«Pero Pardo, meu senhor»

Hoje é o 542 cabodano do assassinato do Marechal Pero Pardo de Cela, decapitado polos Reis Católicos por apoiar a rainha Joana «a Execelente Senhora», e resistir o ascenso de Sabela de Trastámara.

O Marechal é uma das figuras míticas do nacionalismo galego, a que se lhe atribui um caráter de resistência nacional e mesmo de vontade independentista que fica bastante longe da realidade histórica — mas nunca a história foi problema para o mito, verdade?

Sem mais preámbulos, aqui vos deixo «O Sangue da Frouxeira», composto em base ao mito romántico de Vicetto e companha, tirando alguns versos mais ou menos diretamente de Valentin Lamas Carvajal, (re)escrevendo os mais, e sonorizado via Suno:

Música e letra d’O Sangue da Frouxeira

Podedes descarregar o ficheiro em MP3, e tendes a música também em Suno, acessível para fazer remisturas.

Eis a letra:

Pero Pardo de Cela, imaginado em 1883 por Manuel Ángel Álvarez.

O Sangue da Frouxeira

«Per treyzóm tamém vendido
Jesús nosso Redentor,
e por questes treydores
Pero Pardo, meu Señor.»1

Na torre alta que o raio atravessa,
o Marechal deita a olhada na Terra.
Castela ruge, a fera tem pressa,
mais a Frouxeira resiste, firme na pedra.

Nem Acuña nem Chinchilla amedrentam
a velha águia negra da pena!
Frouxeira! Lanza cravada no ceio!
Reduto último do Reino ergueito!

¡Ai, Frouxeira, Frouxeira alta!
Nom por força nunca tomada!
Nem por fame! Nem por espada!
Senom por ouro e traiçom malvada!

O preço da vergonha: vinte e três criados.
Abre a porta na noite Roi Cofano.
Nom som espadas as que vencem a lida,
som as mãos negras da própria guarida!

[retrouso:]

/ O sangue do leal Pardo de Cela,
clama vingança na injustiça!
Façamos hoje ressuscitar dela
a independência e gloria da Galiza! /

Arrastam em ferros a Mondonhedo,
o nobre senhor da Cruz de Santiago.
O Bispo asseja, e nom tem medo,
pois mitra e coroa fan o estrago.

«Nom pido perdom a reis estrangeiros,
nem aos cregos que vendem o clam.
A minha lei som os meus devanceiros,
e a liberdade do nosso cham!»

Corre Isabel, co papel no peito,
o perdom real que a vida devolve!
Mais na ponte de pedra, de passo estreito,
a sombra da Igreja o tempo dissolve.

Detede o cavalo, senhora condessa,
olhade o rio, descansade a dor.
E chega o solpor e a morte começa,
E os coengos rim do vosso amor.

[retrouso]

/ O sangue do leal Pardo de Cela…

A praça cala! Verdugo corta!
O corpo cai! O sangue abrolha!
A cabeça rola! O povo chora!
Os olhos abrem! Um berro ecoa!

[retrouso]

/ O sangue do leal Pardo de Cela…

Dende o chão de pedra,
uns beiços que se movem,
e a voz de ultratumba
que os traidores sacode.
Nom fala piedade,
nem perdom na morte,
só uma palavra
que na terra agrome:
(“Credo… Credo… Credo…”)
(“Credo… Credo… Credo…”)
(“Credo na terra que me viu nascer.”)
(“Credo no sangue que ha volver.”)

/ O sangue do leal Pardo de Cela,
clama vingança na injustiça!
Façamos hoje ressuscitar dela
a independência e gloria da Galiza! /

«Anque a cova escarneçam,
ha fazer justiça
o sangue que ressuscita
a INDEPENDÊNCIA da Galiza».

Contexto histórico: mito e realidade

Benito Vicetto, na sua Historia de Galicia e Los Hidalgos de Monforte apresenta Pardo de Cela como um improvável líder dos Irmandinhos, imaginando uma aliança entre povo e nobreza contra Castela. Para ele, o Marechal encarnava o «espírito suevo» de independência face ao elemento gótico castelhano, convertendo-o em mártir de uma luta patriótica unificada que serviu para fundar o mito da resistência no imaginário popular.

Posteriormente, Manuel Murguía corrige a fantasia irmandinha de Vicetto mas dota o mito de maior calado político. Para ele, a derrota de Pardo de Cela não foi só o fim dum senhor feudal, senão a morte da soberania do Reino da Galiza, o início da «doma e castração» imposta polo imperialismo dos Reis Católicos. O Marechal erige-se assim no último defensor da dignidade nacional e das instituições próprias face à assimilação centralista e ao submetimento a Castela.

A figura do Marechal permaneceu simbolicamente importante para o galeguismo através do XIX e o S.XX. As Irmandades da Fala, a Geração Nós e o Partido Galeguista, por exemplo, fizeram uso extensivo da mesma, como podedes ver neste folheto de 1935 (mais info e fonte da fotografia neste artigo do Nós Diáro):

Famosamente, Ramom Cabanilhas e Antom Vilar Ponte escreveram uma ópera titulada O Mariscal entre 1920 e 1926. Houve várias representações da mesma na Galiza e em Madrid no ano 1929, mas ficou abandonada até o presente. Houve apenas uma única representação em tempos presentes (2010), o que é uma tragédia. Se tivéssemos um país de verdade, esta obra devia ter uma representação anual por estas datas. O libretto, por certo, é notavelmente difícil de conseguir (eu não tenho uma cópia, e se me fazedes chegar a letra agradeceria imenso).

A historiografia galega atual, nacionalista mas científica (cf. Lópes Carreira ou C. Nogueira), apresenta em Pardo de Cela a última resistência da elite autóctone face à imposição centralista do nascente protoestado espanhol — não como um projeto explícito de independência do Reino, mas em defesa dos seus privilégios de classe e rendas eclesiásticas contra o Estado Moderno emergente, que sim persegue um objectivo. A execução é interpretada como um ato político deliberado que decapitou a classe dirigente do Reino da Galiza, consumou a «doma e castração» e, por essa via, abortou o desenvolvimento institucional autóctone para a idade moderna.

 

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