«Pero Pardo, meu senhor»

Hoje é o 542 cabodano do assassinato do Marechal Pero Pardo de Cela, decapitado polos Reis Católicos por apoiar a rainha Joana «a Execelente Senhora», e resistir o ascenso de Sabela de Trastámara.

O Marechal é uma das figuras míticas do nacionalismo galego, a que se lhe atribui um caráter de resistência nacional e mesmo de vontade independentista que fica bastante longe da realidade histórica — mas nunca a história foi problema para o mito, verdade?

Sem mais preámbulos, aqui vos deixo «O Sangue da Frouxeira», composto em base ao mito romántico de Vicetto e companha, tirando alguns versos mais ou menos diretamente de Valentin Lamas Carvajal, (re)escrevendo os mais, e sonorizado via Suno:

Música e letra d’O Sangue da Frouxeira

Podedes descarregar o ficheiro em MP3, e tendes a música também em Suno, acessível para fazer remisturas.

Eis a letra:

Pero Pardo de Cela, imaginado em 1883 por Manuel Ángel Álvarez.

O Sangue da Frouxeira

«Per treyzóm tamém vendido
Jesús nosso Redentor,
e por questes treydores
Pero Pardo, meu Señor.»1

Na torre alta que o raio atravessa,
o Marechal deita a olhada na Terra.
Castela ruge, a fera tem pressa,
mais a Frouxeira resiste, firme na pedra.

Nem Acuña nem Chinchilla amedrentam
a velha águia negra da pena!
Frouxeira! Lanza cravada no ceio!
Reduto último do Reino ergueito!

¡Ai, Frouxeira, Frouxeira alta!
Nom por força nunca tomada!
Nem por fame! Nem por espada!
Senom por ouro e traiçom malvada!

O preço da vergonha: vinte e três criados.
Abre a porta na noite Roi Cofano.
Nom som espadas as que vencem a lida,
som as mãos negras da própria guarida!

[retrouso:]

/ O sangue do leal Pardo de Cela,
clama vingança na injustiça!
Façamos hoje ressuscitar dela
a independência e gloria da Galiza! /

Arrastam em ferros a Mondonhedo,
o nobre senhor da Cruz de Santiago.
O Bispo asseja, e nom tem medo,
pois mitra e coroa fan o estrago.

«Nom pido perdom a reis estrangeiros,
nem aos cregos que vendem o clam.
A minha lei som os meus devanceiros,
e a liberdade do nosso cham!»

Corre Isabel, co papel no peito,
o perdom real que a vida devolve!
Mais na ponte de pedra, de passo estreito,
a sombra da Igreja o tempo dissolve.

Detede o cavalo, senhora condessa,
olhade o rio, descansade a dor.
E chega o solpor e a morte começa,
E os coengos rim do vosso amor.

[retrouso]

/ O sangue do leal Pardo de Cela…

A praça cala! Verdugo corta!
O corpo cai! O sangue abrolha!
A cabeça rola! O povo chora!
Os olhos abrem! Um berro ecoa!

[retrouso]

/ O sangue do leal Pardo de Cela…

Dende o chão de pedra,
uns beiços que se movem,
e a voz de ultratumba
que os traidores sacode.
Nom fala piedade,
nem perdom na morte,
só uma palavra
que na terra agrome:
(“Credo… Credo… Credo…”)
(“Credo… Credo… Credo…”)
(“Credo na terra que me viu nascer.”)
(“Credo no sangue que ha volver.”)

/ O sangue do leal Pardo de Cela,
clama vingança na injustiça!
Façamos hoje ressuscitar dela
a independência e gloria da Galiza! /

«Anque a cova escarneçam,
ha fazer justiça
o sangue que ressuscita
a INDEPENDÊNCIA da Galiza».

Contexto histórico: mito e realidade

Benito Vicetto, na sua Historia de Galicia e Los Hidalgos de Monforte apresenta Pardo de Cela como um improvável líder dos Irmandinhos, imaginando uma aliança entre povo e nobreza contra Castela. Para ele, o Marechal encarnava o «espírito suevo» de independência face ao elemento gótico castelhano, convertendo-o em mártir de uma luta patriótica unificada que serviu para fundar o mito da resistência no imaginário popular.

Posteriormente, Manuel Murguía corrige a fantasia irmandinha de Vicetto mas dota o mito de maior calado político. Para ele, a derrota de Pardo de Cela não foi só o fim dum senhor feudal, senão a morte da soberania do Reino da Galiza, o início da «doma e castração» imposta polo imperialismo dos Reis Católicos. O Marechal erige-se assim no último defensor da dignidade nacional e das instituições próprias face à assimilação centralista e ao submetimento a Castela.

A figura do Marechal permaneceu simbolicamente importante para o galeguismo através do XIX e o S.XX. As Irmandades da Fala, a Geração Nós e o Partido Galeguista, por exemplo, fizeram uso extensivo da mesma, como podedes ver neste folheto de 1935 (mais info e fonte da fotografia neste artigo do Nós Diáro):

Famosamente, Ramom Cabanilhas e Antom Vilar Ponte escreveram uma ópera titulada O Mariscal entre 1920 e 1926. Houve várias representações da mesma na Galiza e em Madrid no ano 1929, mas ficou abandonada até o presente. Houve apenas uma única representação em tempos presentes (2010), o que é uma tragédia. Se tivéssemos um país de verdade, esta obra devia ter uma representação anual por estas datas. O libretto, por certo, é notavelmente difícil de conseguir (eu não tenho uma cópia, e se me fazedes chegar a letra agradeceria imenso).

A historiografia galega atual, nacionalista mas científica (cf. Lópes Carreira ou C. Nogueira), apresenta em Pardo de Cela a última resistência da elite autóctone face à imposição centralista do nascente protoestado espanhol — não como um projeto explícito de independência do Reino, mas em defesa dos seus privilégios de classe e rendas eclesiásticas contra o Estado Moderno emergente, que sim persegue um objectivo. A execução é interpretada como um ato político deliberado que decapitou a classe dirigente do Reino da Galiza, consumou a «doma e castração» e, por essa via, abortou o desenvolvimento institucional autóctone para a idade moderna.

 

nek-gris-100x100

 

 

Banda sonora: «A Zettel» de Liechtenauer… musicada

Neste verão dediquei algo de tempo a por música a uma tradução (muito livre e adatada) da Zettel de Johannes Liechtenauer.

O motivo é simples: se o propósito do poema era mnemotécnico, para ajudar o estudantado lembrar… que melhor forma de lembrar que com música?

Preme na imagem a seguir para visitar a página dedicada a este projeto auditivo, ouvir o resultado e, se queres, descarregar as músicas:

 

nek-gris-100x100

 

Crónica: «Retorno a la Espada 2025»

Vai aí uma semana do «Retorno a la Espada» que a gente da Palestra Pedro Monte, dirigida por Pedro Velasco, organiza — e já passou a ressaca pós-evento e é hora de recapitular.

Este ano foi um encontro bastante íntimo, a reunir instrutores e salas com uma perspetiva comum das HEMA. Os instrutores foram Iacopo Zanini, Pedro Velasco e Esko Ronimus e os workshops tiveram, ademais, um fio condutor muito interessante: a evolução da biomecânica nas escolas itálicas de esgrima ao longo do S.XV.

Começou o encontro com umas conferências contextualizantes na sexta-feira, por cada um dos instrutores. Depois, ao longo da manhã e tarde do sábado e manhã do domingo, apresentaram-nos em forma prática a sua compreensão de como Fiore Furlano, Pietro Monte e Philippo Vadi compreendiam técnicas comparáveis.

O interessante do assunto foi o foco colocado na evolução das espadas nesse período: das armas de menos de 120 cm de Fiore, às «espadas muito longas» de Monte (~140cm), até os spadoncinos de Vadi (já chegando quase ao tamanho do montante). Ao analisar a forma em que autores relativamente próximos no espaço e no tempo as utilizaram, pudemos ver como as mudanças de peso e tamanho em cada ferramenta obrigam a adaptar postura, movimento e manuseio.

Obviamente as jornadas completaram-se com abundância de assaltos livres. Não sempre é fácil encontrar espaços nos que fazer uma esgrima técnica e segura como a que trabalha a gente da Palestra Pedro Monte, e por isso extenuamos as possibilidades de o fazer aqui.

Como o encontro decorreu no próprio espaço da Palestra, em todo momento tivemos todo o tipo de brinquedos disponíveis. Além disto, notava-se a gente da escola descontraída e confortável — como se estiverem na sua própria casa, que era em efeito o que acontecia.

Este ambiente de tranquilidade, comunidade e familiaridade é algo que eu pessoalmente valoro muitíssimo de partilhar tempo com os nossos camaradas de Granada. O seu projeto técnico é muito interessante — mas o projeto humano que o sustenta é um autêntico fito no mundo das HEMA. Esta equipa não tem medo de se envolver socialmente e construir comunidade — e isto não tem preço.

Venham muitos mais anos, companheiros.

 

nek-gris-100x100

 

Crónica: «Tertúlia Galego-Portuguesa 2025»

Como está sendo já habitual, na fim de semana do 5-6 de abril decorreu a Tertúlia Galego/Portuguesa 2025.

Esta terceira edição aconteceu em Redondela, e atenderam quase 100 pessoas, de 11 clubes diferentes, de ambos lados do Pai Minho para dous dias de convívio e partilha de impressões e conhecimentos teóricos e práticos, e muitos assaltos.

Lá estivemos 100Tolos, Academia de Esgrima Histórica, Asociación Ourensá de Esgrima Antiga / Academia da Espada / Armizzare (AOUREA),1 Armis Nostrum, Arte do Combate, Clube Escola de Esgrima Hungaresa de Pontevedra (CEHEPo), Clube de Esgrima Histórica de Paderme (CEPA), Espada Negra, Falcata, Grupo de Estudos Medievais e Artes de Combate (GEMAC) e, obviamente, a Sala Viguesa de Esgrima Antiga (SVEA), que foi a sala anfitriã do encontro este ano.

As aulas foram selecionadas entre as achegadas polos clubes participantes, com o critério de visibilizar gente e/ou grupos que não tiveram protagonismo em anos anteriores, e foram:

  • Timoteo Soares (GEMAC): Espada e broquel – Introdução e aplicabilidade às fintas.
  • Pablo Cachafeiro (AOUREA / ARMIZARE): Espada longa – Entendendo assimetrias em Fiore
  • Orlando Silva (ARMIS NOSTRUM): Espada longa com armadura – Sistema Armizzare
  • Filipe Martíns (AEH): Navalha, adaga, punhal – das bodegas às trincheiras
  • Diego Conde (AOUREA / ADE): Roupeira – Introdução à Verdadeira Destreza
  • Vasco Alves (AEH): Escudos de gota / lágrima / cometa em formação
  • Rui Ferreira (ESPADA NEGRA): Espadim – a Glizade: tecnica e aplicações
  • José Rojo (CEPA): Espada longa – Joachim Mëyer
  • Adrián Cubela (CEHEPO): Arbitragem para a Liga Galega de HEMA
  • Duarte Puga (100TOLOS): Sabre – Merelo e Frias

Às aulas somaram-se muitas horas de assaltos livres com todo tipo de armas, e mais uma variante de jogos de armas organizados que deixou uma cheia de braços coloridos com os reconhecimentos entregues às pessoas com quem mais gostamos de partilhar tempo e cruzar ferros.

A nivel pessoal, a maior satisfação para mim foi ver reunidos clubes de todo o nosso espaço atlântico, mesmo tendo histórias e perspetivas muito diferentes.

Como está combinado já organizar o encontro do ano 2026 na cidade de Porto, por gentileza da GEMAC, e também o do 2027 em Ourense, nas mãos da AOUREA, podemos com isto dizer que o formato da Tertúlia Galego/Portuguesa está consolidado, e tem percurso para o futuro.

 

nek-gris-100x100

 

Proposta: Encontros Antiendogámicos

O passado 30 de novembro fizemos um encontro nas instalações da AdC de Compostela aberto a vários clubes da comunidade galega para fazer, exclusivamente, assaltos livres. Chamamo-lo «Encontro Antiendogámico», nome roubado da imaginação desbordante de Diego Conde.

Foi breve (uma manhã dum sábado), levou bastante pouco trabalho e resultou satisfatório, e em consequência vou repetir o modelo.

Penso que é importante que os da AdC não sejam os únicos encontros deste tipo, e penso também que cada grupo deve dar-lhes o seu caráter particular.

A minha ideia com este texto é animar-vos ao resto das salas galegas para fazer os vossos prórios encontros antiendogámicos de assaltos livres, e transformar assim «antiendogámico» de nome em adjectivo que qualifique o vosso encontro específico.

Conceito

Um encontro antiendogámico, como eu o defino, consiste em proporcionar uma data e um espaço para:

  • Encontrar gente doutras salas.
  • Experimentar.1
  • Comparar notas, técnica, ideias, equipamento e demais.

Interessa-me fazer este tipo de encontros cada 3 ou 4 meses. Portanto deve requerer trabalho mínimo: solicitar o espaço, comunicar com os clubes, definir o tipo de esgrima que quero para o encontro, e vigilá-la o próprio dia. Mais nada (e não é pouco).

Então:

  • Consiste exclusivamente em assaltos livres e atividade improvisada: nem aulas, nem competição séria,2 nem atividade ordenada.
  • O público gere-se a si próprio. Não se proporciona seguro. Cada quem deve trazer a sua água, fruta ou o que for. Não se organiza uma comida depois.
  • É um evento por convite, não aberto. A ideia não é excluir, mas sim ajustar o tipo de esgrima que vai acontecer no teu evento aos teus interesses.

Estes pontos simplificam enormemente a comunicação e a gestão. Ao não ter programa, não há que organizar um horário de atividades, instrutores, etc. Ao não ter que gerir inscrições nem número de pessoas, não há que se preocupar por refeições nem reservas para jantares, etc.

Ao ser só por convite, embora não tenhas que fazer um programa, estás a seleccionar o tipo de clubes participantes. Isso permite-te modular o tipo de esgrima que queres ver no encontro.

E ao convidar por clube, e não individualmente, minimiza-se o número de interlocutores para organizar o encontro.

Recomendações

Define o tipo de esgrima que queres ver. Eu aposto por jogo livre com proteções minimalistas, trabalho técnico e muito controlo. Outro clube pode querer assaltos atléticos e proteções pesadas. Outro pode achar interessante fazer uma esgrima de exibição de regras/katas …sei lá: estou a inventar sobre a marcha. O tema é que não todos têm por quê ser iguais, mas é importante comunicares com clareza a esgrima que queres ver no encontro, para a gente saber o que aguardar. (Eu não comuniquei bem isto na edição primeira, por exemplo).

Convida gente (grupos, clubes, escolas) que faça a esgrima que queres ver, sobre todo nas primeiras edições. Ainda que isto parece que vai em contra da antiendogámia, serve para estabelecer a cultura do teu encontro. Quando tenhas um grupo habitual de clubes mais ou menos na mesma sintonia, podes acrescentar outros. Desta forma abres cada vez mais o evento, mas manténs o espírito.

Não tenhas medo em mudar de rumo. Após fazer uma ou várias edições podes encontrar cousas que queres mudar, ou fazer melhor: muda-as. Todo está sujeito a mudança. Do que se trata é de desenvolver a atividade da forma em que aches proveitosa, e de proporcionar espaços diversos para a nossa comunidade se encontrar.

A variedade é proveitosa

Estas são as minhas recomendações, viradas para simplificar a minha vida no máximo possível, e assim repetir este encontro com regularidade. Como imagino que também sodes pessoas ocupadas, imagino também que vos resultarám úteis.

Se tendes dúvidas a respeito da viabilidade dum encontro organizado sem, por exemplo, levar uma inscrição das pessoas participantes… Vinde a um dos nossos, e comprovai empiricamente que funciona. Tendemos sempre a criar mais burocracia da necessária.

Porém, cada quem é livre de fazer o que lhe preste na sua casa, obviamente. Longe de mim impor o meu modelo a toda a comunidade.

Em particular, pareceria-me interessante para outros clubes ou salas organizarem encontros com caraterísticas diferenciadas. Por exemplo, se os encontros da Arte do Combate favorecem uma esgrima com proteções mínimas, seria ótimo se outro clube organizasse um encontro mais virado para o uso de proteções pesadas.

Conclusão e coordenação

Também seria de proveito, penso, coordenar-nos. Acho que um tempo razoável entre encontros deste tipo são uns 3 meses. Se outros grupos vos animades a fazer os vossos (o que estaria bem porque reparte o trabalho e dá diversidade), o ideal é organizar o ano e não nos contra programar.

PS: desde a redação original deste texto (em abril de 2025) estám a decorrer encontros deste tipo organizados por mais clubes, e vamos coordenando-nos mediante um grupo de WhatsApp. Se queres organizar um encontro deste tipo desde o teu clube, fala comigo para te meter nesse grupo e coordenar-nos.

 

nek-gris-100x100

 

Campo Lexical da Arte do Combate – Nova Versão

Como este curso estamos a diversificar aulas com a ajuda de Cabaleiro Errante, é importante estabelecer um vocabulário prático comum. (Temos outros documentos para o vocabulário técnico, como o nosso breviário, que merecem também algum tipo de revisão futura).

Descarregar isto em PDF:

 

Lógica do assunto

O propósito deste Campo Lexical é ajudarmos à normalização do vocabulário que utilizamos para referir partes do corpo, atividades frequentes, equipamento e partes dos simuladores («armas»). Uma versão futura acrescentará nomenclatura para as partes do arnês, mas preciso aguardar à publicação dalgums trabalhos académicos, de modo que não está próxima.

Este documento não pretende ser uma autoridade definitiva, mas foi contrastado com um par de professores e utentes de português, para estabelecer uma relativa compatibilidade com o léxico utilizado ao sul da Galiza.

Porém, o propósito não é tampouco criar um guia de dicionário de poruguês desportivo, senão fixar os termos que nós utilizamos, sob os seguintes critérios:

  • destaque da terminologia histórica, onde estiver documentada (partes das armas)
  • conservação dalguma terminologia patrimonial galega, em uso nas nossas aulas («cavalos», «caluga», etc)
  • destaque das divergências com o uso transminhoto, onde as houver (o uso de «camisola», por exemplo)
  • uma cirúrgica e seletiva exclusão das variantes convergentes com o castelhano («pomo» é o exemplo mais limpo, pois existe na nossa documentação barroca a variedade «maçã»).

Este último ponto tem uma lógica própria: o estudantado da Arte do Combate é perfeitamente fluente em língua espanhola, mas não na galega (local ou internacional). É assim que de forma deliberada não coloco como alternativas termos como «nuca» ou «pomo», comuns à Galiza, Portugal e a Espanha, pois não vão ter dificuldade em compreendê-los na boca dalguém do sul. Se aparecerem no documento, facilitaria-se a escolha confortável da variante mais próxima do castelhano.

Finalmente — uma das fontes utilizadas para este léxico é o artigo que publiquei há uns anos no website da AGEA Editora: «Alguns nomes históricos em galego/português para as partes da espada». Está referenciado no documento, mas fica aqui o link para maior comodidade. O artigo tem à sua vez uma referência exaustiva das origens dos termos aí recolhidos.

 

nek-gris-100x100

 

«Cauda do meu elmo de bisso ourivi…»

«Hoje aprendi…»

…Que o bisso, ou «seda do mar», é um tecido antigo semelhante a um linho muito fino ou seda fabricado com as barbas dos moluscos, e que se for tratado devidamente com especiarias e suco de limão, brilha dourado ao sol.

Segundo Álvaro Cunqueiro, os cavaleiros galegos faziam as penas dos bascinetes dele:

O freixo está teste prá lança lavrar,
e o palafrém1 teixo venho de ferrar!

» Se ao maio vás2,
farás-me chorar…»

Cauda do meu elmo de bisso ouriví3:
o ar do maio nasceu para ti!

» Se ao maio vás,
farás-me chorar…»

Senhores farfãs4 da boa ventura!
Ameaça-nos Deus na cavalgadura!

» Se ao maio vás,
farás-me chorar!
O linho alvar5 não espadarei6,
de fio de sangue panos tecerei!»

— Cunqueiro,
em Dona do Corpo Delgado.

Referências

 

nek-gris-100x100

 

Crónica: «Tertúlia Galego-Portuguesa 2023»

Nesta passada fim de semana (e estamos a ter umas semanas ativas) tivemos o prazer de hospedar a Tertúlia Galego-Portuguesa de Artes Marciais Históricas — um encontro entre grupos atlânticos que vem já desde 2015.

Participaram a Academia de Esgrima Histórica (Lisboa), a Academia da Espada (Corunha) e a Arte do Combate (Compostela), juntando um total de 25 – 30 pessoas para dous dias de convívio e partilha de impressões e conhecimentos teóricos e práticos.

Começamos o sábado com uma aula de montante segundo Godinho ministrada por Xosé Castro…

May be an image of 11 people, people playing sports, people standing and outdoors

…a que seguiu uma introdução à spada a due mani de Marozzo por Eduardo Varela…

May be an image of 12 people and people standing

May be an image of 16 people and people standing

…e outra à luta corpo a corpo — abrazzare — de Fiore Furlano, dirigida por Filipe Martins.

May be an image of 2 people and people standing

Finalizamos a jornada visitando as duplas espadas (por Xosé)…

May be an image of 13 people, people standing and outdoors

…e a rodela (por Edu) de Godinho, com assaltos livres a continuação.

May be an image of 9 people and people standing

Na tardinha e noite fomos fazer uma ceia de convívio, e dar um passeio por alguns dos pontos medievais, barrocos e mais contemporâneos da cidade.

May be an image of 6 people, beard, people standing and indoor

O domingo de manhã ocupou-se com uma introdução aos aspetos mais caraterísticos da espada longa de Liechtenauer, em interpretação de Diniz Cabreira…

May be an image of 8 people, people standing and outdoors

…e finalizou com o exame de instrutor de João Oliveira, que com precisão e eficiência mostrou os fundamentos da luta com adaga e sem ela segundo Fiore Furlano, bem como outros aspetos mais gerais da arte do mesmo. Parabéns!

May be an image of 5 people, people standing, outdoors and tree

Temos que agradecer ao Nós Diário a cobertura mediática, e a Larpeiría polo suporte gastronómico na forma de sandes de jamom assado.

 

Não pudo faltar o Pão de Talhoffer, que sabemos imprescindível para qualquer treino respeitoso com as palavras dos velhos mestres.

May be an image of food

Em conjunto, achamos a experiência enormemente produtiva e satisfatória, e já ficamos combinados para arranjar o seguinte encontro.

Venham mais!

 

nek-gris-100x100

 

Crónica: «Retorno a la Espada 2023»

A fim de semana passada, uma pequeninha delegação da AdC tivemos o privilégio de nos chegar até o #retornoalaespada2023 — o encontro de esgrima histórica organizado pola Sala de armas “Pedro del Monte”.

May be an image of 10 people and people standing

Temos, em primeiro lugar, que agradecer a enorme generosidade e trabalho que fizeram. O encontro esteve muito bem organizado — cumprindo os tempos previstos, com informação em todo momento a respeito dos lugares e atividades, requerimentos e normas, etc. Mas a organização foi além da profissionalidade, abrindo as portas da que, em verdade, é a sua casa, para morarmos nela durante quatro dias. As comidas, o ócio, os risos e a companhia de Golfa e Monte não têm preço.

May be an image of dog and indoor

Tampouco tem preço a atmosfera criada e promovida: um espaço inclusivo, explicitamente discriminador das atitudes discriminadoras, gentil e ao tempo informal. Uma atitude progressista e aberta, onde há clara consciência de que estudamos artes perigosas, e a brincar com barras de ferro, e que portanto a prioridade deve ser o cuidado e bem-estar mútuo das pessoas que aí estamos.

May be an image of indoor and text that says 'LAS ARTES PALESTRA DE SON DIVERSAS POR DEFINICIÓN Sala o Αυmας'

A consequência imediata disto é que a gente da sala Pedro del Monte — e, através dela, toda a visitante também — procura praticar uma esgrima altamente técnica, cuidadosa, conservadora da integridade própria, com movimentos controlados e precisos. Uma beleza de ver. Um estilo que, ademais, permite desenvolver ações delicadas, como certo trabalho corpo a corpo, que doutra forma resultariam perigosas demais; ou trabalhar com um sistema de proteções mínimo, em benefício da destreza (e para alívio do calor, que lá não falta).

May be an image of 7 people, people standing and indoor

Tivemos oportunidade de gozar desta experiência, em condições privilegiadas, a manhã da sexta feira, off-event, na própria sala física de Pedro e os seus camaradas — e qué sala! Que inveja poder contar com um espaço assim! –, fazendo uma sessão de trabalho e posta em comum, e uns assaltos livres. Já na tarde fomos atender as conferências, das que vou assinalar a de Manuel ValleOrtiz, diretor da AGEA Editora, porque o resto delas foram ministradas polos mesmos nomes que os obradoiros do sábado.

May be an image of 5 people

May be an image of 16 people, people standing and indoor

Já o sábado, metidos nos workshops: a aula do Federico Malagutti – Martial Artist, Fencer, YouTuber resultou uma experiência educativa. Não atendemos, mas falam-nos muito bem do seminário de Gala MolBal — sim fomos testemunhos da destreza (e Destreza) que despregou nos jogos de armas da noite do sábado, resultando imbatível. A exploração da luta desarmada de Pietro Monte, a cargo do nosso anfitrião Pedro Velasco, foi muito interessante: o corpo humano é igual através dos quilómetros e dos séculos, mas as preferências de cada mestre conformam a arte que se desenvolve. E, obviamente, sempre é um prazer ver a nossa camarada Jessica Gomes, da Velha Guarda Marcial, mostrar o seu domínio do nosso patrimonial jogo do pau galego-português.

May be an image of 9 people, people standing and outdoors

Já nem é necessário falar dos impresentáveis Juan Diego Conde Eguileta e Eduardo Varela, da Asociación Ourensá de Esgrima Antiga e da Academia da Espada – Coruña, respetivamente. Fizeram estragos tanto no dia como na noite, tanto brandindo a espada como fazendo twerking. Se isto é motivo para orgulhar-nos por considerá-los amigos, já é matéria de debate. ?

May be an image of 13 people and people standing

Foi grato reencontrar velhas amizades que só podemos ver neste tipo de eventos — da Sala de Armas “Fiore dei Líberi” Vitoria-Gasteiz, ou da Asociación de Esgrima Histórica Ciudad de Ávila — e fazer outras novas. Levamos connosco o entusiasmo da delegação da Terra Umbría, ou a cordialidade da gente de El Arte de la Espada. Fica muita gente por listar, é claro, mas nalgum ponto há que parar.

May be an image of 12 people, people standing and outdoors

Em resumo — «Retorno a la Espada 2023» resultou um evento excelente, e está na nossa agenda para voltar. Ao tempo, o trabalho da sala de armas «Pedro del Monte» pareceu-nos extremamente recomendável, e aguardamos partilhar com ela projetos no futuro.

Venham mais!

May be an image of 8 people, people standing and outdoors

May be an image of 7 people and indoor

May be an image of 9 people, people standing and indoor

May be an image of 5 people, people standing and indoor

P.S.: Quatro inspeções das forças de ocupação espanholas tivemos que passar. Quatro! Só numa delas nos fizeram deter o carro, entregar os documentos e baixar dele. Quando o agente começa a apalpar as sacas e a perguntar «¿Aqui hay armas?», a resposta de «Sólo espadas, señor agente» foi, tristemente, suficiente. Não pudemos evangelizar a palavra de Liechtenauer como gostaríamos…

May be an image of car and road

 

nek-gris-100x100

 

Gritos, estética e esgrima

→ Recentemente comentávamos no grupo de Telegram da AdC um fio de conversa do subreddit r/fencing onde se discutem os berros e o ruído nas competições de esgrima olímpica. O estudantado da Arte do Combate pediu a minha opinião ao respeito, e pensei que estava bem resumir aqui também os pontos daquela conversa para futura referência.

Se ledes o fio de Reddit, veredes que a questão dos berros e do ruído na esgrima olímpica causa problemas. Há gente que se satura rapidamente com espaços ruidosos. Um encontro de esgrima (e de HEMA, mais) já gera muito ruído de seu, com o bater das espadas, movimento de pés, etc. Ademais, tendem a ser em pavilhões com muito eco, amplificando o assunto. Se a isso somamos os berros, pois pior.

Além do ruído de seu, os berros têm para mim o problema que envolvem, direta ou indiretamente, a oponente. No melhor dos casos, é um berro de êxtase ou de frustração se consegues ou falhas em fazer o que pretendias. Isso não é exatamente um ataque pessoal, mas alguma pessoa pode ver-se coibida ou limitada se o interpreta assim.

Até certo ponto é responsabilidade de cada quem interpretar bem o que está a suceder (como o é lidar com espaços ruidosos, se a atividade o demanda). Mas, por outra parte, penso que numa atividade de grupo temos a responsabilidade de tentar criar o melhor ambiente possível para a gente com que partilhamos a atividade — e isso, para mim, implica fazer que se senta confortável.

E já no aspeto estético — eu não gosto. Penso que há uma certa dignidade no que fazemos que está bem manter. Está bem reconhecer os tocados da outra pessoa. Está bem rechaçar os nossos se consideramos que não foram de qualidade. Está bem não explorar uma situação que vai além do contexto do assalto — por exemplo, se algum elemento externo distrai a outra pessoa.

Na mesma linha, acho que está bem não berrar, como norma. Igual que o público dum dos nossos assaltos normalmente não berra animando a qualquer uma das partes, penso que as combatentes tampouco devem berrar.

Há exceções, obviamente. Às vezes uma ação é tão espetacular que o público solta uma ovação, ou mesmo aplaude. Às vezes cagamo-la tanto que é inevitável não soltar uma maldição de frustração. Eu penso que isso tudo é normal, e não se passa nada. O elemento chave é a atitude. O que discute o fio que vos passei é a atitude, mais ou menos dominante nalguns setores da esgrima desportiva atual, de que berrar é parte do desporto.

Eu penso — mas já sabedes que penso isto de muitos aspetos do que fazemos — que essa atitude de berrar é intrínseca ao aspeto competitivo, polo menos tal e conforme entendido hoje em dia. Penso que não podemos ter um circuito regular e consolidado, padronizado e com rankings, e onde eventualmente alguma gente até consiga ser profissional… sem ter gente que berre. Os tenistas berram e rompem raquetas. Os futebolistas berram com os árbitros ou outros futebolistas. Os atletas deixam-se cair de joelhos a chorar se perdem… Isso todo é o que vemos na cultura mediática do desporto de competição atual.

Se levamos a esgrima histórica nessa direção — a do desporto de competição de massas — isso é o que vamos obter. Vai ser quase impossível pretender uma cultura estética divergente da hegemónica.

Portanto, e em resumo:

  • penso que berrar (e fazer ruído, em geral) é pouco respeitoso
  • penso que ademais é pouco estético
  • penso que só se pode evitar via cultura e atitude
  • e penso que essa cultura e atitude alternativas não são compatíveis com a direção que a esgrima olímpica tomou, que parte das HEMA parece querer.

Caveat

Que uma gente queira essa cultura de competição, e eu (e outra gente) queira(mos) outra não é exatamente uma dicotomia. Podem existir ambas. É possível ter eventos de HEMA-desporto onde a gente berre e atue como na esgrima olímpica, e é possível ter em paralelo eventos calmados onde a gente foque na diversão, nos aspetos técnicos e em partilhar a experiência em coletivo.

Há espaço para conviver nas diferentes aproximações. Mas é importante que estabeleçamos as expetativas, nas atividades que organizamos, para que as pessoas que a elas atendam saibam como se comportar nelas, e o que podem aguardar.

 

nek-gris-100x100