hoje seria Nur eine Kunst [ist des Schwertes].

Que significa o símbolo do site?

O símbolo (ou isótipo, a parte ou variante icónica dum logótipo) é um monograma ligando a sigla NeK, tomada do título:

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Utilizei como base a caligrafia Tannenberg, que é um desenho alemão do S.XX inspirado nas formas clássicas da letra gótica (Blackletter). De essa maneira consegue misturar o antigo e o moderno, e é um bom resumo do que as HEMA são.

Podes ver que a letra «e» necessitou cortar um bocadinho o traço inferior para acomodar o conjunto. O resto de letras conservam bastante bem a sua forma (ainda que nem é exactamente a original).

Este site está escrito em português?

Este site está escrito em galego. O galego é uma variedade duma família comum de línguas ou dialetos que é normal e internacionalmente conhecida como português, mas que por vezes (quando interessa diferenciar entre as variedades) é chamada de brasileiro, ou português europeu, ou angolano, etc.

Muitas (quase todas) as línguas com grande número de falantes são faladas de formas diferentes em diferentes lugares, com giros fonológicos, lexicais e gramaticais próprios. As vezes até o estremo de dificultar a compreensão mútua entre as pessoas (ver os casos do Alemão ou o Árabe, por citar dous bem diferentes). Porém, a maioria delas utilizam uma escrita formal comum, ou muito semelhante, para todas as variedades. O português/galego/brasileiro reflete isso através do Acordo Ortográfico, que com todo o que se pode dizer a respeito dele eu acho um passo na direção certa.

Há quem discuta se galego e português são hoje a mesma língua, e é uma discussão longa, mas no final a questão é política, não linguística. Parafraseando a Max Weinreich, «uma língua é um dialeto com exército». A Galiza, por questões históricas que talvez nalgum momento hei explorar neste blogue, ficou submetida por Castela primeiro e o estado espanhol depois, e assim isolada do resto da comunidade lusófona internacional. Mas compre sempre lembrar que «a história do Português teve o seu início no Reino da Galiza». 😉

Socialmente o castelhano foi desde o S.XV a língua das camadas dominantes e produziu-se assim uma situação de diglossia em que o galego ficava como língua de estatuto inferior. Quando, já no fim do S.XX, é formalizada a (orto-)grafia oficial da língua galega, esta é feita a imitação da língua castelhana, ignorando a lógica histórica e filológica (houve outras propostas que foram ignoradas por questões políticas). Isto apenas ajuda com o distanciamento do galego do resto da lusofonia, ao impedir (nestes tempos de alfabetização universal) à população da Galiza aceder a registos cultos e técnicos comuns com ela.

Vivemos uma época de vertiginosa incorporação de neologismos e ré-definição de termos, que na Galiza virada de costas à lusofonia são tomados do castelhano. A ubiquidade dos mass media faz com que a prosódia, o léxico e até a gramática da população imitem cada vez mais ao castelhano — é o que a gente vê na TV, escuta na rádio, lê na imprensa e nos livros.

Face isso, há um grupo crescente de gente que (seguindo, por outra parte, a linha discursiva do nacionalismo galego histórico desde o S.XIX) reivindicamos o galego como variedade lusófona e trabalhamos para fazer à sociedade consciente disso. Esse movimento é chamado de Reintegracionismo. Ver, por exemplo, a Associaçom Galega da Língua, a Associaçom de Estudos Galegos ou Academia Galega da Língua Portuguesa.

Para além de posicionamentos culturais e políticos, o galego entendido como variedade lusófona é para mim uma ponte que me permite comunicar com amizades e pessoas a investigar as HEMA no mundo, pelo que resulta «uma língua extensa e útil».

Neste site vás ver certas estruturas gramaticais (a segunda pessoa do plural, por exemplo), bem como escolhas lexicais («dous» versus «dois») ou formais (digamos, o uso da segunda pessoa do singular) habituais na Galiza que noutras variedades da nossa língua comum podem resultar estranhas ou arcaicas. Por outra parte, sendo publico alvo do blogue em boa medida internacional, tento facilitar a leitura utilizando variantes internacionais como a flexão da nasalidade («-ão»/«-ões» por «-om»/«-ons», etc). Tenho a esperança em que com esta estratégia todo o mundo fique descontente. 😀

Biografia e currículo

dinizÉ estranho escrever acerca de um próprio.

O meu nome é Diniz F. Cabreira. Por vezes verás escrito como «Denís F. Cabrera» —a grafia espanhola com que fui registado ao nascer. Não me preocupo muito com isso porque a pessoa de quem tomei o nome, o Rei Dom Diniz, foi grafado de muitas formas ao longo da história (ele mesmo assinava «Denys»). Podes pronunciar como quiseres, <dɘnˈiʃ> ou <dinˈiʃ>, mas evita o acento na primeira sílaba, <dɛníɛs>.

Nasci em 1982 na cidade de Vigo, na Galiza. Estudei Física e Informática, mas trabalho como designer gráfico. O meu interesse nas HEMA possivelmente tenha origem nos contos do Rei Arthur e histórias de cavalaria que lia de criança. Quem não quis encontrar o Graal, fazer justiça e matar dragões?

Treinei Judo e Aikido antes de conhecer as artes marciais históricas europeias. Junto com vários amigos também entusiastas, fundei a Gallaecia in Armis (na altura Sala Compostelá de Esgrima Antiga) em 2008. Lá ministrei aulas de espada longa até 2017, em que decidimos seguir caminhos separados. Desde então tenho a minha própria escola chamada Arte do Combate, onde ensino a Kunst des Fechtens de Johannes Liechtenauer, com ênfase nas formas mais antigas da tradição.

Além das aulas semanais, tenho ministrado workshops pontuais em encontros da federação galega de HEMA AGEA e da federação portuguesa FPEH. A gente diz que falo de mais ao dar aulas, e tem razão.

Interesso-me com facilitar a conexão da Galiza com o resto de países lusófonos, para o que mantenho parcerias com praticantes de HEMA de Portugal e do Brasil.

Fundei com Ton Puey e Alberto Bomprezzi a ESPADA – Comunidade Iberoamericana de Artes Marciais Históricas Europeias.

Faço parte do comité editorial da AGEA Editora e colaboro lá na edição crítica de tratados ibéricos de HEMA. Tento projectar na comunidade internacional o trabalho dela, traduzindo ao inglês ora livros como o Manuscrito da Espada ou as Lições da Espada Preta, ora artigos.

Traduzi para a nossa língua o GNM HS 3227a — um dos textos mais antigos da Kunst des Fechtens — sob o título Há Uma Única Arte da Espada. Para além da tradução, o livro contém vários ensaios a contextualizar a Arte lá recolhida. O link anterior leva a uma página neste blogue dedicada ao livro.

Podes contatar-me através do formulário deste blogue para questões relacionadas com as HEMA, ou bem através do Facebook. Também podes visitar o site web da minha escola, Arte do Combate, se tens interesse em atender às aulas semanais.

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Notas

  1. Questão filológica: «Mas não é o Fechten alemão o mesmo que fencing no inglês, quer dizer, “esgrima”?». Sim e não — o inglês fencing (na atualidade, «esgrima») de origem germânico, tem de facto a mesma raiz que fence («valado», uma construção defensiva) e defence («defender»), e também fight («lutar», «combater»).
  2. Sacro Império Romano, ou Romano-Germano, mas não «Alemanha». Embora na altura por vezes era usado o termo Deuches Reich («Império Alemão», literalmente), utilizar nomes de entidades politicas modernas cria confusão. O Sacro Império Romano da altura era vasto e muito diverso, e envolvia a totalidade ou parte das actuais Áustria, Polónia, Boémia, Borgonha, o norte da Itália, Holanda, Hungria, Checoslováquia, Ucrânia, e Roménia e Eslovénia, por falar das partes mais grandes. Alguns autores de manuais adscritos ao Kunst des Fechtens pertencem a esses territórios. E, falando nisto: o Flos Duellatorum, que normalmente é «considerada a escola italiana» de esgrima… foi escrito por Fiore, natal de Liberi, cidade do norte da península itálica que na altura era parte do Sacro Império Romano.