Através dum post de Facebook de Medieval Advisor soube deste duelo judicial do S.XIV em Burgos que aparece registado no Ly myreur des histors de Jean d’Outremeuse1.
Procurei o texto original, e velaí:
Item, ilh oit I champt à cel temps en Espangne d’on chevalier et d’on escuier qui soy ametoient de trahison, qu’ilh avoient trahit le roy et vendut; li eskuier appellat le chevalier de fait de trahison et dest qu’ilh avoit vendut le roy d’Espangne al gran roy de Bennamarin; si fut fais li champs en la citeit de Burs, là ilh s’estoient appelleis, et vinrent en champs ambdois orgulheusement et à grandes pompes : et plus de nobles gens amenât li escuwier que li chevalier, car ilh estoit milhour de sanc et de linage que li chevalier; et estoient II hommes hais, gros et puissans, mains li chevalier estoit plus poisans que li escuvier; et estoient bien d on eaige. Se vinrent mult contement s, armeis de piet en cappe, et tant qu’ilh vinrent ensemble à le jouste; li chevalier brisât sa lanche et li esqueir ne brisât mie le siene, mains ilh poindit si fort le chevalier qu’ilh le cuchat en sovine sor le cul de son destrier, si qu’ilh ne se poioit r avoir. Quant l escuir veit chu, si brochât cel part et le quidat aherdre aux bras: mains li destrier de chevalier li ferit des pies derier si fort le cheval de l’escuwier en le eusse diestre pardevant, qu’ilh li rumpit le eusse, si chaiit à terre; mains li escuwier salhit hors délie selle enmy le champt legierement, et lassât son cheval et vint al chevalier qui encors gisoit en sovine sor le cul de son cheval, si le sachat jus à terre, et li montât sor le panche et le commenche à frappeir d’on cutel d’achier en le visier de hayme et de tous costeis; et chis soy deffendoit à son poioir, qui ne poioit avoir son cutel. Al derain, li escuir prist 1 mâche de plonc qu’ilh veit deleis li gésir, si commenche à frappeir le chevalier en le visier de hayme si qu’ilh li alat tôt espateir le visier par teile manière qu’ilh li feroit sor les dens: adonc criât mult fort li chevalier en disant qu’ilh soy rendoit. Adonc vint la justiche avant qui li demandât qu’ilh voloit dire, et ilh respondit : « Je me reng à cel escuwier et cognoie que je suy faux et trahitre, et ay trahit et vendut le roy d’Espangne. » Adonc furent leveis, si en fut faite justiche à chu afferant.
Que, traduzido, poderia ficar assim:
Houve naquele tempo na Espanha2 um duelo entre um cavaleiro e um escudeiro que se acusavam de traição, por terem traído e vendido o rei; o escudeiro acusou o cavaleiro do feito de traição e de vender aquele rei de Espanha ao grande rei de Benamarim; e decorreu o duelo na cidade de Burgos, onde se desafiaram, e viérom ao campo ambos com grande orgulho e com grandes pompas: e mais nobres gentes levou o escudeiro que o cavaleiro, porque era de melhor sangue e de melhor linhagem que o cavaleiro; e eram amobos os dous homens odiados, grossos e poderosos, mas o cavaleiro era mais poderoso3 que o escudeiro; e eram bem de uma idade.4 E viérom mui briosos, armados da cabeça aos pés, até que se juntárom na justa;5 o cavaleiro quebrou a sua lança e o escudeiro não quebrou a sua, mas feriu tão forte o cavaleiro que o deitou de costas sobre a garupa do seu corcel, de modo que não se podia erguer. Quando o escudeiro viu isto, esporeou contra ele e quis-o travar dos braços: mas o corcel do cavaleiro feriu tão forte com as patas traseiras o cavalo do escudeiro na perna direita dianteira, que lhe rompeu a perna, e caiu em terra; mas o escudeiro saltou fora da sela para o meio do campo com ligeireza, e deixou o seu cavalo e veio ao cavaleiro, que ainda jazia de costas sobre a garupa do seu cavalo, e puxou-no abaixo, à terra, e subiu-lhe sobre o ventre e começou-o a bater com um cutelo de aço na viseira do elmo e de todos os costados; e este [o cavaleiro] defendia-se o melhor que podia, mas não podia alcançar o seu cutelo.6 À derradeira, o escudeiro tomou uma maça de chumbo7 que viu jazer a par de si, e começou a bater no cavaleiro na viseira do elmo, de tal jeito que lhe foi abatendo a viseira, até lhe bater sobre os dentes: então o cavaleiro gritou mui forte, dizendo que se rendia. Então veio a justiça avante, que lhe perguntou o que queria dizer, e ele respondeu: «Rendo-me a esse escudeiro e reconheço que sou falso e traidor, e traim e vendim o rei da Espanha». Então foram ambos erguidos, e dele [o cavaleiro] foi feita justiça segundo convinha.

































