Instrutor de Kunst des Fechtens na Galiza. Dirige a escola Arte do Combate, em Compostela. Treina HEMA desde 2008, com experiência anterior em Judo e Aikido. Membro da AGEA Editora. Bio completa.
Este ano fechamos um acordo com a Associação de Mães e Pais do Alunado do liceu Arzebispo Gelmires I para incorporar parte do estudantado nos nossos treinos.
Os treinos serão abertos para estudantes do centro que tenham 15 anos em diante, ou bem menores acompanhados duma pessoa adulta, até 10 lugares.
Com isto aguardamos chegar as HEMA e a Arte do Combate a um público novo e criar canteira.
Venho de publicar, com a ajuda da AGEA Editora, a minha tradução do GNM Hs 3227a, titulada Há Uma Única Arte da Espada.
Este não é o final do processo de cinco anos que levou a imprimir o livro: continuarei a trabalhar nesta e noutras traduções. Mas é um passo importante: deixar codificado o estado atual do meu entendimento da Kunst des Fechtens descrita no manuscrito.
O primeiro lote, recém acabados.
Aguardo que seja também útil para o estudantado da Arte do Combate. Ainda que o trabalho prático das aulas bebe de mais fontes que esta; e ainda que a prática muitas vezes encontra conflitos com a teoria, ler o que os autores originais nos deixaram escrito é sempre muito educativo.
Acho que também pode ser útil para qualquer pessoa com interesse na KdF ou nas artes marciais europeias dos S.XIV – XV. O 3227a é um texto singular, e o seu autor escreveu muito, e muitas vezes de forma muito clara, acerca da sua visão da Arte.
Podes ler mais acerca do livro (e também ver como comprar) na página dedicada ao mesmo da seção de recursos deste blogue.
É útil ao fazer aulas ou demonstrações nas que queremos que o público leve informação acerca da Arte para ler depois na casa (e, com sorte, decidir vir às aulas).
Os temas cobertos, por páginas, são:
Presentação: a escola, Kunst des Fechtens, as HEMA.
Código ético. Por que não uma arte autôctone? Inclusividade e não discriminação.
Panóplia, extensão da Arte.
Segurança, modernidade, motivação.
Como notarás, o objectivo do folheto não é tanto dar informação extremamente precisa acerca da KdF como criar uma imagem positiva da mesma, atacando os pontos de fricção que com frequência sucedem — e deixar a gente curiosa por conhecer mais.
O foco, colocado mais no académico e social que no desportivo, tem como objectivo selecionar o tipo de pessoas que se cheguem à escola como resultado da leitura do folheto: quero no estudantado determinadas atitudes.
Há tempo que estou a fazer um certo seguimento da atividade das HEMA na nossa esfera linguística, já que é um dos meus interesses principais. Tento recuperar toda a informação possível dos grupos e pessoas que a estão a estudar.
Se tens interesse em partilhar na discussão desta comunidade, podes aderir o grupo de Facebook «Hema do Brasil, a Galiza e Portugal». Lá trocamos notícias conjuntas, fazemos visível a atividade dos diferentes grupos e trabalhamos em projetos comuns de normalização léxica, teórica, etc.
Criei também um mapa onde recolho os grupos ativos de HEMA no Brasil, a Galiza e Portugal:
Os critérios de inclusão no mapa são laxos e, sou ciente, subjectivos. Listo nele grupos dos que tenho relativa certeza estão a estudar e treinar HEMA de forma relativamente séria. Quer isto dizer, não apenas uma vista por acima, mas com intenção de continuidade. Faço assim porque quero que seja um recurso útil a quem procura um grupo com que treinar, ou parcerias para a investigação.
Quer isto dizer que o mapa não contém apenas grupos de HEMA «puros», mas também qualquer coletivo que, enquanto trabalha outras atividades (HMB, esgrima desportiva, cénica, outras artes marciais) também, esteja a pesquisar ou trabalhar nalgum grau, mas de forma estável e vísível.
Para julgar isto, apenas posso descansar em testemunhas de terceiras pessoas e em publicações (textos, imagens, vídeos) a mostrar a atividade. É por isso que agradeço, para quem enviar informações dum novo grupo, partilhar essas mostras da atividade comigo também.
Se quiseres achegar informações ao mapa, podes escrever para mapa@artedocombate.gal.
Há pouco passei os exames necessários para obter a carta de condução. Era uma tarefa que tinha pendente desde havia muitos anos. Até o presente não achara realmente necessária, deslocando-me em transporte público, mas a vida muda e novas motivações surgem.
A minha mãe não gostou nada quando lhe enviei esta fotografia com a legenda «Licença para matar!».
Devo reconhecer que nunca foi um assunto do meu interesse, e em consequência não prestei nunca atenção nenhuma as questões relativas os carros (funcionamento, controlos) e a estrada (marcas viárias, códigos explícitos e implícitos, e até orientação básica). Portanto, aproximei a este processo desde uma ignorância bastante absoluta. E no aprendizado tive, várias vezes, sensações que me traziam memórias dos treinos de artes marciais.
Senti essa falha de familiaridade inicial ao ter nas mãos uma ferramenta totalmente nova, desconhecida, cujo funcionamento, medidas, feedback e comportamento desconhecia. Necessitei tempo e repetição de movimentos para me fazer com as distâncias, saber até onde chegam partes dela, quais são forças necessárias para a pôr em movimento e as inércias uma vez que já está, etc.
«Toda Arte tem Distância e Medida» —Johannes Liechtenauer, na Zettel.
Experimentei o desconhecimento das normas de trânsito, a falha de certeza no que fazer. Em ter que aprender a ler um novo sistema de sinais e responder a elas com agilidade. Fui ciente que tinha um conhecimento teórico de isto tudo, mas que existia uma distância considerável entre conhecer essa teoria e ser quem de a explorar na prática.
E, como em qualquer arte marcial, redescobri o imperativo de observar o que as outras pessoas fazem enquanto eu trabalho: quais são as suas ações e intenções (por vezes não coincidentes), estar alerta e agir em consequência. Aprender, por exemplo, a ler quando um carro vai virar pelos sinais subtis que dá, e não aguardar apenas a que sinalize através do indicador (cousa que muitas vezes não sucede).
A prova.
Recentemente fiz várias viagens longas e tive esse momento de epifania em que descobri que já sabia fazer isso tudo (melhor ou pior, mas suficientemente bem como para poder levar o carro várias horas seguidas, por estradas e autoestradas desconhecidas) e a condução convertia-se nesse fluxo de acções espontâneo, informado polo que sucede no exterior mas ao tempo inconsciente, ou apenas parcialmente consciente. Esses momentos de estado de fluxo, de integração com a arte que seja que estejas a praticar, em que tudo o que estás a fazer vira natural e sem esforço, é para mim uma das recompensas maiores do estudo de qualquer disciplina.
Acho que é importante reflexionar sobre estas cousas. Tenho insistido mais duma vez nas aulas ao meu estudantado que há muitas experiências na vida que «são artes marciais» na forma em que as aproximamos: aprender um novo conjunto de habilidades (como guiar um carro), encarar e resolver conflitos (ou descobrir que não há vitória possível neles e é melhor fugir), melhorar através da auto-disciplina e trabalho sistemático (como aprovar uns exames qualquer), etc.
Não acredito realmente nesse repetido conceito de que as artes marciais tenham qualquer qualidade especial que as faz dar lições para a vida. Mas é certo que todas as experiências que acumulamos interagem entre si, e quando uma delas ocupa um lugar importante na nossa mente com frequência serve de padrão para estruturar, analisar e entender o resto da existência. Imagino que um violinista sentirá o mesmo acerca da música, ou uma carpinteira no trabalho da madeira. Para nós que estudamos a fundo uma arte marcial, é quase inevitável vermos o universo através dela. E isso, acho, facilita a vida, e traz paz.
…ou, noutras palavras: por que não traduzir os termos? Zornhau para «Cutelada da Ira», Ochs para «O Boi», etc. Fácil, não é?
Mas… como traduzir Winden? Hengen puderam ser «as pontas suspensas», mas é um bocado longo, e dizer apenas «as suspensas» ou «as suspensões» não funciona assim tão bem. E como traduzir Leger? Versetzen? Nachreißen, Uberlauffen,Absetzen? Durchwechseln? Zucken? Durchlauffen, Abschneiden? 1
Com certeza, podemos pensar em alternativas («Guardas», «Contra-técnicas», «Perseguir», «Ultrapassar» e «Desviar», etc). Mas, realmente traduzem bem o termo original? Fica mais claro o que quereis dizer através delas? Não envolvem pressupostos por parte de quem as escuta?
Nas aulas da Arte do Combate utilizamos uma terminologia próxima às fontes estudadas, mantendo os termos próximos2 da língua original antes que traduzidos, porque acho tem os seguintes benefícios:
Contextualiza o que fazemos: estudar uma arte marcial do S.XIV originária no Sacro Império Romano-Germano –e não assim uma arte do norte da península itálica no S.XV, ou a Verdadeira Destreza peninsular do S.XVII, ou o Jogo do Pau contemporâneo autóctone da Galiza e Portugal.
Cria um vocabulário técnico com significados específicos, o que evita equívocos e problemas de tradução. Assim, Winden é uma acção específica, sem nenhum outro tipo de interpretação que o termo traduzido possa dar a entender fora do explicado e treinado na aula.
É um valor de marca que dá identidade à prática. Não é bom ignorar o valor do marketing. De igual modo que as artes marciais orientais se identificam lexicalmente polo seu vocabulário (Sensei, Kiai, Morote Seoi Nage…), bem como a esgrima desportiva ocidental actual emprega termos franceses (riposte, flèche, allez…) ou italianos (maestro, radoppio…), ou o boxe utiliza mormente terminologia inglesa (jab, uppercut, ring, K.O.…), utilizar termos germanos no Kunst des Fechtens ajuda a fazer visível e dar carácter a olhos da população geral.
É parte do que fazemos! Se é possível separar história e técnica na nossa prática é tema para outro artigo. Mas a nossa arte marcial é histórica –produto dum tempo, cultura e contexto diferentes dos nossos– e conhece-lo e compreende-lo é necessário para a poder estudar em propriedade.
Reconheço que isto acrescenta uma carga de aprendizagem na pronúncia, escrita e assimilação dos significados para quem estuda a Arte do Combate. É possível aliviar esta carga facilitando nas aulas apontamentos da terminologia utilizada, por exemplo. Também é recomendável encorajar às estudantes a aprender a pronúncia correta dos mesmos (e, logicamente, utilizar essa pronúncia nas aulas).
Como clarificações finais, repare-se em que estou a censurar a tradução sistemática de terminologia original. Quer dizer: inventar um termo galego (português, brasileiro) para conceitos do MHD original, e descartar este ultimo do uso quotidiano.
Uma outra cousa é empregar termos autóctones (históricos, documentados) da esgrima ibérica. Nesse caso faz-se necessário combinar a introdução de termos da KdF com a preservação, recuperação e promoção do léxico original da nossa esgrima. Isto não tem por que ser conflituoso: há espaços em que utilizar o termo doméstico (no falar descontraído) e outros nos que utilizar o termo técnico (no nome ou descrição duma técnica).3 Tomemos por exemplo as partes da espada: «folha» (Klinge), «ponta» (Ort), «maçã» (Knopf)… são termos de uso, parte do nosso vocabulário. Dizer «podes pegar na maçã ou no cabo» é aceitável e útil. Por contra, se falar da «ponta do Zornhau» é válido, também é bom chamar a isso Zornort.
Assim, o elemento chave será, como sucede com frequência, a moderação. É bom sempre temperar com sentido comum o uso da terminologia: se dizer Durchwechseln resulta difícil, pode-se utilizar «troca de linha». Se Binden e Winden geram confusão, pode-se falar do «ligamento» no primeiro caso, etc. Mas não falhemos em utilizar os termos originais, especialmente em contextos formais, porque são, também, parte da Arte do Combate.
Há já duas semanas que me chegou o Jude Lew: das Fechtbuch publicado por Versus Books, um esforço colectivo do Dierk Hagedorn e a sua equipa de estudantes e colaboradoras na Hammaborg.
Trata-se duma transcrição do Codex Lew acompanhada de ré-escrita em alemão standard contemporâneo e mais uma tradução ao inglês do mesmo. Vai acompanhada dalguns estudos preliminares: documentação codicológica, análise do papel e da estrutura de foliação, entre outros.
Os ensinos do Jud Lew são duma rama da Kunst des Fechtens à que se viu prestando pouca atenção, o que já a faz interessante de seu. Se a isso somamos que o tratado combina amplos ensinos para a luta corpo a corpo ou a cavalo com a espada longa e curta1, com arnês e sem ele, o conjunto do conteúdo resulta consideravelmente atractivo.
A obra é, com certeza, um esforço académico de considerável dimensão e está revista e avalada por autoridades nas HEMA contemporâneas como Keith Farrell, Guy Windsor, Roland Warzecha ou Daniel Jaquet.
Finalmente, o livro é uma beleza como objecto em si próprio: a impressão a duas tintas (aproveitando o vermelho nem só para fazer detalhes estéticos, mas também para reproduzir os lugares em que tinta vermelha fora utilizada no original), a esquisita e cuidada diagramação (desde a estrutura em quatro colunas até detalhes como os remates em pirâmide invertida da contra-capa ou alguns pontos do interior), as pequenas miniaturas de cavaleiros nos inícios de cada secção… Todos são a marca do bom fazer de um autor que não deixa nenhum detalhe do trabalho ao azar.
Podeis comprar on-line o livro directamente à editora, e mesmo com custos de envio não é um livro caro, especialmente pelo cuidado do continente e do conteúdo.
Este artigo bastante longo é em parte deformação profissional e em parte resposta a algumas perguntas que recebi após fazer pública a marca da escola Arte do Combate. Vou tentar explorar nele os motivos e significados por trás do design.
Explorei muitas opções. Isso é uma vista de pássaro de parte dos desenhos que cheguei a criar.
Ao desenhar a logomarca de Arte do Combate tinha presentes várias necessidades:
Criar uma marca diferenciada dentro das HEMA
Facilmente reconhecível, de perto e de longe
Fácil de reproduzir em diversos meios (uma ou várias cores, em quadricromia ou na web ou em vinil, etc)
Com conteúdo semântico
Uma marca é combinação de nome + imagem gráfica. A imagem, à vez, depende frequentemente duma tipografia e dum estilismo, um símbolo ou ícone. Esses elementos interagem entre sim para constituir um todo.
O nome era a parte mais ou menos simples. Avaliei várias opções tomadas do campo lexical da Kunst des Fechtens, mas não queria escolher um termo alemão que parte do público local teria problemas em reproduzir. Devia ser memorável e descritivo e, dada a casuística linguística da Galiza, não apresentar dúvidas ortográficas.
Finalmente, a opção mais directa e simples, como sucede muitas vezes, foi a melhor: traduzir Kunst des Fechtens ao galego serve como nome da escola e da arte que treinamos ao tempo. Serve, também, para mudar o foco de «aulas de espada longa» para «aulas de Kunst des Fechtens», algo que queria aproveitar para fazer nesta nova etapa.
As cores também resultaram simples. Queria umas cores de contraste, eficazes. Queria trabalhar sobre uma base mormente branca para a imagem gráfica geral, para dar luminosidade ao projecto, e que sobre essa base contrastassem outras cores com força. Vermelho e preto eram escolhas óbvias —além de estar ligadas à tradição dos manuscritos medievais—, mas estão já em uso em vários colectivos e resultam menos reconhecíveis. Amarelo e preto, por contra, são menos utilizadas. São cores de advertência, de perigo (como o vermelho e preto) e funcionam mui bem juntas: sobre a vestimenta preta que utilizamos o amarelo e o branco têm, ambas, boa legibilidade —melhor que o vermelho. O amarelo (ouro) é, além disso, uma das cores históricas da Galiza.
A tipografia foi, junto com o símbolo, um dos elementos que mais variações teve. Queria algo moderno, legível, de impacto e desportivo.
Sim, desportivo, por associação à modernidade e contemporaneidade. Embora Arte do Combate seja um projecto fundamente afastado da prática desportiva, em primeira aproximação —na mente do público, receptor da publicidade— isso não é assim: as artes marciais são «desportos» para a gente comum. E os desportos são cousa diferente da recriação histórica, o LARP ou outras práticas com que a nossa actividade, por vezes, se pode confundir. Esquivar uma estética historicista serve, assim, para reforçar precisamente a prática marcial.
A tentação de escolher umas formas ainda assim históricas, ou mesmo modernas de inspiração histórica, era considerável. Nalgum momento quis recuperar as espectaculares tipografias Tannenberg e a Potsdam (tragicamente associadas ao regime nazista alemão, que ironicamente acabou proibindo o uso de todas as Gebrochene Grotesk afirmando que eram «letras judias»), já que presenta uma fusão das formas caligráficas góticas com o racionalismo e linha de traço recto próprias do modernismo e futurismo de princípios de século.
Porém, as formas góticas são menos conhecidas hoje, e presentam problemas de legibilidade. Além disso, reforçavam a direcção historicista que queria evitar. Preferi portanto deixa-las para algum uso pontual, ilustrativo, mas escolher uma tipografia de desenho moderno para a marca. As formas deviam ser de impacto, de cabeçalho, legíveis, reproduzíveis a grande tamanho. Deviam também encaixar com o estilo de traço do símbolo.
Para satisfazer estes pontos acabei por seleccionar a fonte Intro, uma tipografia simples de desenho modernista e forte impacto visual. As formas redondas e geométricas evocam uma época de progresso, de futuro, ideias que quero também associar à prática e interpretação que faço da Kunst des Fechtens.
O símbolo é o elemento final do conjunto. Não foi desenhado de forma autónoma: texto e imagem sofreram várias iterações em que se afectaram mutuamente, como pudestes ver na ultima mudança da tipografia descrita acima (posterior à criação do símbolo).
Queria criar um ícone que representasse o Kunst des Fechtens. Em qualquer processo de desenho o primeiro passo é estudar os trabalhos prévios que já existam, e neste caso tinha um antecedente evidente: a estilização quase que a Göteborgs Historiska Fäktskola utilizou até há pouco tempo (agora mudaram, ironicamente, por um estilo entre o historicismo e o hipster trendy).
A inspiração que a GHFS teve para esse símbolo é clara: os ícones dos desportos olímpicos. Comparai, acima, com o ícone utilizado nas olimpíadas de Barcelona 1992 (e como nota à margem, tendes aqui uma excelente comparativa de todos os ícones olímpicos modernos). E é uma boa inspiração: reforça a conexão de modernidade que quero estabelecer para Arte do Combate também. A postura da personagem é também adequadamente representativa —as Hengen, ou pontas suspensas, são centrais e características do Kunst des Fechtens em comparação com, por exemplo, as posturas que vemos na espada longa de Fiore.
Trabalhei portanto partindo dessa ideia. Queria utilizar uma limpeza de traço maior — mais geometria, com um carácter mais icónico, quase hieroglífico. Para isso, jogar com ângulos e linhas rectas.
Podeis ver que a ideia é simples, e o processo bastante natural: partir duma representação geométrica, minimalista, de formas singelas da postura, da Hengen. Depurar detalhes como a distância entre espada e mãos, a curvatura dos virotes. Acrescentar uma outra figura, em oposição, fechando assim a composição. Definir as pontas das espadas e os pés. Depurar a posição das mesmas marcando que uma lâmina fica sobre outra. Acrescentar o circulo para dar movimento ao conjunto e fechar o desenho… e assim, ao fechar o circulo, as espadas cruzadas tomam entidade própria, virando num ícone que pode ser utilizado de forma autónoma, sem as figuras.
Na figura solitária faltava certa harmonia, certo equilíbrio. Além disso, esquivava um facto importante da arte que treinamos: é uma actividade colectiva, social. Necessitamos gente com que trabalhar. Incorporar a segunda figura atendia esses pontos mas complicava o conjunto, transformando-o dum ícone numa ilustração, um desenho geométrico que pode ser utilizado para complementar e ilustrar a marca, mas não como o elemento simples que deve mostrar um isologótipo.
Extrair o círculo com as espadas é o final natural do processo e ironicamente devolve-nos a uma composição moderna quase evocadora do escudo de armas histórico, da composição heráldica. Fechamos assim um outro círculo, o semântico-conceptual, e retornamos através do design e a estética modernas a uma certa evocação histórica. Este tipo de processos circulares sucedem com surpreendente frequência no design.
O símbolo, com esse estilo de traço, é doado de equilibrar com o traço das letras, reforçando assim o conjunto. O resultado é harmónico e dinâmico à vez, estável e em movimento, histórico e moderno.
É um isologótipo que pede ser centrado, ocupar espaço e ter ar ao redor, mas que pode à vez ser reduzido a tamanhos pequenos sem perda de legibilidade ou qualidade. Pode ser facilmente representado com várias técnicas, do vinil à serigrafia, e pode ser aplicado em uma soa tinta ou em negativo sobre fundos fotográficos ou em situações de baixo contraste.
A presentação a uma tinta é simples e direta de fazer, bem como outras adaptações que sejam necessárias. Tem variações para uma presentação horizontal (como, por exemplo, nos cabeçalhos da página da AdC):
Há uma harmonia interna no design em vários pontos — por exemplo, o largo do traço, que na representação primeira é de 2x o largo do traço das letras, e na representação horizontal de 1x esse largo. Essa mesma distância define os «ocos» ou espaços negativos no isologótipo. Também as distâncias entre as letras, entre as palavras, e entre as palavras e os objectos foram cuidadosamente ajustadas, já que particularmente na versão horizontal era necessário igualar o largo das palavras «arte do» com «combate» para o conjunto ficar simétrico:
Com certeza, a marca continuará a evoluir —raramente sou capaz de deixar fixado um desenho demasiado tempo, quando depende de mim— segundo apareçam necessidades e problemas novos ou encontre melhores soluções. Mas, pelo momento, gosto do resultado.
→ Por demanda popular, venho de colocar os desenhos do «relógio» das Doze Regras à venda na nossa loja da RedBubble. Há desde impressões econômicas em papel, até teia, madeira ou mesmo relógios literais. Repara em que há versões com o texto em galego/português/brasileiro, inglês e o original germânico. Lembra também que tens um PDF para descarregar grátis na base desta página.
Andre Paurñfeyndt foi um mestre da Arte do Combate do S.XVI (possivelmente filiado aos Freifechter), pertencente ao ramo serôdio da tradição de Liechtenauer, precursor de Joachim Meÿer (quem bebeu muito dele).
O seu tratado principal é divergente do estilo comum/anterior na KdF. Essa obra contém uma lista de doze regras focadas às pessoas iniciantes. Não é material a descobrir nada novo, mas é um conjunto útil de regras que podemos ter presentes ao treinar –talvez de particular interesse na hora de ministrar aulas.
Segue o texto original e uma tradução livre e rimada que eu fiz dele. Alguma das regras é bastante críptica, na linha das Zettel, e requer explicação (Glossa!), que desenvolvo por baixo.
ZWÖLFF LEREN DEN ANGEHNDEN FECHTEREN
(Geschrieben von Andre Paurñfeyndt.
Transkribiert von Alex Kiermayer.)
Zwölff Regeln laß dich nit verdriessen
Aus den mag dir große kunst entspriessen
DIE ERST
Welcher fuß vorn steht / sei bogen /
Der hinder gstrackt / ziert den leib oben.
DIE ANDER
Hoch gfochten / mit gstracktem leib /
Gwaltig Bossen auß der lenge treib.
DIE DRIT
Streych und tritt mit einander
Und setz dein füß wider einander.
DIE VIRT
Wer trit nach hewen
Der darff ſich kunſt nit frewen.
DIE FUNFT
Merck was die flech ist /
Ficht nit linck / so du recht bist.
DIE SECHST
Such schwech und sterck /
In des das wort eben merck.
DIE SIEBENDT
Prüff weych odder hert /
Nachreysen sei dein gfert.
DIE ACHT
Streych vor und nach /
Einlauffen sei dir nit gach..
DIE NEUNDT
Ficht nahend beim leib /
Die zeckrur nit vermeid.
DIE X
Tritt nahend in Bundt /
Anderst du würdest verwundt.
DIE XI
Vor der hadt / heyßt die lang Schneid /
Selten ein versatzung auff der kurtzen leid.
DIE XII
Erschrickstu gern /
Keyn Fechten lern.
AS DOZE REGRAS PARA QUEM SE INICIA NA ARTE DO COMBATE
(Pelo Freifechter Andre Paurñfeyndt,
em livre tradução por Diniz Cabreira.)
Não sejam as doze regras obstáculo:
elas são na Arte guia e báculo.
A PRIMEIRA
A perna avante fica dobrada,
sustém o corpo na outra esticada.
MAIS UMA
Luta alto, o corpo erguido:
a força nasce do passo comprido.
A TERCEIRA
Passos e compassos com ambos os pés
juntos e longe, mais uma vez.
A QUARTA
Quem os talhos contrários aguarda
na Arte nenhum prazer acha.
A QUINTA
Lembra bem como a luta é feita:
não há esquerda se vás de direita.
A SEXTA
Forte e fraco procura sempre.
Tem o Indes agora presente.
A SÉTIMA
Testa se o Binden é duro ou brando,
Nachreißen é aqui o teu aliado.
A OITAVA
Avanza e recua com pernas certas:
não seja Einlauffen nunca surpresa.
A NONA
Ataca fundo, perto do corpo;
tem os Zeckruhr sempre prontos.
A DÉCIMA
Fecha distância se o Binden afirmas:
assim não recebes de certo ferida.
A DÉCIMA PRIMEIRA
O fio verdadeiro é por diante da mão,
e pouca defesa há contra o irmão.
A DÉCIMA SEGUNDA
Não aprenderás, se te abate o medo,
da Arte do Combate nenhum segredo.
Análise
Regra 1: indicações de postura. Vale dizer que a postura é pouco descrita nos tratados antigos, mas as primeiras ilustrações presentam uma estrutura mais erguida, com o peso entre as pernas, que ficariam esticadas. No S.XVI vamos ver o peso deslocado (como norma) à perna avançada, que fica flexionada, e a traseira esticada.
Regra 2: o torso direito. Utilizar os passos para formar estrutura e potencia nos talhos.
Regra 3: mais instruções acerca de deslocamentos. Ênfase em jogar com os dous pés, em utilizar tanto movimentos breves coma largos, sempre controlados.
Regra 4: tomada das Zettel, acerca de ganhar o Vor e tomar a iniciativa.
Regra 5: tomada das Zettel, acerca de dar cutelada e passo desde o mesmo lado [no Zufechten, do meu ponto de vista].
Regra 6: bastante evidente. Mui canónica.
Regra 7: Idem.
Regra 8: controlo de distância, estabilidade. Evitar que nos surpreendam dominando a nossa distância, com Ringen.
Regra 9: ênfase nos ataques dedicados, com vontade de ferir, apontando a partes vitais ou lesivas (torso, cabeça, pescoço, ventre, virilha, etc)… mas sem esquecer os ataques «ligeiros», toques leves repetidos. Zeckruhr pode-se traduzir como «picadas de mosquito».
Regra 10: ligar a espada contrária na distância certa. Não serve ligar longe — isso é objecto de Durchwechseln e estocadas, etc. O Binden deve ser firme e manter pressão que ameace o corpo da outra pessoa, para forçar uma defesa também firme e assim poder trabalhar desde ele.
Regra 11: define os dous fios, e fala do uso do fio falso. O uso de ambos os fios é mui característico do KdF, e muitas vezes atacar com o fio falso em vez de fazer um ataque mais simples com o verdadeiro é o que dá a estrutura base para técnicas como alguns dos Fünf Hauen (Zwerch, Schiel, certas versões do Scheittel, certas do Krumphau), boa parte do Winden (Mutieren, Duplieren), etc.
Regra 12: Pudera parecer apenas uma rubrica, mas o certo é que transmite um elemento central da mentalidade e aproximação táctica do KdF ao combate: assertividade, auto-confiança, estabelecer o domínio sobre a situação, etc.
Preme no link seguinte para descarregar um PDF com as regras em inglês, alemão e galego-português, e as respectivas representações «em relógio».
Este exercício, que chamo de «Regra»,1 é similar às katas das artes marciais orientais: uma sequência de movimentos pensada para trabalhar a memória muscular e a forma técnica.
A «Regra 1 do Zufechten» inclui os movimentos mais básicos no jogo da espada. Atende especificamente ao Zufechten, deixando para posteriores formas a técnica própria do Krieg.
É uma sequência reversível (quer dizer: uma vez completada desde o Vom Tag direito, ao virar no sítio é possível fazer o caminho de volta desde o Vom Tag esquerdo).
As escolhas táticas nela apresentadas não são necessariamente ótimas. Trata-se de movimentos básicos pensados para quem está a se iniciar no jogo da espada longa, não de técnica canónica própria do KdF. Tampouco se trata duma «frase de armas».2 É possível conceptualizar partes da Regra dessa maneira, mas outras resultam muito forçadas. Trata-se, então, apenas duma cadeia de movimentos que já devem resultar conhecidos pelo seu uso nas aulas regulares e que tem como objetivo trabalhar a forma e a memória muscular.
Devo assinalar que esta regra é invençãomoderna, para ser utilizada nas aulas da Arte do Combate (ou livremente por quem quiser) como recurso pedagógico e de treino em solitário. Não foi tomada de tratado histórico nenhum, toda vez que não existem estas regras ou katas na tradição documental da Kunst des Fechtens.3
Ainda bem, as regras detalhadas historicamente para outras armas, épocas e tradições esgrimísticas costumavam ser mais simples, com menos movimentos, e o currículo conformava-se de muitas destas (ver as 32 Regras detalhadas por Figueiredo no Memorial da Prattica do Montante, por exemplo), polo que o meu uso do termo não é estritamente coerente como o uso histórico. Mas o currículo que utilizo na Arte do Combate está focado na Zettel de Johannes Liechtenauer e tem uma aproximação pedagógica mais sistemática, polo que Regras como esta servem, para os meus propósitos, como uma ferramenta de apoio ou resumo do trabalho feito em aulas anteriores.
Como nota final a esta digressão sobre a história das Regras: um dos documentos mais antigos da tradição esgrimística ibérica é o Las nueve reglas de la espada de dos manos, do primeiro terço do S.XVI. É um documento muito interessante e mostra que existia uma tradição de luta específica com o seu próprio sistema pedagógico e estilístico. Porém, sendo o único documento do sistema resulta muito difícil de decifrar. Em primeira aproximação, não parece compatível com a Kunst des Fechtens, mas será necessário um estudo maior dele no futuro.
Descrição da regra
Recomendo ver o vídeo já ligado acima após ler estas indicações. A gravação é algo velha e imperfeita, e hoje tenho feitas algumas pequenas mudanças. Devo gravar nalgum momento uma versão mais atual, mas essa dá para ver a ideia geral.
Opcionalmente, no início:
Desembainhar
Saúdo
Desde Vom Tag no lado dominante (assumirei uma pessoa dextra no texto):
Durchwechseln e Oberhstich desde Ochs direito + passo recto
Representação dos movimentos de pés. Também tentei indicar a posição da espada, mas a perspetiva limita muito neste aspeto. A linha horizontal representa onde está o centro de gravidade. A linha perpendicular a ela é a linha de ataque que nos une com a pessoa oponente.
Observações
Desde o Ochs direito final é possível girar no sítio (180º) e ficar assim em Vom Tag esquerdo, desde o que podemos fazer a Regra com lateralidade invertida.
É possível dividir a regra em duas partes bem definidas para facilitar a aprendizagem: o jogo baixo compreende os movimentos 1 – 4 e o jogo alto os 7 – 10, ligados ambos pela sequência dos dous Oberhauen defensivos. O jogo alto é mais complexo a nível biomecânico.
A aprendizagem (e o seu uso em exibições públicas) beneficia-se de fazer movimentos amplos. A medida que a Regra vai sendo interiorizada, estes devem virar mais fechados e compactos, seguindo as premissas do caminho mais curto.
Uma vez dominada a Regra, é possível trabalhar sobre ela de forma livre, introduzindo variações contra as reacções de um oponente imaginário: mudar o Zucken por Abnehmen ou por Durchwechseln ou por Abschneiden; ou fazer o próprio nos Unterhauen. O jogo de pés deve ser adaptado em consequência, e é possível que certas mudanças requeiram outros movimentos a seguir.
A Regra é adaptável para outras armas — por exemplo o Messer, lança ou mesmo mão vazia. É um bom exercício para quem já a domina na espada longa.
A Regra a mão vazia é uma boa forma de dedicar uns minutos todos os dias à prática da Kunst des Fechtens. Pode ser praticada na casa, no corredor, na sala — até no lugar de trabalho, no descanso. Não requer demasiado espaço e nenhum material específico.