«Cauda do meu elmo de bisso ourivi…»

«Hoje aprendi…»

…Que o bisso, ou «seda do mar», é um tecido antigo semelhante a um linho muito fino ou seda fabricado com as barbas dos moluscos, e que se for tratado devidamente com especiarias e suco de limão, brilha dourado ao sol.

Segundo Álvaro Cunqueiro, os cavaleiros galegos faziam as penas dos bascinetes dele:1

O freixo está teste prá lança lavrar,
e o palafrém2 teixo venho de ferrar!

«Se ao maio vás3,
farás-me chorar…»

Cauda do meu elmo de bisso ouriví4:
os ares do maio nasceram prá ti!

«Se ao maio vás,
farás-me chorar…»

Senhores farfãs5 da boa ventura!
Ameaça-nos Deus na cavalgadura!

«Se ao maio vás,
farás-me chorar!

O linho alvar6 não espadarei7,
de fio de sangue panos tecerei!»8

— Cunqueiro,
em Dona do Corpo Delgado.

Referências

 

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Notas

  1. Normalmente eu prefiro colocar as chamadas a nota de rodapé após os signos de pontuação, como faço neste caso (ou seja, o 1 depois do ponto, e não antes). É deformação de designer gráfico: acho que isso cria um reparto mais natural de espaço que se colocamos o número elevado antes do ponto, onde aparece um vazio feio. Porém, a combinação de plug-ins que utilizo para fazer isto no WordPress não gosta de encontrar uma nota no final da linha. Se tento fazer isso, o salto de linha desaparece, e o verso seguinte começa imediatamente a continuação da nota. Como isto é um problema evidentemente pior que a fealdade das chamadas a nota colocadas antes da pontuação… pois assim fica para os versos a seguir.
  2. «palafrém»: o cavalo de descanso do cavaleiro, em oposição ao corcel, cavalo de guerra.
  3. «ir ao maio»: ir à guerra contra os mouros, que começava tradicionalmente na primavera – ver «O que da guerra levou cavaleiros / e a sa terra foi guardar dinheiros, / nom vem al maio», a cantiga do meu tocaio D. Diniz.
  4. «ouriví»: de ouro, dourado, de cor dourada (cf. ourive, ourivesaria).
  5. «farfãs»: mercenários (=«de boa ventura») cristãos que lutavam do bando dos mouros
  6. «alvar»: branco, ou quase branco.
  7. «espadar»: bater com a espadela, para separá-las fibras de linho da parte dura (os «tormentos»).
  8. Observe-se como nestes dous derradeiros versos Cunqueiro desvela a profecia completa que alguém (a senhor do cavaleiro?) chorava no leixa-pren. Isto estabelece dous planos temporais claros: a história do cavaleiro, que evolúi (em aparência para a morte) e a da namorada, que fica presa no instante do preságio.