Um duelo judicial em Burgos

→ A imagem de cabeçalho do artigo está tirada do MS Germ.Quart.2020, também chamado «Goliath». É um livro do S.XVI, como evidenciam as armaduras e estética, e portanto anacrónica com o texto relatado embaixo, mas as imagens são muito belas, e precisava algo com que ilustrar.

Através dum post de Facebook de Medieval Advisor soube deste duelo judicial do S.XIV em Burgos que aparece registado no Ly myreur des histors de Jean d’Outremeuse1.

Procurei o texto original, e velaí:

Item, ilh oit I champt à cel temps en Espangne d’on chevalier et d’on escuier qui soy ametoient de trahison, qu’ilh avoient trahit le roy et vendut; li eskuier appellat le chevalier de fait de trahison et dest qu’ilh avoit vendut le roy d’Espangne al gran roy de Bennamarin; si fut fais li champs en la citeit de Burs, là ilh s’estoient appelleis, et vinrent en champs ambdois orgulheusement et à grandes pompes : et plus de nobles gens amenât li escuwier que li chevalier, car ilh estoit milhour de sanc et de linage que li chevalier; et estoient II hommes hais, gros et puissans, mains li chevalier estoit plus poisans que li escuvier; et estoient bien d on eaige. Se vinrent mult contement s, armeis de piet en cappe, et tant qu’ilh vinrent ensemble à le jouste; li chevalier brisât sa lanche et li esqueir ne brisât mie le siene, mains ilh poindit si fort le chevalier qu’ilh le cuchat en sovine sor le cul de son destrier, si qu’ilh ne se poioit r avoir. Quant l escuir veit chu, si brochât cel part et le quidat aherdre aux bras: mains li destrier de chevalier li ferit des pies derier si fort le cheval de l’escuwier en le eusse diestre pardevant, qu’ilh li rumpit le eusse, si chaiit à terre; mains li escuwier salhit hors délie selle enmy le champt legierement, et lassât son cheval et vint al chevalier qui encors gisoit en sovine sor le cul de son cheval, si le sachat jus à terre, et li montât sor le panche et le commenche à frappeir d’on cutel d’achier en le visier de hayme et de tous costeis; et chis soy deffendoit à son poioir, qui ne poioit avoir son cutel. Al derain, li escuir prist 1 mâche de plonc qu’ilh veit deleis li gésir, si commenche à frappeir le chevalier en le visier de hayme si qu’ilh li alat tôt espateir le visier par teile manière qu’ilh li feroit sor les dens: adonc criât mult fort li chevalier en disant qu’ilh soy rendoit. Adonc vint la justiche avant qui li demandât qu’ilh voloit dire, et ilh respondit : « Je me reng à cel escuwier et cognoie que je suy faux et trahitre, et ay trahit et vendut le roy d’Espangne. » Adonc furent leveis, si en fut faite justiche à chu afferant.

Que, traduzido, poderia ficar assim:

Houve naquele tempo na Espanha2 um duelo entre um cavaleiro e um escudeiro que se acusavam de traição, por terem traído e vendido o rei; o escudeiro acusou o cavaleiro do feito de traição e de vender aquele rei de Espanha ao grande rei de Benamarim; e decorreu o duelo na cidade de Burgos, onde se desafiaram, e viérom ao campo ambos com grande orgulho e com grandes pompas: e mais nobres gentes levou o escudeiro que o cavaleiro, porque era de melhor sangue e de melhor linhagem que o cavaleiro; e eram amobos os dous homens odiados, grossos e poderosos, mas o cavaleiro era mais poderoso3 que o escudeiro; e eram bem de uma idade.4 E viérom mui briosos, armados da cabeça aos pés, até que se juntárom na justa;5 o cavaleiro quebrou a sua lança e o escudeiro não quebrou a sua, mas feriu tão forte o cavaleiro que o deitou de costas sobre a garupa do seu corcel, de modo que não se podia erguer. Quando o escudeiro viu isto, esporeou contra ele e quis-o travar dos braços: mas o corcel do cavaleiro feriu tão forte com as patas traseiras o cavalo do escudeiro na perna direita dianteira, que lhe rompeu a perna, e caiu em terra; mas o escudeiro saltou fora da sela para o meio do campo com ligeireza, e deixou o seu cavalo e veio ao cavaleiro, que ainda jazia de costas sobre a garupa do seu cavalo, e puxou-no abaixo, à terra, e subiu-lhe sobre o ventre e começou-o a bater com um cutelo de aço na viseira do elmo e de todos os costados; e este [o cavaleiro] defendia-se o melhor que podia, mas não podia alcançar o seu cutelo.6 À derradeira, o escudeiro tomou uma maça de chumbo7 que viu jazer a par de si, e começou a bater no cavaleiro na viseira do elmo, de tal jeito que lhe foi abatendo a viseira, até lhe bater sobre os dentes: então o cavaleiro gritou mui forte, dizendo que se rendia. Então veio a justiça avante, que lhe perguntou o que queria dizer, e ele respondeu: «Rendo-me a esse escudeiro e reconheço que sou falso e traidor, e traim e vendim o rei da Espanha». Então foram ambos erguidos, e dele [o cavaleiro] foi feita justiça segundo convinha.

 

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Causas para o duelo judicial, por Talhoffer

Hans Talhoffer (1410/15 — 1482+) foi, entre outras cousas, mestre da arte do combate para nobres que se viram na obriga de se bater em duelo.

«Aqui o Mestre Hans Talhoffer» — MS_Thott.290.2º_101vNão temos certeza do seu vínculo com a tradição de Liechtenauer. Há algumas lições semelhantes, mas muitas discordantes, e está ausente o que carateriza aos discípulos do Alto Mestre: a Zettel comentada. Por contra, Talhoffer escreveu a sua própria Zettel, com alguns versos semelhantes e muitos diferentes. Isto pudera ser indicativo de plágio ou, mais provavelmente, que ambos mestres beberam duma tradição comum.

Os tratados de Talhoffer são geralmente muito gráficos, com pouco texto, e têm o propósito explícito de serem referências técnicas para os seus estudantes, mas também é evidente que pretendem reforçar e assentar a necessidade do seu ofício. As partes textuais, porém, oferecem uma interessantíssima visão a respeito do duelo, e de como alguém que ganhava a vida com ele transmitia essa cultura ao seu estudantado.

Podes consultar mais fragmentos traduzidos da sua obra neste blogue, sob o tag Talhoffer.

«Velaqui as sete causas polas que um homem tem o dever de combater:

  • A primeira é o assassínio
  • A segunda é a traição
  • A terça é a heresia
  • A quarta é promover deslealdade contra o seu senhor
  • A quinta o sequestro
  • A sexta é o perjúrio
  • A sétima, abusar de mulher ou donzela

» E esses são os motivos pelos que um homem desafia outro a um duelo. Esse homem deve mostrar-se diante dum tribunal e apresentar o seu caso pela sua própria palavra. Deve este homem nomear a quem acusa pelo nome de batismo e apelido. Em chegado o acusado, deve o acusador repetir três vezes as acusações diante de três juízes — salvo se algum deles não aparece e não responde por si. Então deve o acusador mostrar que a sua necessidade é justa e correta. O acusado deve entender isto tudo tão bem como o acusador, e isto é importante pois vai em benefício da lei da terra. E apenas após ouvir as testemunhas deve ser emitido veredito.

» Então, quem fosse acusado deve mostrar-se diante dos três juízes para responder e defender. Deve mostrar-se livre de culpa e repetir que as acusações não são certas e que está disposto a combater por essa verdade, como permite e requer a lei da terra que pisa. Será então decretado o seu tempo para treinar, e este será de seis semanas e quatro dias. Passado esse período, deverão ambos combater, seguindo o costume e direito da terra. Ambos os contendentes devem livremente jurar retornar ante o tribunal e combater um com o outro, e assim cada um terá perto de seis semanas de treino em paz, e terão proibido romper essa paz até que chegue o momento que foi decretado pelo tribunal.

» […] É assim que dous homens vão ao duelo — salvo se tiverem menos de cinco graus de parentesco entre si: neste caso não poderão resolver através do duelo, e isto deve ser jurado por sete homens das ramas maternas ou paternas da família de qualquer um deles […]

» E se um homem desafiado for tolheito ou tivesse má vista, será justo por parte dos juízes decretar que a pessoa completa seja posta ao nível da outra, e este decreto deve ser feito assim ambos os homens jurem, para assim o homem tolheito ou com má vista ter oportunidade de vencer no duelo igual que o outro.

» E quando as seis semanas tenham passado e chegue o dia, então ambos devem apresentar-se diante dos juízes […] e nesse momento o acusador deve jurar que tem causa para combater contra o outro, e que considera o outro culpável. E assim os juízes marcarão uma arena e uma guarda para o duelo e um veredito, e darão conselhos seguindo os costumes da terra: que o homem errado será derrotado segundo a honra demanda, e que isto será prova de que o outro falou com verdade e justiça.

» Quando os combatentes se chegarem à arena, o juiz olhará para ambos e lembrará que está proibido tentar eludir o duelo nem por saúde nem por riqueza, e que ninguém poderá intervir na luta nem ajudar os combatentes […]

» E se qualquer combatente saísse da arena antes de o duelo chegar ao seu mortal fim, seja porque foi empurrado fora pelo seu oponente ou porque tenta fugir ou pelo motivo que seja, ou mesmo se admite que o outro homem tinha razão na causa do combate — então esse homem será julgado derrotado, e correspondentemente executado e matado. Porque foi conquistado por outro homem em combate, e foi feita justiça seguindo a lei e costume da terra».

— Hans Talhoffer, 1459, MS Thott.290.2º.
Extraído dos antetextos do livro Há Uma Única Arte da Espada.

 

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