Bibliografia adicional

Quando tenho qualquer dinheiro, compro livros.
Só se algo sobrou, então é que compro comida e roupas.

— Erasmo de Roterdã, 1465 – 1536.

Esta é uma seleção de livros que pode ser de interesse para dar contexto ao estudo da Kunst des Fechtens que na Arte do Combate fazemos.

Reúne links a boas edições dalguns tratados históricos de referência, e a muitos romances liberalmente contemporâneos da Arte, bem como obras modernas ambientadas mais ou menos na época que acho de qualidade, ou motivadoras. Também incluo alguns ensaios e livros de história, e miscelánea. Não pretende ser uma bibliografia exaustiva para as HEMA ou para a KdF, ou para o estudo da história.

Separo os textos entre «medievais» e «modernos». Os primeiros são, evidentemente, fontes de primeira mão, mas muitas vezes resultam menos acessíveis para o nosso gosto literário presente (e carecemos também de referentes culturais que assumem). Os segundos são ou bem novas histórias, ou bem reescritas das anteriores: falam de como compreendemos a idade média hoje, racional e emocionalmente.

Em geral tento favorecer a versão física dos livros, mas onde não há, proporciono links a PDFs ou semelhante. Em muitos casos possuo cópias destes títulos, ou sei quem possui, e posso emprestar ao estudantado da Arte do Combate: contacta comigo.

Tentei selecionar títulos em galego / português, mas onde não foi possível, coloco links às obras em castelhano, inglês ou outros idiomas. Nalgum caso há várias edições (por exemplo galego / português da Galiza e Brasileiro, ou português do Brasil): onde assim for, coloco links a ambas, para a tua escolha.

Nota bene: deves saber que se compras os livros através dalguns destes links recebo uma pequena comissão da Amazon. É uma forma de apoiares este trabalho.

Fontes da Kunst des Fechtens

A KdF seminal consta de quatro pés: o anónimo manuscrito GNM HS 3227a e os textos atribuídos a Jud Lew, Peter vom Danzig e Sigmund Ringeck. Aqui ficam links para

  • Há Uma Única Arte da Espada: a minha livre tradução do 3227a para o galego/português. Tendes informações muito completas premendo no link.
  • Jude Lew: Das Fechtbuch (em inglês), editado e traduzido ao inglês por Dierk Hagedorn e a sua equipa da Hammaborg. Belamente diagramado, acompanhado de extensos ensaios contextualizantes e ilustrações acrescentadas pelo editor. Há uma revista do livro neste blogue.
  • Peter von Danzig (em inglês), traduzido livremente ao inglês por Harry R., da Melbourne Fencing Society. Harry é ilustrador e, seguindo os passos de Dierk, ilustrou também partes do manuscrito. Tem uma edição cuidada e merece a pena fazer-se com uma cópia.
  • Falta, sim, uma boa edição em livro da glosa de Sigmund Ringeck. Existe um PDF traduzido para o português brasileiro por Samuel Arantes, mas não acho um link desde o que o disponibilizar.

Romances, narrativa medieval

Este ponto reúne alguns textos medievais que são de interesse, bem por presentarem aspetos da vida na altura, bem por mostrarem a mentalidade e forma de pensar. São testemunhas de primeira mão que somam mais uma ajuda para compreender o mundo e a mente das pessoas como então era.

Três matérias há que ignorar é vergonha:
da França, da Bretanha, e a da nobre Roma.

— Jean Bodel, La Chanson des Saisnes, ~1200.

Um dos piares da narrativa medieval foram as Três Matérias: os conjuntos de lendas relacionados com o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda (Matéria da Bretanha), o Imperador Carlomagno e os seus Paladinos (Matéria da França) e a antiguidade clássica romana e grega, como a Guerra de Troia, as fazanhas de Júlio César ou as conquistas de Alexandre Magno (Matéria da Roma).

Da Matéria da Bretanha, temos:

  • Le Morte d’Arthur (em inglês), de Thomas Malory é o texto habitualmente considerado referencial na Matéria da Bretanha. Malory reescreve no S.XV as já então antigas lendas acerca do Rei Arthur, os Cavaleiros da Távola Redonda, Lanzarote, Genevra e a Demanda do Graal. Há numerosas edições modernizadas do original inglês com ortografia e vocabulário adaptados ao presente, e também traduções para o galego / português, espanhol, etc.
  • A Demanda do Santo Graal é a versão autóctone galega dum dos principais componentes de que Malory tomará inspiração: a chamada pos-Vulgata. É destacável que desta fundamental peça da literatura artúrica conservam-se fragmentos de traduções espanholas e francesas, mas apenas a versão galego-portuguesa está íntegra. Encontrar uma edição impressa é tarefa complexa: há esta edição portuguesa por vezes à venda em Amazon que conserva a ortografia antiga.
  • Existiu um Livro de Tristã, versão galega da história em prosa de Tristão e Isolda, mas hoje fica apenas um fragmento. A origem desta versão é confusa, mas uma possível atribuição seria ao mesmo Fernã Peres de Andrade «o Boo» que mandou traduzir a Crónica Troiana (ver depois): este artigo explora essa hipótese, além de trazer mais informação acerca do texto original. Estoutro traz informações mais antigas.
  • Sir Gawain e o Cabaleiro Verde, também de finais do S.XIV, é um romance clássico da Matéria da Bretanha. Inspira um bocado o Galván en Saor listado depois.
  • La Chanson de Silence é uma história de cavalarias e aventuras do S.XIII protagonizada por Silence, cavaleiro de tempos vagamente artúricos (aparece Merlim na história, mas o rei da Inglaterra não é Artur) que nasceu mulher mais foi criado como homem. Ao longo da história alcançará a mais alta fama como cavaleiro e jogral, enquanto a Natureza e a Educação disputam o controlo sobre ele. Dá para ver que a temática é extremamente moderna para estar escrito há 800 anos. É dificil de encontrar à venda. Há uma versão em espanhol publicada como El Libro de Silence, e também uma outra em inglês, Silence: a Thirteenth-century French Romance.
  • Historia do Nobre Ponto, que foi Rei da Galiza e da Bretaña, escrito por um anónimo autor bretão em finais do S.XIV e traduzido para o galego por Henrique de Harguindey. Um interessante exemplo do espaço lendário e importáncia que ocupava a Galiza na cultura europeia da altura. Acompanhado de ensaios contextualizantes da situação histórica galega.

Quanto à Roma, ou mais concretamente à Matéria de Troia:

  • A Crónica Troiana é a tradução galega do Roman de Troie de Benoît de Sainte-Maure que em em 1373 Fernã Peres de Andrade «o Boo», senhor de Pontedeume, Ferrol e Vilalba mandou fazer ao seu capelão.
    O texto é difícil, mas como uma das mostras da prosa galego-portuguesa serôdia, tem muito interesse. Narra a Guerra de Troia e o retorno dos heróis desde uma perspetiva tardo-medieval, presentando a antiguidade clássica como um exemplo para a aristocracia europeia. Nesse sentido reescreve e inventa boa parte da história (se a comparamos com a versão de Homero) para incluir temas de amor cortês.
    informação acerca desta versão galega na Galipédia que compre ler (e ainda mais na Wikipedia inglesa para o Roman de Troie original).
    Uma versão digitalizada do manuscrito pode ser descarregada do website BDE. É dificil para quem não tenha costume de ler caligrafia bastarda. Quanto a versões impressas, há uma transcrição do original por Ramón Lourenço que é possível comprar de segunda mão. Falta por fazer uma boa edição com ortografia (e talvez léxico) atualizados para um galego/português moderno.

Historiografia e ensaio medieval

Em geral o que na idade média passa por ser crónica histórica é fundamentalmente propaganda com objeto de legitimar um ou outro monarca. Exige portanto uma leitura muito crítica, e constitui mal ponto de aproximação ao conhecimento real da época. Porém, há exceções:

  • Crónica da Galiza no século XIV (grátis, PDF). Henrique de Harguindey traduziu para o galego os trechos das Crónicas de Jean de Froissart (ca. 1337 — post. 1404) relativas à Galiza. Estas são um valioso testemunho de primeira mão da Guerra Galego-Castelhana da segunda metade do XIV, e de quando tivemos res ingleses e portugueses. Da historiografia medieval, Froissart é dos autores mais fiáveis. O texto vem acompanhado de ensaios de contexto da mão do tradutor.
    Há uma obra de Toxosoutos titulado Crónicas de Jean Froissart, A conquista de Galiza e león 1386-87 que parece tratar o mesmo tema. Não leí esta versão, polo que não posso falar dela, mas para quem queira um livro físico, aí fica.

Romances e narrativa moderna

Muitas histórias das Três Matérias foram ré-escritas em tempos recentes, desde o S.XIX até hoje, e conformam parte do nosso imaginário medieval moderno.

Nesta conceção inscreve-se a tradição galega de Neomedievalismo Mágico. Junto sob este nome à linha literária nascida no S.XX que retoma a Matéria da Bretanha (e potencialmente outra literatura medieval) sob uma ótica moderna, misturando elementos do presente e do passado, do real e do imaginário — em boa medida parelha com o «realismo mágico» latino-americano. Eis os principais elementos:

  • Na Noite Estrelecida, do «Poeta da Raça» Ramom Cabanilhas, iniciou no 1926 a renascença galaica da lenda artúrica. Transcendendo o trabalho meramente tradutor dos Andrade no S.XIV, Cabanilhas reinterpreta a Matéria da Bretanha para a converter em metáfora épica da reconstrução da nação galega: o Graal vem ser a Galiza (o cálice das armas do Roy de Galyce); os Cavaleiros da Távola Redonda são as Irmandades da Fala; a Demanda do Graal é, então, a redenção da Mátria.
    Em verso, a diferença do resto das recomendações que seguem.
  • Merlín e Familia (ou bem estoutra versão em Brasileiro), de Alvaro Cunqueiro. É o que poderíamos denominar como texto emblemático desta corrente, bem conhecido. O Mago Merlim, já velho, assenta nas galegas Terras de Miranda acompanhado de Dona Genebra para trabalhar de boticário. Através do seu pajem Felipe de Amancia conhecemos uma série de relatos entre o popular e o lendário, entre o doméstico e o épico. Visitantes mágicos ou nobres de terras longínquas compartem página com os namoros do jovem Felipe e a quotidianidade da vida rural.
  • Galván en Saor, de Dario Xohán Cabana. Ligando com o anterior, segue as aventuras de Galván (Galvão, Gawain) na Galiza, a cavalo entre o S.XX e idades passadas. Dario cavalga magistralmente entre os tempos, fazendo a linguagem de Galván encaixar no presente mas ao tempo permitir ver ao velho cavaleiro nele. Afinal resulta um romance de cavalarias excelentemente narrado, reinventando para nós uma parte do mito artúrico. Gostei particularmente.
  • Morgana en Esmelle, de Begoña Caamaño. Morgan-le-Fay soma-se ao retiro de Merlim nas Terras de Miranda, e através dela analisa-se a complexidade da responsabilidade e o compromisso em crises históricas. De espírito mais sombrizo que as anteriores, esta re-imagina e reescreve o mito artúrico desde a óptica dalgumas das mulheres que nele aparecem. Em estilo fica distante do Merlim ou do Galvam, e eu enquadraria o livro mais na fantasia histórica que no realismo mágico, mas acho adequado coloca-lo nesta lista por quanto partilha em boa medida o mesmo universo.

O conto titular de Percival e Outras Histórias, de Xosé Luís Mendez Ferrin, bebe também do mundo arturiano, bem como o Amor de Artur e o poema «Perceval» do livro Estirpe, do mesmo autor.

Carlos Reigosa é autor do livro de relatos Irmán Rei Artur em que reescreve os finais das histórias de Lanzarote, Merlim e o próprio Artur, aliviando-os (sequer em parte) da tragédia que históricamente os acompanha.

Há um livrinho do ano 1997 titulado Breogán de Guisamonde, o Cavaleiro da Gaivota escrito por Eva Moreda que é extremamente dificil de encontrar. Foi ganhador do certame de narrativa Rua Nova desse ano, e a autora era (na altura) uma moça asturiana de dezassete anos. Já só por ler à mocidade da Galiza irredenta escrever na nossa língua paga a pena tentar conseguir um exemplar. Podes ler neste link uma ressenha do livro.

Já fora do nosso país há uma vastíssima coleção de interpretações modernas da Matéria da Bretanha. Vou deixar cá apenas as que achei melhores:

  • The Once and Future King, seguido por The Book of Merlyn (ambos, obviamente, em inglês), de Terence H. White. Ainda que infame por ter servido como base para o filme Merlin da Disney, na realidade esta reescrita de La Mort d’Arthur apresenta a história em termos de romance contemporâneo à sombra da Segunda Guerra Mundial. Há muita reflexão política por trás, e também muito desvio da matéria original, mas é uma obra que não pode faltar em qualquer leitura moderna do mito artúrico. Em espanhol foi publicado como Camelot. El Libro de Merlin, mas não é muito fácil de encontrar.
  • The Acts of King Arthur and His Noble Knights (em inglês), de John Steinbeck. Eu tenho a edição espanhola de Edhasa dos anos 70 (Los Hechos del Rey Arturo y sus Nobles Caballeros) que conta com uma preciosa camisa verde e marela e pode ser encontrada económica de segunda mão. Foi um dos livros para mim marcantes na forma de apresentar o romance de cavalarias desde uma narrativa moderna. Steinbeck cinge-se muito mais que White à estrutura apresentada por Malory, mas reescreve a linguagem para se adaptar aos nossos tempos, e acrescenta camadas de complexidade psicológica e emocional às personagens. Em termos práticos trata-se duma excelente reinterpretação anovada do velho clássico. Se fosse necessário escolher um livro deste bloco, eu sem dúvida ficava com este.

Em termos gerais, não existe um tratamento equivalente ao que vimos de descrever para o mundo artúrico na Matéria da Roma ou na Matéria da França na tradição moderna galega. Porém, temos O Pequeno Rei da Galiza (grátis, PDF), longo poema de Víctor Hugo traduzido por Henrique de Harguindey que narra como o jovem Rei da Galiza é sequestrado polos malvados Infantes das Astúrias e resgatado por Roldã, afamado paladino — o que enquadra esta obra no contexto da mitologia carolíngia. Para além de ser uma história fantástica e engraçada, é destacável como ainda no S.XIX os estudiosos da cultura europeia não contaminados pela historiografia nacionalista castelhana tinham consciência de que «Espanha» era uma realidade geográfica e não política, de que as Astúrias ficavam sob domínio do Reino da Galiza, e de que a coroa deste reino era algo cobiçável.

Fora (parcialmente)  das Três Matérias, outros textos de interesse:

  • Da Terra Asoballada, de Cabanilhas. Ainda que é mais tangencial que outros textos cá ligados, esta obra resultou fundamental para cristalizar parte do discurso do nacionalismo galego arredor de elementos como a reivindicação do Reino da Galiza em oposição à dominação castelhana.
  • A obra teatral «O Mariscal», também de Cabanilhas, reclama a figura do Marechal Pardo de Cela de forma semelhante ao tratamento dado ao mito artúrico n’A Noite Estrelecida. Contrapõe Galiza-Castela, bem-mal e cavaleiros-mercenários numa apologia simbólica da luta de resistência do país. O texto está disponível na Obra Dramática do autor publicada por Xerais. Existe uma adaptação musicada que converte, efetivamente, a peça numa ópera. Foi representada no seu momento, mas na atualidade está fora dos cenários, o que é uma lástima. Se a situação muda e encontras oportunidade de assistir a uma representação, recomendo.
  • O Enxoval da Noiva, de Víctor Freixanes, sito na corte do Papa Borgia no final do S.XV. Foi uma das novelas «de madurez» da literatura galega, que no seu momento demonstrou que era possível fazer literatura histórica universal no nosso país e na nossa língua, sem necessariamente cair no auto-referencialismo constante.
  • A Catedral do Mar, do catalão Ildefonso Falcones, é uma excelente presentação da Barcelona do S.XIV. Novela dura, mas bem armada, segue as desventuras do burguês protagonista, morador da cidade. Dá para ver a relação entre a cidade, o Condado e o Reino de Aragõ, entre outras cousas. Também apresenta a construção das catedrais e os ofícios medievais.
  • A banda desenhada A Batalha, de Pedro Massano, é um trabalho infrequentemente bem documentado em quanto à história material. Descreve a batalha de Aljubarrota de 14 de agoto de 1385 em detalhe. Tratando-se dum dos mitos nacionais de Portugal, é compreensível o vesgo na história. Porém a representação das armaduras e armas é bem precisa, para o que se costuma ver.
  • O livro Lourenço, xograr, por Manuel Portas, mostra uma recriação da sociedade galego-portuguesa do S.XIII através das aventuras dum moço que vira jogral. A destacar a conservação ou reconstrução da ortografia histórica nos nomes das pessoas e lugares.

A série de William Gold / Livros das Cavalarias, por Christopher Cameron. Narra em primeira pessoa a vida dum moço inglês na segunda metade do S.XIV, durante a Guerra dos Cem Anos, que se une às hostes do Príncipe Preto para reclamar o trono da França. Nos sucessivos volumes combate e viaja por meia Europa.

  1. The Ill-Made Knight
  2. The Long Sword
  3. The Green Count

Bem escrita do ponto de vista narrativo, é muito rigorosa historicamente. O autor treinou com o Guy Windsor para estudar a arte de Fiore, que aparece como personagem (e também uma descendente de Walpurgis). Eu gosto particularmente de como apresenta os aspetos da vida diária, os ritos e costumes, detalhes da vestimenta e dos oficios, etc. Muito recomendável.

O livro Nordeste, de Daniel Asorey, é duma beleza que não resisto recomendar também. Escapa, agora já sim em plenitude, ao medievalismo que devia fiar todas estas recomendações, mas trata-se dum romance através do espaço e do tempo em que re-imagina uma Galiza na que a Santa Irmandade conservou o governo do Reino (agora «muito nobre e justa República»), abandonou o catolicismo em favor da Igreja Reformada e desenvolveu-se numa rica sociedade burguesa estendendo para o Brasil as suas colónias através da Companhia Galega de Índias. Partindo desse ponto o autor tira do fio da história até chegar a um século XX em que Castelao preside a República mentras na Espanha e Portugal avança o fascismo. Apesar desta bela fantasia — e que beleza trazem as imagens que conjura duma Compostela marítima, com as ruas substituídas por canais a levar os barcos mercantes desde o Mar de Belvís —, o autor não cai no chauvinismo. A ucronia é apenas pano de fundo para explorar as origens da riqueza e do privilégio: a Nobre e Justa República apenas pode existir como é através do imperialismo e da exploração. É legitimo examinar o que pudemos ser, mas compre lembrar que pudemos ser monstros também.

História, ensaio modernos

Seguem vários títulos acerca da história medieval galega que acho de interesse. Nenhum deles é definitivo de seu, mas combinados permitem construir um discurso historiográfico crítico e próprio.

  • Galicia Feudal, da jornalista Victoria Armesto, é uma obra difícil de conseguir mais fabulosamente entretida de ler. Publicada por Editorial Galaxia no final dos anos 60, supus uma revolução na forma em que a história era apresentada no nosso país. Sem ser em propriedade um discurso historiográfico nacionalista, a autora expõe a história da Galiza com considerável dose de objetividade e crítica com a historiografia dominante na altura (e, tristemente, ainda hoje em boa medida). Para além disto é uma leitura muito entretida, narrada na forma de anedotário e coleção de confidências, o que achega muito a matéria.
  • A Memória da Nación. O Reino da Gallaecia, de Camilo Nogueira. Com a científica clareza que carateriza a Camilo (engenheiro, economista, historiador e político euro-parlamentário) este livro traz dados e reflexões fundadas acerca da nossa identidade nacional.
  • O Reino Medieval de Galicia, de Anselmo López Carreira é talvez o mais semelhante a um «livro de texto» com que contamos nesta matéria. Muito recomendável. Anselmo é um dos exponentes mais conhecidos da historiografia galega crítica com o cânon espanhol.

On-line o melhor recurso para rever a história medieval do nosso país é o artigo «Reino da Galiza» na Wikipédia galego-portuguesa, com clareza escrito por alguém defendente da historiografia nacional. Como a Wikipédia está sujeita a mudanças, deixo cá uma cópia em PDF feita em 20190706.

Eis algum volume de história geral europeia. Seleciono particularmente os que permitam ajudar a compreender a época do nosso estudo (S.XIV – XV).

  • Heart of Europe (em inglês), de Peter Wilson. Uma extensa e excelente obra recolhendo os mil anos de história do Sacro Império Romano. Fundamental para compreender o papel que esta complexa entidade política — pouco estudada nas aulas de história do ensino básico — jogou no continente. Para a nossa prática resulta de especial relevância, já que desse rico e confuso quadro é que surge a Arte de Liechtenauer.
  • A Distant Mirror: the Calamitous 14th Century (em inglês), de Barbara Tuchman. Um livro de referência para compreender o século na sua plenitude, desde uma perspetiva pan-europeia. Como Vitória Armesto ou Miguel-Anxo Murado, Barbara é jornalista (ganhou o Prémio Pulitzer) e nota-se na agilidade com que descreve a época. O livro está cheio de dados e informações interessantes, muitas vezes desfazendo preconceitos. Eis uma tradução para o espanhol.

Miguelanxo Murado (arqueólogo licenciado em história, mestrado em ciência política) é jornalista (correspondente de guerra nos Balcãs e na Segunda Intifada palestiniana) de projeção internacional (BBC, The Huffington Post, The Guardian entre outros) e autor de escrita ágil, direta e infrequentemente crítica. Declaradamente não nacionalista, chega a boa parte das mesmas conclusões da historiografia nacionalista galega no análise da nossa história, o que dalguma forma as valida. Para além desta circunstancia, o centro do seu discurso é questionar as certezas estabelecidas no campo da história. É por isso que acho que estes títulos de ensaio deviam ser de leitura obrigada:

  • La Invención del Pasado: Verdad y Ficción en la Historia de España (em espanhol), é uma desconstrução dos mitos em que descansa a historiografia imperialista que padecemos. Através do texto vai colocando dúvidas além de razoáveis sobre muitas batalhas e sucessos tidos por certos — mas, além destes mesmos, aventura-se a razoar quem escreveu as crónicas dos mesmos e quais eram as suas intenções.
  • Outra Idea de Galicia, tem à vez um caráter menos geral (não se centra apenas na história) e mais nacional (está claramente virado para o nosso país). É uma exposição lúcida de onde vimos, de como somos, e de por que somos como somos. Inicialmente concebido para «explicar» a Galiza a público de Madrid, sem dar nada por suposto, o livro teve bem maior sucesso dentro do nosso país que fora dele — facto que de seu já dá uma ideia do estado da identidade e o auto-conhecimento na nossa terra.

Livros de imagens, ilustração, fotografia e referência

Alfredo Erias, historiador e diretor do Arquivo de Betanços (a «cidade dos cavaleiros»), tem uma excelente coleção de desenhos copiados de sarcófagos e outros elementos esculturais da idade média galega. Tem um dossier de láminas de cavaleiros muito interessante (mais imagens aqui), e também um livro titulado Xente no Camiño (ISBN 978-84-9812-045-5) que recolhe versões coloridas destas, além doutro material (instrumentos musicais, trabalhos agrícolas, etc). Até onde conheço foram auto-editados, ou editados baixo o selo Briga Ediciós, que ele mesmo dirige, e é difícil encontrar exemplares à venda. Há que visitar o site web do autor para os comprar diretamente, mas paga a pena: são imagens rigorosas e é uma forma de ter juntas muitas mostras de arnês galego de finais do S.XIV e do S.XV. Esta é boa oportunidade para indicar que Alfredo Erias gere também uma pousada de nome Xente no Camiño que está decorada com motivos tomados das suas pinturas e desenhos e à que paga a pena fazer uma visita se estais perto.

L’Arnes del Cavaller (em catalã), de Marti de Riquer, é um clássico no estudo das armas e armadura da cavalaria ibérica. Se bem é necessário compreender que tem um foco virado para oriente (é, após de tudo, uma obra catalã), não deixa de ser um excelente estudo, e um dos melhores a nível peninsular.

Ewart Oakeshott é um nome conhecido para qualquer pessoa que estude o armamento medieval, sequer pela classificação das tipologias de espada que leva o seu nome. Tem muitas obras publicadas, mas aqui vou recomendar The Sword in the Age of Chivalry e Records of the Medieval Sword, ambos compilações de dados dos seus estudos. Recolhem perto de 500 anos de evolução das espadas europeias, achegando muitas fotografias, datação e dados físicos (pesos, dimensões, etc) delas.